Nota a um professor desconhecido

Prezado professor,

Não sei quem foste, mas sei que morreste. Sei que morreste porque comprei os teus livros. Não todos, porque eram muitos. Mas o suficiente para que, ao menos, esta nota saísse. 

Teus livros estavam dispostos às centenas, todos em uma banca da Almirante Barroso, junto ao Largo da Carioca. Livros límpidos, de boa cepa, em idiomas vários, predominando, é claro, o inculto e belo, mas também os havia em língua bárbara, em língua irmã e em língua afetada. O rapaz da banca, gordo e gentil, deixou-me escarafunchar as prateleiras de cima a baixo, em dois dias consecutivos. O custo das obras não me foi alto, os preços eram módicos diante da qualidade do que se vendia. Então, nesses dois primeiros dias, saí com uma dúzia − talvez duas dezenas − de livros em grandes e onipresentes sacolas plásticas.

Folheei e li trechos de vários desses livros no entre-tarefas diário, ou no rabo das horas, como dizem os portugueses, mas a imagem das prateleiras em que se assentava teu tesouro perdido lá na Carioca − imaculado e não resgatado por carioca nenhum − permanecia em minha cabeça mais do que os trechos lidos. Controlei-me, porém, e não voltei à banca. Mas isso foi só por sete dias, ou menos, que eu sou fraco. Logo voltei e, pedindo licença ao rapaz gentil e gordo, mais uma vez, a terceira, perscrutei todas as prateleiras.

Desta feita, enquanto se esvaía não só o horário de almoço (sim, neste horário os servidores públicos saem da gaiola de ouro − de tolo − em busca de ouro verdadeiro), mas outra hora adicional, repassei metodicamente todo o lote, que, pelo jeito, trazia obras antes não vistas, e pouquíssima pirita. Ao rapaz da banca − que até então somente respondera, mui clara e cordialmente, por sinal, a perguntas dos transeuntes acerca de orientação espacial urbana no Centro do Rio, inclusive em inglês (“Onde fica o mosteiro de São Bento?”;  “Sabe me dizer para que lado fica a Assembleia?”; “How can I get to Santa Teresa?”. Em tempo: em que lugar outro do Brasil, dono de banca de livros ou jornais fala bom inglês, senão no maldito Rio de Janeiro?) −, ousei perguntar, na condição de cliente interessado, quase no tom dessas bestas diárias que vemos a nosso redor no comércio, se de fato havia novos livros ali e a quem teriam pertencido. Não quis saber, naturalmente, o nome do antigo dono, mas apenas que espécie de pessoa fôra (sic para o “ô”). E o rapaz disse: “Era professor da área de linguística, semiótica, ou coisa do gênero…”.

O espólio, enfim, estava ali, em média vendido por 25 reais a unidade. Carreguei mais um lote, menor, e saí razoavelmente satisfeito, não obstante advertindo o rapaz de que talvez voltasse na semana seguinte, sentindo-me um pouco envergonhado pela possibilidade de fazê-lo outra vez – isso diante da impossibilidade que é disfarçar-me quando aqui falo, ainda mais perante ouvintes de bom ouvido e conhecedores de idiomas como ele, que certamente me reconheceria não só pela barba ou pelos óculos, mas pelo sotaque e fonemas, carentes de chiados e erres rascantes e rococós. Estávamos em fevereiro.

Então veio a pandemia (será endemia?), já era março, e, trancafiados em casa, ficamos todos alheios ao mundo do outro. Os livros do professor defunto deixei-os em algum móvel no trabalho, onde ficaram em sono profundo por três ou quatro meses, até que novo resgate se desse e, agora, julho, quase agosto, tenho-os todos em casa, junto aos meus, à espera de uma vaga nas prateleiras. O bibliófilo compra muito mais do que lê. Esse é um mal que certamente será expurgado à porta do inferno, como diriam alguns. Mas não há inferno alhures, diria eu, o inferno é aqui mesmo, como diriam tantos outros, nessa miríade de lugares-comuns por que nos guiamos.

O abarrotamento das prateleiras é meu, mas certamente foi teu também, prezado professor, tu que morreste e encontraste, depois de morto, este outro irmão pecador. Sim, compramos muito mais do que lemos, porque, como já explicaram tantos sábios, em especial um certo Auerbach, que, nos anos 30, na Turquia, precisou ensinar bárbaros a partir do cabedal de informações que guardava em sua mente, bastam-nos poucos livros para que entendamos de onde vem o que ocidentalmente somos. Basta-nos a Ilíada e a Odisseia; basta-nos a Bíblia, dizia o sábio (apesar, digo eu, daquele ramerrão soporífero do Pentateuco, com suas regras e mais regras pormenorizadas, narcisistas, egóicas e neuróticas, não mais seguidas, quero crer, pelos homens de boa-vontade). Basta-nos, talvez, prossigo, a Divina Comédia e mais uns cinco ou seis livros aleatórios, de nosso gosto pessoal, para formarmos a base da leitura dos outros mil, que virão durante o ciclo a nós destinado antes da volta à terra.

Escrito em 28/7/2020.

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De volta ao país do Carnaval (passando por um “festival” de Jazz)

Pedro Teixeira - O Globo

Não vou discorrer aqui sobre as maravilhas do Carnaval brasileiro, até porque, se delas fosse falar, teria de obrigatoriamente volver ao passado, momento em que eu, jovem, ainda descortinava prazeres –  mundanos, é bem verdade – em apreciar glúteos e vulvas quase à mostra pelas ruas do Rio de Janeiro.

Hoje, em pleno Carnaval, se você resolver simplesmente deambular pelo centro da cidade, lugar outrora aprazível para um Machado de Assis e para outros intelectuais mais recentes (estes de índole pretensamente  popular e devidamente cínica, com seus copinhos de whisky bem aconchegados junto ao peito), encontrará, caso seja bom observador, razões para alguma ponderação.

Tomemos o Largo da Carioca e, nele, três coisas bem distintas que se nos revelam facilmente à  vista em um sábado de Carnaval: nos humanos, muitíssimo presentes e barulhentos ao extremo, parece querer despontar a latente cardina que impregna a roupa mulambenta de qualquer povo depauperado (apesar da propaganda em contrário de que nossos pobres sejam de classe média e de que estejam felizes a não mais poder); no chão, outrora terra, a mistura de urina e fuligem de gás carbônico, que cobre as onipresentes pedras portuguesas das ruas da antiga Capital da Guanabara, encardindo-as – e dando ao cidadão a inusitada oportunidade de sentir na pele, ou por entre os dedos, caso ande de sandálias, como era caminhar por entre as ruas de uma cidade imunda do medievo, ainda a milhas de distância de qualquer saneamento básico; por fim, ainda no chão, outrora terra (e pasto), cerca de três quartos do espaço urbano do citado Largo tomados por artigos chineses de plástico (mormente chapéus brancos de malandro carioca à venda por 4 reais e alguns centavos) disponíveis para visitantes desavisados e para os paupérrimos e desdentados habitantes locais, todos eles muito cordiais, diga-se sem ironia, naquela limite da porção de educação que lhes coube – impossível não pensar política e economicamente aqui –  por obra da sempre justa e histórica distribuição de renda do País.

Pensei em tudo isso enquanto caminhava, a partir da estação de metrô da Carioca, rumo à Rua do Lavradio, hoje tida como uma espécie de “pólo cultural da cidade” e onde se vê, aqui e ali, graças a um ou dois bares do local, surgir um bom grupinho de jazz, essa música americana “tão branca” e tão estrangeira, como pensam os burros xenófobos locais defensores incontestes do samba negro de raiz, em meio a uma cidade que parece prezar, em especial, somente três estilos de música: o próprio samba, seja em sua vertente mais refinada, voltada ao cidadão classe média, apreciador, por ser “nobre”, mais de Chico Buarque de Holanda do que de Martinho da Vila,  seja em  sua versão mais propriamente popular, em estrato economicamente mais baixo, como é o caso dos hoje globais Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz (ambos representam, também, uma simbiose do gosto local, agradando ao Leblon e à Madureira) – enfim o samba continua sendo um escudo para o cidadão obtuso que se julga, só ele, bom sujeito e bom da cabeça; o segundo estilo é o funk de morro, preferido pelos analfabetos musicais (e funcionais) adeptos da facilidade de se viver e pensar monocordicamente, com a bunda em primeiro plano e o cérebro como mero e dispensável acessório; por fim, resiste ainda, nas classes mais afluentes,  a soporífera e cambaleante bossa nova, naquele estilo de vida “barquinho” e “Zona Sul”, no pior sentido do termo e, hoje provavelmente, hit em alguns condomínios chiques da Barra, onde elegantes senhoras, além de esconder o pescoço já enrugado, dançam sozinhas lembrando-se dos bons tempos de Tom e Vinicius.

Entre esses três gêneros, imiscui-se, às vezes, um rockinho, um jazzinho ou um blues, em lugares bem demarcados da cidade, além é claro –  maldição – das já tradicionais músicas para hipsters barbudinhos e descolados, todas elas, no fundo, ainda naquele estertor cíclico 120 bpm de vinte anos atrás sob roupagem um pouco mais moderna, mas, ainda assim, impregnada do lixo conceitual e eletrônico segundo o qual DJs “tocam” instrumentos e Charlie Parker é só uma seqüência de compassos a ser copiada e colada.

Pois bem, minha caminhada até a Rua do Lavradio deveria levar a um festival de jazz (intitulado Lavradio Jazz Fest). Pensei: deve haver um palco, uma banda e alguém tocando jazz. Jazz é humano, não há máquinas no comando e, mesmo no Rio, só de vez em quando degenera na tônica e quinta do samba… Não era de todo ruim, portanto, a perspectiva.

A Rua do Lavradio, é bem verdade, já não era tão suja quanto o Largo da Carioca ou a própria Rua da Carioca, por onde também passara; não era, porém, nenhum lugar asséptico ou escandinavo (pelo chão, as tradicionais tampinhas de garrafa e baganas a granel, no melhor estilo brasileiro porco). No geral, contudo, um ambiente suportável mesmo para quem já se avizinha dos cinqüenta e anda um pouco cansado de dourar a pílula…

Surpresa maior mesmo é que, para além do divulgado festival, o que se viu foi o uso do espaço público, pelo bar organizador do evento, da maneira mais individualista possível. Tudo feito de acordo com as normas do mercado, num país em que o mais se ouve é a hipócrita louvação do coletivo: o palco do chamado “festival” ficava voltado apenas para a fachada do boteco organizador. Quem, porventura, estivesse em outro local da rua, ou em outro bar, nada divisava, uma vez que os músicos ficavam encobertos pelos panos laterais que fechavam o palco.

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Em suma, o festival foi para umas três ou quatro dezenas de afortunados que chegaram antes das 13h (cheguei às 13h20) e se acomodaram nas mesas do bar organizador, diante do palco (suplantados, sorrateiramente e aos poucos, tão logo a música começou a ser executada, por uma horda de outras duas ou três dezenas de pessoas muitíssimo educadas que, na cara dura, se interpuseram, em pé, entre os afortunados e o palco. Veja a foto acima, com a indefectível presença do chapéu branco de plástico). Um show de brasilidade, do nosso já conhecido calor humano…

Os demais freqüentadores da rua ficaram apenas com o som. Eu mesmo ouvi a primeira banda, que nos brindou com alguns clássicos, e logo fui-me embora– cansado de imaginar a face dos músicos (em um show ao vivo, em um festival – vejam bem: “festival” –, presume-se que a expressividade do artista é algo a ser, perdoem-me a obviedade, visto. Não fosse assim, ficaríamos todos em casa, fazendo uso de nossos vinis, cds e similares). Fui-me embora, dizia eu, desta feita rumo à Glória, para ver o quanto a cidade estava limpa e organizada. Com cuidado, caminhando devagar, foi-me possível não ser atropelado e nem notar o quanto a miséria estava lá presente, como as hemoptises ressequidas no pijama de um tuberculoso da antiga Ilha Grande.

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“Joga moleque” ou “Joga, moleque!”?

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Não tenho muita coisa contra a publicidade, o que é, naturalmente, um eufemismo para dizer que, de fato, tenho muita. Política, geográfica e historicamente, talvez tivesse menos, caso não vivesse, como vivo, no Brasil.

Como sabemos, o país do futebol (e do Carnaval e de outra coisas importantes…) sediará a Copa do Mundo neste ano, o que, por si só, justifica a profusão de chamadas publicitárias sobre o assunto, de  longas e “épicas” (ai, Homero!) propagandas em nossos gloriosos, premiados e mundialmente reconhecidos meios de comunicação. Seria rabugice extremada de minha parte vir aqui reclamar disso, tanto mais quando vivemos em regime capitalista, sobejamente afeito ao vender (sim, o verbo é intransitivo)?

Ocorre que nesta modorrenta tarde de domingo, desloquei-me até certa livraria da outrora chiquérrima Visconde de Pirajá, em plena Ipaneema, como dizem os gringos, para comprar um livrinho que faltava em minha biblioteca (o clássico de Thomas Kuhn, lançado pela Perspectiva há muito tempo). Fiquei lá umas duas horas, revirando livros, lendo orelhas e impressionando-me com o preço nada convidativo do conhecimento ou da cultura materializada em papel e letras aqui no país dos balangandãs. Aliás, um dos livros em que fucei foi o novo do velho e bom Luiz Costa Lima, no qual o autor maranhense (é sempre bom saber que o Maranhão tem homens de valor, como o próprio Costa Lima, como Odorico Mendes…) discorria, em um pequeno capítulo, sobre a qualidade de nossa educação, isso depois de usar como intróito a tragédia de Santa Maria “(RS)” – para mim, gaúcho, nem era necessário especificar o Estado…

Enfim, não comprei o novo livro de Costa Lima, pois o Kuhn estava na frente em minha lista pessoal e, principalmente, porque não há quase mais espaço para livros aqui em casa, segundo minha mulher.

Na volta da charmosa livraria (em cuja fila do caixa, diga-se de passagem, tive de receber, por motivos que ignoro, demonstração de desprezo de uma dama sexagenária e descolorida da sociedade carioca, que, ao ouvir o funcionário gritar “próximo” – eu –, simplesmente cortou minha frente no melhor estilo Rua da Assembléia) – na volta da charmosa livraria, dizia eu, decidi fazer o percurso até o metrô, rumo a Copacabana, a pé, o que dá umas seis ou sete quadras. Nessa caminhada, numa das esquinas do bairro daquela coisa mais linda, mais cheia de graça de outrora, deparo-me com a figura acima, que ilustra este texto. Que surpresa desagradável!

Não parei, mas, já passando o anúncio, voltei o pescoço para acompanhar bem o que estava escrito, para identificar a origem do troço. Era obra da Nike (ai dos gregos, ai da Vitória, ai de mim…), essa potestade do mundo esportivo, patrocinadora de Gigantes do futebol, de campeões  mundiais, como, inclusive, do meu Sport Club Internacional, a que tantas tardes e noites de minha vida já dediquei (mas essa é outra história…).  Lá, no quase outdoor, estava escrito, em português e quimbundo, como sói acontecer em terra miscigenada: “Joga moleque” (sem as aspas, é claro). Sem vírgula também e sem ponto algum, seja ele final ou de exclamação.

Primeiramente, pensei: “Sim, é possível”. As novas hordas, dominadoras de dispositivos eletrônicos de última geração, pouco ligam para pontuação. Preciso ser mais condescendente. Ademais, os lingüistas de hoje – nem só de hoje, na verdade – são todos muito judiciosos, modernos e abertos a inovações: “O importante é comunicar”, dizem eles. Por que implicar, portanto, com a suposta falta da vírgula a separar verbo de vocativo? Por que exigir, então – violação máxima do senso comum hodierno –, ponto de exclamação ao final da frase? Por que “sofisticar” tanto a coisa? Por que não deixá-la assim, simples, sem ponto, sem nada, acessível ao homem comum de hoje, e, ainda por cima, corroborante da linguagem dos onipresentes “dispositivos móveis”?

Segundamente, como diria Odorico (não o tradutor da Ilíada, mas o de Dias Gomes), pensei: “Bom, pelo menos, terei algo sobre o que escrever”. E é isso que faço aqui, escrever sobre um descompasso. Descompasso entre o modo como vejo minha língua, que é a mesma do publicitário, que é a mesma de Neymar Júnior, que é a mesma de toda uma geração de brasileiros. Descompasso entre o que penso sobre o meu País e sobre o que pensa a massa ainda não alfabetizada. Não haverá, amigos, diferenças? Não estaríamos nós, brasileiros, demasiadamente centrados na cultura da imagem? Pior: no culto da imagem vazia de conteúdo? No lance plástico, no caso, estética e futebolisticamente belo de um sujeito que, salvo engano, pouco conhece do país? Que não leu, salvo engano, mais do que meia dúzia de livros, se tanto? Que Brasil é este, senhores, que estamos construindo para os nossos filhos? Um Brasil centrado no êxtase do drible, na ginga do samba (do funk)? Um Brasil “moleque”, um Brasil analfabeto até a medula, sem nada a dizer ao mundo? Um Brasil somente imagem, um Brasil sem discurso, um Brasil que não concatena três períodos em seqüência? Um Brasil que não sabe da sinonímia entre período e frase e que me faz ter de explicitar isso? Um Brasil que se compraz de seu corpo e que dispensa seu cérebro? Um Brasil burro, enfim?

Ó Bandeira, meu estimado Bandeira, se soubesses o quanto o “falar gostoso” a língua portuguesa trouxe-nos mais desgraças do que satisfações, voltarias ao Parnaso!

Em tempo: como se não bastasse a ausência de pontuação,  o anúncio traz o imperativo empregado na segunda pessoa (“Joga”) e, logo abaixo, estranhamente,  na terceira (“Ouse”). Por que essa vacilação, meu Deus? Será que o publicitário-redator não sabe a diferença entre uma pessoa e outra? (Conferi toda a campanha, e afirmo: não sabe). Veja você mesmo: http://www.mktesportivo.com/2013/11/a-maior-campanha-da-historia-da-nike-do-brasil/
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Um trecho de Crime e Castigo 

dosto

Abstenho-me de comentar o trecho abaixo. Apenas grifo.

“[…] segundo eles, todos os crimes se devem ao ambiente deletério, e nada mais. Magnífica frase! De onde se deduz, diretamente, que, se a sociedade estivesse normalmente constituída, então acabariam imediatamente todos os crimes, visto que já não haveria contra que protestar e todos passariam instantaneamente a ser inocentes.  Quanto à natureza, não a tomam em consideração, puseram-na no olho da rua, não toleram a natureza. Para eles não é a natureza que, desenvolvendo-se de um modo histórico, vivo, até o fim, acabará por transformar-se ela própria numa sociedade normal, mas, pelo contrário, será o sistema social que, brotando de alguma cabeça matemática, procederá em seguida a estruturar toda a humanidade e, num abrir e fechar de olhos, a tornará justa e inocente, mais depressa do que qualquer processo vivo, sem seguir nenhum caminho histórico e natural.  Por isso eles sentem instintivamente aversão pela história: nela só se encontra monstruosidade e estupidez; deitam todas as culpas para cima da estupidez. E por isso também não amam o processo “vital” da vida; não querem nada com a “alma viva”. A alma viva da vida tem exigências; a alma viva não obedece mecanicamente; a alma viva é suspicaz; a alma viva é retrógrada. E, embora cheire a mortos, eles podem construir com a alma de borracha… que não será viva, nem terá vontade, será uma escrava e não se revoltará… E chegam ao resultado de idealizar um simples amontoado de tijolos, sim, a distribuição de corredores e quartos do falanstério. O falanstério está pronto; mas a vossa natureza ainda não o está para o falanstério; anseia pela vida, o processo vital ainda não terminou, ainda é cedo para a cova. É impossível saltar com a lógica apenas por cima da natureza. A lógica pressupõe três casos, ao passo que há milhões deles. Pois façam tábua rasa desses milhões e reduzam tudo ao simples problema do conforto! Essa é a solução mais fácil do enigma. Duma clareza sedutora, e evita o incômodo de pensar. Porque o essencial é isso: não ter que pensar. Todos os mistérios da vida podem compendiar-se em duas folhas de papel impresso.”

Dostoiévski, F. Crime e Castigo. (Terceira parte, capítulo V). Tradução de Natália Nunes. Abril Cultural, 1982.

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Translating Melville / Traduzindo Melville

pierre northw

greylock

See below my translation into Portuguese for the dedication of the novel “Pierre, or the ambiguities”.

Abaixo, minha tradução para a dedicatória do romance “Pierre,  or the ambiguities”.

TO

Greylock’s Most Excellent Majesty.

Para Greylock

 e a sua mais excelente Majestade.

In old times authors were proud of the privilege of dedicating their works to Majesty. A right noble custom, which we of Berkshire must revive. For whether we will or no, Majesty is all around us here in Berkshire, sitting as in a grand Congress of Vienna of majestical hill-tops, and eternally challenging our homage.

Antigamente, os autores sentiam-se orgulhosos do privilégio de dedicar suas obras a alguma Majestade. Costume nobre e correto, que nós das Berkshires devemos reviver. Queiramos ou não, a Majestade está em toda a volta aqui nas Berkshires, sentada como em um grande Congresso de Viena de majestosos cumes, e provocando eternamente nossa homenagem.

 But since the majestic mountain, Greylock–my own more immediate sovereign lord and king–hath now, for innumerable ages, been the one grand dedicatee of the earliest rays of all the Berkshire mornings, I know not how his Imperial Purple Majesty (royal-born: Porphyrogenitus) will receive the dedication of my own poor solitary ray.

Mas já que o majestoso monte Greylock – meu próprio e mais imediato soberano senhor e rei – tem sido, há incontáveis eras, o único grande homenageado de todos os primeiros raios matinais das Berkshires, não sei como sua Majestade Imperial e Purpúrea (nascido na realeza: Porphyrogenitus) receberá a dedicatória de meu pobre e solitário raio.

 Nevertheless, forasmuch as I, dwelling with my loyal neighbors, the Maples and the Beeches, in the amphitheater over which his central majesty presides, have received his most bounteous and unstinted fertilizations, it is but meet, that I here devoutly kneel, and render up my gratitude, whether, thereto, The Most Excellent Purple Majesty of Greylock benignantly incline his hoary crown or no.

_Pittsfield, Mass._

Não obstante, por ter eu, morando com meus leais vizinhos, os Bordos e as Faias, no anfiteatro presidido pela centralidade de sua majestade, recebido suas mais generosas e irrestritas fertilizações, nada mais adequado que aqui devotamente me ajoelhe e lhe ofereça minha gratidão – incline-se-me ou não bondosamente sua respeitável coroa essa mais excelente e purpúrea Majestade de Greylock.

 Pittsfield, Massachusetts

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Arrombamento [miniconto]

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Sentada à bateria, a menina executa os rudimentos de Gene Krupa. É a sua primeira manhã no apartamento. As paredes estão forradas com caixas-de-ovo: isolamento acústico.

Na Imobiliária Jerusalém, à mesa de madeira escurecida, Edmilson bate feito um primata nas teclas de sua velha Remington verde-musgo. Vender um imóvel à vista significou um bom dinheiro:

— Aquela baterista merece flores — diz para interlocutor nenhum.

Vai, depois de almoçar um prato-feito regado à fanta uva, até a floricultura japonesa e compra — recomendação da proprietária — um arranjo de bromélias. Na verdade, o que ele aprecia são as dálias.

— Flores bregas — disse-lhe a oriental.

Ao sol esbraseado, com a camisa empapada e um palito na boca, caminha até o apartamento da moça.

No interfone procura o número e crava-lhe o polegar três vezes, em intervalos intermitentes.

A menina, lá em cima, acompanha a rapidez cromática do bebop de Charlie Parker.

Junto ao muro do edifício, às quatro da tarde, um vira-lata urina sobre o alaranjado ressequido das bromélias.

 

Escrito em 1998.
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O que é tragédia?

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Tragédia no vocabulário popular é sinônimo de desastre, de catástrofe. Daí um certo intelectual deste país haver dito, certa feita, em um desses congressos acadêmicos, que um exemplo de situação trágica seria aquela que viveram os marinheiros russos de um submarino que aos poucos afundou, sem chance de retorno à superfície, levando os tripulantes à morte por falta de oxigênio. De acordo com a concepção popular, tal situação é mesmo trágica. Porém, o termo “trágico”, em sua acepção erudita, tem outras implicações. A situação trágica, primeiramente, é fingida e deve, idealmente, ser encenada. Não se trata de algo da vida empírica, real. Trata-se, isto sim, de algo construído e, portanto, mítico e ficcional, para evocar um determinado sentimento em quem assiste à peça ou, retirado o espetáculo, a lê em letras negras sobre folhas brancas, naquilo que chamamos de livro. Aspecto importante do mito trágico é o de que esse sentimento deve, de certa forma, educar a platéia (ou os leitores), e faz isso colocando na pele de personagens míticos experiências em geral desagradáveis que nós humanos de carne e osso temos e vivemos. Ao colocar tais experiências nos personagens, o autor da tragédia pretende que o espectador tenha a possibilidade de educar-se pela filtragem e purgação que faz daquilo que vê,  sem –  e esse é o grande lance da tragédia – a necessidade de sofrer de fato o que vê diante de si, mas trazendo para sua vida um entendimento mais profundo do que seja o humano. Como se vê, a catarse, de acordo com o Aristóteles da Arte Poética, tem lá suas virtudes homeopáticas.

Escrito em 27/6/2005.
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Anaximandro

 

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Αναξίμανδρος – De onde provém a torrente sempre renovada do devir? Esta a pergunta fundamental de Anaximandro, cujo nome temos em grego aí na abertura do texto –  esta a pergunta que sempre me faço e que já transformei em uma afirmação antropocêntrica: “o que me impressiona é que sejamos tantos.” E todos com seu mundo particular, individualizado e sem muita razão aparente, a viver pela sobrevivência. A forma que tomamos ao abandonarmos o apeiron, quem é que no-la (desculpem-me pelo emprego pedante do pronome) confere? Esclareça, homem de Mileto, antes que Heráclito venha te chutar a canela.

 

Escrito em 9/8/2005

 

 

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Sobre o excesso

grapes

Quem bebe vinho e o traz em seu sangue e nome, sabe que o poder da embriaguez é o de trocar, no mínimo, o mundo da certeza pelo da incerteza. E isso é bom. Um certo senhor alemão, falecido em 1900, com nome de imperador e hoje conhecido de excessivas hostes, previra em seu primeiro grande livro as vantagens da desmedida, de buscar na lógica dos filósofos trágicos o poder que se contrapõe à explicação racional do mundo do homem da cicuta e a divisão deste mundo em dois pelo homem das costas largas. Trata-se de um livro árduo, mas tenho a teoria de que os grandes escritores criam uma cortina de fumaça nas primeiras cinqüenta páginas como uma maneira de espantar leitores mais preguiçosos ou medíocres. O tal alemão, que você já conhece até da televisão, pressentiu o fracasso a que a interpretação racional estava fadada, desembocando hoje na mais obtusa reificação e na transformação de toda e qualquer instância da vida comezinha em modos de suplantar o outro, enfim, de prevalecer hipocritamente sobre quem se nos opõe. No que diz respeito ao vinho, por exemplo, temos uma boa metáfora dessa imbecilidade quando vemos figuras do mundo pop preocupadas em carregar seus próprios copos para lá e para cá ou quando julgam que mais do que o vinho vale a pose do connaisseur blasé. Sempre que eles assim me cercam,  tenho vontade de comer carne crua.

Escrito em 6/8/2005
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Mau negócio (miniconto)

Depois de acordar mais cedo que os empregados da casa, um empresário, sentado na privada de louça inglesa de seu banheiro de quarenta metros quadrados, lê o jornal do dia. No caderno de economia, descobre que o fundo de ações do banco japonês administrou mal o seu dinheiro. Perda de noventa por cento. Furioso, amassa o jornal e esbraveja. Precisa ir logo para o escritório, telefonar para Osaka. Ainda sentado, leva a mão até uma portinhola metálica e a puxa. Ali está o rolo de papel higiênico, vazio.

Publicado em 1998.
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Cimento (poema fúnebre n.º 2)

 

Cimento

Cimento fresco que respinga e bate
no branco da parede
do futuro túmulo de minha mãe.

Cimento seco que gruda e endurece
à volta da lápide
do agora leito de meu pai.

Cimento eterno da pá do coveiro,
Cimento branco, cinza e negro,
Rogai por mim!

 
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Cinismo moderno

sloterdijk

“A velha social-democracia anunciara o slogan ‘saber é poder’ como judiciosa receita prática. Pretendia-se afirmar que uma pessoa devia aprender qualquer coisa como deve ser, para, mais tarde, vir a melhorar sua situação. O dito era ditado por uma fé pequeno-burguesa na escola. Essa fé está hoje em decomposição. (…) Inúmeros são os que já não estão dispostos a acreditar que começar por ‘aprender qualquer coisa’ levará mais tarde a melhorar sua situação. Neles, creio, cresce um pressentimento que no antigo kynismós era certeza: que uma pessoa tem de começar por ter uma vida melhor para depois poder vir a aprender qualquer coisa razoável. (…) No fundo, já ninguém acredita que a aprendizagem de hoje resolve ‘os problemas de amanhã’.” (Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica. Tradução de Manuel Resende. Lisboa: Relógio D’Água, 2011. p. 14-15)

A citação acima é do prefácio do livro de Sloterdijk e já dá alguma noção do problema com que hoje nos deparamos e sobre o qual, ao longo do livro, o autor alemão discorre com propriedade: o do cinismo moderno (ou pós-moderno, como queiram).

Percebe-se que os novos homens querem antes o bem-estar e depois o saber, o qual ficou para segundo plano. Desprezam-se, portanto, em alguma medida, os professores de disciplinas, digamos, pouco pragmáticas, “sem retorno no mercado”.

Fica, assim, fácil compreender o imediatismo dos jovens, seu utilitarismo intransitivo, a necessidade, enfim, de prevalecer sobre o outro a qualquer custo, algo que Nietzsche já revelara há muito, e que se coaduna ironicamente com os super-homens de hoje, todos vazios de conteúdo, ainda que repletos de i-pods e i-pads.

Os cínicos de hoje, ao contrário de Diógenes (que sequer conhecem), consideram mais razoável ser um ignorante abastado do que um sábio paupérrimo a viver em um tonel. Primeiro – pensam eles – a consecução do status social e material, o olhar blasé de superioridade lançado de dentro de uma redoma qualquer na qual se imaginam imersos, seja ela automóvel de última geração, seja ela algo propriamente invisível a proteger-lhes o divino corpo esculpido em academia (ou pelo botox, se mais vetustos). Depois de ricos (ou, na verdade, nem tão ricos assim), se preciso for, reservam espaço para o antigo amor à sabedoria.

Ao cínico de hoje pouco importa a falsa consciência, isto é, pouco importa fingir que os outros lhe são importantes… Consideram o fingir uma vantagem quantificável. A falsa consciência de quem detém posições de poder, seja no Estado, seja em comitês de toda ordem, seja nos altos círculos da iniciativa privada, é, diz-nos Sloterdijk, uma “falsa consciência esclarecida”, algo de fato assustador. Disso concluo: este mundo não tem salvação.

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

(A última linha do texto é verso do poema “Budismo moderno”, de Augusto dos Anjos.)
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Destroços (conto)

Uma porta se abre e uma corrente de ar varre a sala. O fogo na lareira oscila. A umidade escorre pelas paredes da casa. Folhas de jornais abertas pelo chão cobrem o caminho por onde todos passam, na sala, no corredor, na cozinha. A umidade  e os passos dos que caminham por ali consomem aquelas folhas, criando rastros: — uma mistura de papel, barro, e água. A empregada logo repõe a trilha com folhas novas do jornal de anteontem. A família está reunida. Gente da Capital também virá e, quando chegarem, haverá  gritaria,  beijos, abraços e gargalhadas.

Cidade de Pelotas, frio e umidade. A viagem até lá é feita por uma  estrada reta que corta pastagens e plantações de arroz. Virgínia está no banco traseiro de uma caminhonete. O veículo vai a cento e vinte, cento e trinta quilômetros por hora, e diminui a velocidade ao se aproximar do posto da polícia. Sobressaltos e barulho intermitente de pneus sobre sonorizadores, pequenas lombadas. Pelotas se aproxima. A caminhonete se desloca com rapidez por uma grande avenida asfaltada. Logo a seguir a avenida Dom Joaquim; à direita a Marechal Deodoro. Não há asfalto, mas calçamento. Um barulho ensurdecedor de borracha contra pedra. Ruas que se cortam formando quadrados perfeitos começam a aparecer. Os arredores da zona central. Virgínia avista a casa de seu avô. Andam mais duzentos metros e param em frente ao portão da garagem da casa, em uma rampa molhada pela umidade do ar. Virgínia desce e corre até a porta.

Alcebíades, com o pescoço envolto por uma manta negra, sai de sua cadeira e vai até a cozinha. Apanha uma caixa de fósforos amarela. Com um longo palito e mãos trêmulas acende o cigarro. A campainha toca insistentemente. Ele leva a mão ao aparelho de ouvido e o ajusta. Tosse. Lento, vai até a porta.

Do lado de fora, Virgínia esfrega as mãos. O nariz está vermelho. Seus pais ainda  descarregam o porta-malas. Ela pressiona o botão da campainha cinco vezes.

Alcebíades abre a porta. A corrente de ar levanta o poncho do velho e o cigarro vai ao chão, apagando-se ao tocar uma folha de jornal encharcada. Então, Virgínia o abraça, beija-lhe a face, as mãos. Eles vão juntos até a lareira assim, abraçados. O nó-de-pinho queima um fogo alaranjado. Nas paredes, retratos em preto-e-branco. Uma boleadeira com a manicla  desgastada pendendo sobre a parede da chaminé. Um fole e um gancho de ferro encostados a uma grade colocada em frente ao fogo. Sentadas em sofás de couro cru, todas as tias estão ali, ao redor da lareira, encolhidas, enrugadas.

Publicado em 1998.
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A justiça como eqüidade, segundo John Rawls

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Segue, abaixo, fábula que ilustra, da maneira mais didática possível, o argumento favorável à justiça como eqüidade. O trecho (que modifiquei aqui para efeito ultra-pedagógico) foi retirado do livro “Uma teoria da Justiça, de John Rawls”, e é de autoria de Frank Lovett (professor de Ciência Política na Washington University). Tradução minha para a Editora Penso (Porto Alegre – RS).

1. Imagine que um pecuarista rico tenha morrido e deixado seu rebanho para dois filhos, sem especificar quais animais deveriam ficar com este ou aquele filho.

2. Como todo animal tem características próprias, dividir o rebanho não é algo simples. Não basta, por exemplo, colocá-los em dois grupos numericamente iguais, ou dar todos os animais marrons para um filho e os pretos para o outro.

3. Digamos que os irmãos não cheguem a um acordo sobre a divisão dos animais e decidam consultar um juiz sábio. Como ele deve proceder?

4. A resposta é simples. O juiz diz a um dos irmãos: “Divida o rebanho em dois lotes, do modo como você julgar adequado”.

5. Voltando-se ao outro irmão, o juiz diz: “Depois que seu irmão tiver dividido o rebanho em duas partes, caberá a você escolher qual das duas será sua e qual será dele.”

6. Já que o primeiro irmão pode presumir que o segundo escolherá o melhor lote, sentir-se-á impelido a dividir o rebanho do modo mais justo possível, de modo a ficar satisfeito com qualquer dos lotes que toque a ele próprio.

Pois bem, a teoria da justiça social – o que Rawls chama de “justiça como equidade” – baseia-se essencialmente na mesma idéia.

(In: Lovett, Frank: Uma teoria da Justiça, de John Rawls. Porto Alegre: Penso, 2013. Tradução de Vinicius Figueira)

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O velho vendedor de maçãs (tradução de “The old apple-dealer”, de Nathaniel Hawthorne)

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Abaixo, minha tradução para as primeiras linhas de “The old apple-dealer”, de Hawthorne (Tales and Sketches, The Library of America, 1982).  A intenção foi manter o tom oitocentista.

THE OLD APPLE-DEALER

The lover of the moral picturesque may sometimes find what he seeks in a character, which is, nevertheless, of too negative a description to be seized upon, and represented to the imaginative vision by word-painting. As an instance, I remember an old man who carries on a little trade of gingerbread and apples, at the depôt of one of our railroads. While awaiting the departure of the cars, my observation, flitting to and fro among the livelier characteristics of the scene, has often settled insensibly upon this almost hueless object. Thus, unconsciously to myself, and unsuspected by him, I have studied the old apple-dealer, until he has become a naturalized citizen of my inner world. How little would he imagine — poor, neglected, friendless, unappreciated, and with little that demands appreciation — that the mental eye of an utter stranger has so often reverted to his figure! Many a noble form — many a beautiful face — has flitted before me, and vanished like a shadow. It is a strange witchcraft, whereby this faded and featureless old apple-dealer has gained a settlement in my memory.

O VELHO VENDEDOR DE MAÇÃS

Quem adora o pitoresco, e a moral dele decorrente, pode às vezes encontrar o que busca em um personagem cuja descrição seja por demais negativa para ser pintada e representada à imaginação por meio de palavras. Lembro-me, por exemplo, do velho da pequena banca de maçãs e biscoitos, localizada em nossa estação ferroviária. Enquanto eu esperava pela saída dos trens, minha atenção, adejando por entre as características mais vivas do ambiente, não raro se dirigia, de maneira pouco sensata, a esse objeto quase sem cor. Assim, inconscientemente, e de um modo insuspeito para ele, estudei-o até que se tornasse um cidadão integrante de meu mundo interior. O vendedor de maçãs – pobre, negligenciado, sem amigos e com poucas características que o tornassem apreciável – certamente nem imagina que um estranho tenha várias vezes se dedicado à sua figura! Muitas formas nobres – muitos belos rostos – passavam diante de mim e desapareciam como sombras. É mesmo uma espécie de feitiçaria ter esse vendedor de maçãs, tão apagado e sem graça, conquistado um lugar em minha memória.

He is a small man with gray hair and gray stubble beard, and is invariably clad in a shabby surtout of snuff-color, closely buttoned, and half-concealing a pair of gray pantaloons; the whole dress, though clean and entire, being evidently flimsy with much wear. His face, thin, withered, furrowed, and with features which even age has failed to render impressive, has a frost-bitten aspect. It is a moral frost, which no physical warmth or comfortableness could counteract. The summer sunshine may fling its white heat upon him, or the good fire of the depôt-room may slake him the focus of its blaze, on a winter’s day; but all in vain; for still the old man looks as if he were in a frosty atmosphere, with scarcely warmth enough to keep life in the region about his heart. It is a patient, long-suffering, quiet, hopeless, shivering aspect […]

Ele é um homem baixo, de cabelos grisalhos e barba curta, também grisalha, e veste, invariavelmente, um sobretudo surrado, de cor entre o marrom e o amarelo, abotoado de maneira bem justa, escondendo parte de suas calças acinzentadas; o traje, embora limpo e completo, está puído. Seu rosto, magro, murcho, enrugado e com características que nem mesmo a idade fora capaz de tornar impressionantes, parece enregelado. Trata-se de um enregelamento moral a que nenhum calor ou conforto físico poderiam se contrapor. O sol do verão pode até lançar seu intenso calor sobre o velho vendedor de maçãs – ou o calor da chama da boa lareira da estação ferroviária pode satisfazê-lo em um dia de inverno –, mas em vão, pois a impressão que temos é que ele sempre está em um lugar gelado, dispondo de pouquíssimo calor, suficiente apenas para seu coração bater. Parece alguém paciente, sofrido, calado, desanimado e trêmulo […]

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Sobre o trabalho do tradutor


são jerônimo

Chega-me às mãos mais um livro que traduzi, desta feita uma fonte secundária dedicada a Rawls. O livro em si não me interessa como motivo do que escrevo agora – interessa-me apenas como ponto de partida sobre o trabalho do tradutor. Presumo que haja pessoas interessadas no ofício, principalmente jovens no início de carreira, ou até mesmo pessoas maduras que, pelas vicissitudes da vida (ai!), deparam-se com a necessidade de traduzir.

Comecemos pelo início desta história. Receber, da editora, o livro que nós mesmos traduzimos é parte de um longo processo. Em geral, a tradução é gestada durante alguns meses. As editoras tendem não só a trabalhar com prazos – uma obviedade, quando se trata de profissionalismo –, mas também com prazos cada vez mais curtos (e aí entram singelas questões de fundo capitalista, como o lucro). O tradutor, por sua vez, em geral assina um contrato pelo qual abdica dos direitos da tradução, em troca de uma remuneração quantificável em laudas, palavras ou toques no teclado, e se compromete a entregar a tradução nesse prazo.

[Entenda a equação: a Editora envia o original ao tradutor, juntamente com um contrato, o qual estipula que o livro deve ser traduzido, digamos, no ritmo de 100 páginas mensais (o original é o parâmetro). A remuneração é paga não de acordo com o número de páginas do original, mas com o número de laudas do texto traduzido (a lauda é medida em caracteres e cada editora tem a sua lauda, que, em geral, varia de 1000 a 2000 caracteres). Digamos que, depois de traduzidas, as 100 páginas do original tenham se convertido em 150 laudas. O tradutor receberá valor equivalente  ao número de laudas traduzidas multiplicado pelo valor pago pela lauda. Se o valor da lauda for, por exemplo, 20 reais, o tradutor receberá 3000 reais (150 x 20).]

Como o mundo de hoje se interessa muito pela tecnologia e um pouco menos pela qualidade humana do trabalho, é natural que, cada vez mais, os famosos softwares de tradução atuem como primeiros tradutores do texto, o qual, depois, é editado pelo tradutor humano, o segundo tradutor. Esse processo – posso garantir pelo que acompanho nas novas gerações – é bastante aceito, e até mesmo incentivado pelas editoras, quando se trata de livros técnicos, pois torna mais rápida a chegada do livro à estante do supermercado, digo, livraria. Em literatura, felizmente, o processo não se institui tão facilmente. É verdade que os softwares de tradução estão melhores e dão conta de estruturas simples e simplórias. Não obstante, o que acho assustador é a padronização do estilo do tradutor, que desaparece em prol do estilo do software. Novamente, porém, asseguro: as novas gerações sequer percebem isso e acham tudo uma maravilha. Buffon  e geração Facebook não combinam. Temos o estilo Google, Wordfast e Trados. E é só, senhores.

Sobre a sobrevivência como tradutor de livros no Brasil, afirmo ser possível, mas distante de qualquer luxo. O tradutor bem organizado e disciplinado (palavra-chave, segundo Fripp, o qual endosso), pode, porém, viver razoavelmente bem do seu trabalho. Não se trata do padrão “super-carro na garagem, super-casa, com empregados à disposição, e viagens constantes, com hospedagem em bons hotéis”; trata-se mais da vida digna de um trabalhador remunerado de maneira aceitável, como um professor universitário, digamos, mas sem direito a férias de 30 dias. É-se autônomo, e as férias de 30 dias ficam por conta da poupança dos 11 meses anteriores. Diria que um tradutor que trabalhe constantemente tenha remuneração mensal entre 5 e 10 mil reais. (O problema da frase anterior é o “constantemente”: nem sempre as editoras possuem material disponível, o que faz com que, às vezes, fiquemos algum tempo sem trabalho. Entram em cena, então, os demais trabalhos de um tradutor: abstracts, revisões de textos mal traduzidos de futuros acadêmicos, diplomas, certidões, tese do cunhado etc.).

Sobre o texto propriamente dito, sempre considerei fator importante colocá-lo em bom português, em linguagem compreensível para o leitor. Não raro, o tradutor melhora o original, que nem sempre é bem escrito, como pensam os cidadãos comuns. Já me deparei com originais muito mal escritos que, em português, graças ao meu trabalho, passaram a ser razoáveis. Essas nuanças não são percebidas pelos leigos e nem pelos “tradutores viajantes”, isto é, aqueles sujeitos que passam três ou quatro meses no exterior e se julgam capazes de traduzir qualquer coisa na língua do país que visitaram (e que, muito freqüentemente, são contratados como tradutores). A ingenuidade é inerente ao ofício, infelizmente, do tradutor ao editor.

Enfim, para resumir com uma extrapolação o tema (que já se estende mais do que eu desejava), declaro: está encerrada até segunda ordem, por questões outras, não relevantes para este texto, minha jornada como tradutor de livros no Brasil. Foram cerca de 40 livros traduzidos, depois de formação específica na área de tradução, em curso de Universidade Federal, o que é raro, já que nossos tradutores são, em sua maioria, provenientes de outras áreas do saber. Considerado o fato de que, no mercado editorial brasileiro, há mais obras traduzidas do que escritas em português como língua de origem, creio ter contribuído com meus dois centavos para o milhão de que muitos desfrutam, especialmente para o milhão dos proprietários do meu trabalho.

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O gênio da música ataca em Copacabana (Hermeto Pascoal – sala Baden Powell, 3/11/2012)

Estive ontem à noite (3/11/2012) na sala Baden Powell, em Copacabana, onde assisti a uma apresentação de Hermeto Pascoal e seu grupo. Não é a primeira vez que assisto ao músico alagoano. Portanto, sei que seus shows trazem surpresas. Para mim, a maior delas foi a capacidade que Hermeto (pronuncia-se Herméto) tem de transformar problema em solução.  Explico: em um determinado momento do show, por volta da terceira música, o sintetizador de Hermeto deixou de funcionar como ele queria. Não se ouvia o timbre de piano elétrico, mas um timbre de cordas ou sopro (algo realmente indecifrável) com um vibrato exagerado, o que transformava o  instrumento de alto nível tecnológico em uma espécie de instrumento de brinquedo, desses que qualquer jovem compra para iniciar-se. Hermeto, sem que a  banda parasse de tocar, pediu ajuda. Alguns músicos alternavam-se na tentativa de resolver o problema, até que o outro tecladista da banda (André Marques), sentado em posição oposta a Hermeto, deslocou-se do outro lado do palco e  resolveu ir lá ajudá-lo. Marques não conseguiu resolver o problema inteiramente e voltou ao seu posto, mas, presumo eu, antes de voltar, deve ter dito algo a Hermeto que incluiu o verbo “esperar”. Enquanto isso tudo ocorria, saliente-se, a banda continuava tocando. Passados uns 30 segundos da volta de André Marques a seu posto, houve, então, um fade-out na música, pois Hermeto sobressaía, levantando as mãos, pedindo passagem…

Inicia-se aí, para mim, o que foi o grande momento da noite: Hermeto começa a improvisar sobre uma seqüência de acordes. Em cima dela, vai lançando melodicamente palavras que retratam a situação que vive naquele momento. Diz: “Esse vibrato…” [ o som do teclado continha um vibrato de que o músico não conseguia se livrar] “…está me enlouquecendo…”  [e, para cada frase da língua portuguesa, punha um acorde] “…é como um sapato…” [um sapato que não se quer usar, subentende-se (a propósito, Hermeto estava de tênis). E lá vinha mais um acorde, construindo uma seqüência realmente muito bonita] . A seguir diz, olhando para André Marques, que estava lá do outro lado do palco: “Eu espero…” [mais um acorde, entortando a melodia que cantava] “…Você diz para esperar, eu espero…” [mais uma entortada harmônica]. “…E não me desespero!” [somente Hermeto para sair-se com esse “desespero” (verbo) em oposição a “espero”]. E foi encerrando aquele seu improviso, sob a aura do não-desesperar-se, sob a aura do respeito pela manutenção da música, sob a aura daquele improviso em si, daquela maravilha criada ali, na hora, em resposta ao mais prosaico dos problemas técnicos.  E o concerto prosseguiu.

Os problemas com o sintetizador persistiram. O instrumento funcionava intermitentemente, mas o homem não se deixou abater. Comandou a banda, tocou flauta, escaleta, tomou até o lugar de Marques por alguns minutos, e foi ao microfone várias vezes, contar suas histórias à platéia. Hermeto é exímio contador de histórias. E tem uma lógica muito pessoal e lúcida. Só não o entende quem não quer ou não pode. Agora, o mais impressionante, o que vejo de mais magistral nele, é a capacidade de instilar nos músicos, profundamente, o espírito da música. É claro que os músicos que estão com ele são excelentes, mas é uma excelência que não encontra igual em outros virtuoses, pois não é uma excelência meramente instrumental. Eles não são títeres do instrumento. Digo isso porque por trás deles paira uma escola e um mestre. Sim, eles não só tocam música, não são meros executores: respiram música, estão imbuídos de um espírito que é maior do que eles (Para além do improviso, há muito ensaio, com certeza…).

Depois de sair de um show de Hermeto, sentimo-nos – como posso dizer – “desentupidos”.  Respiramos melhor, ouvimos melhor, falamos melhor. Escorre, pelo ralo do espírito, todo o entulho musical – e não musical – que nos impõem cotidianamente.  Com Hermeto, estamos diante da Música e percebemos que o mundo é maior, muito maior do que estamos acostumados a imaginar. Ainda bem.

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Nota: Há outros aspectos do show que não foram relatados aí acima. Por concisão, julguei mais interessante deixá-los para esta notinha extra. Um desses aspectos, deu-se quando Hermeto, percebendo que seu teclado ainda não funcionava corretamente, deslocou-se para assumir o teclado de André Marques. Bastou um gesto e o rapaz deu lugar ao mestre, que puxou a bola para si, fez uma introdução a um tema que não sabíamos qual era e – o mais sensacional – saiu de mansinho em uma fração de segundo já conduzindo a volta de Marques, que tomou novamente o seu posto. Nesse momento, a banda, em sua faceta puramente instrumental (baixo, bateria, saxofone, teclado, percussão), mostrando serviço, fez uma das coisas mais intrigantes que já vi. Pegaram uma deixa da introdução de Hermeto ao tema até então desconhecido, e juntaram-na a uma composição de Tom Jobim (tudo isso, em um segundo ou em um segundo e meio, sem deixar a música morrer, sem pausa, sem silêncio, numa fluidez indizível). Ali percebi o grau de comunicação entre os músicos, a facilidade com que passam de um tema a outro. Hermeto, aliás, faz muito o papel de condutor, de maestro e, mais de uma vez, pareceu disposto a nomear seu sucessor, o baixista Itiberê Zwarg, dado o número de vezes que o louvou – justificadamente, diga-se de passagem – durante o concerto. Além da banda de Hermeto, ingressou no palco, algumas vezes, o grupo do próprio  Itiberê. Chegamos a ter, às vezes, com isso, doze músicos no palco. Foi um espetáculo e tanto. Obrigado, Hermeto. Obrigado, banda.

Em tempo: o concerto foi subsidiado pela Prefeitura,  e os ingressos custaram R$ 30,00 ou R$ 15,00. Enquanto isso, aqui mesmo na cidade maravilhosa, há shows de “estrelas” pop estrangeiras que beiram mil reais.

Por fim, abaixo, momento do show do dia anterior, 2/11/2012, capturado por Henry Schroy (disponível no youtube). [ http://www.youtube.com/watch?v=Vp7ZQ0c-4kk]

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Um conto

Abaixo, um mini-conto meu, publicado em 1998. Atentem para os bruscos cortes temporais da narrativa, aliados à troca constante de foco narrativo. 

O velho

Seis horas da manhã. O velho coloca a sexta bala no tambor do revólver prata. Os dedos enrijecidos pela artrite; o indicador no gatilho. Olha a unha preta, suja, e reflete. Está só e de cuecas, na poltrona da sala. É a hora. São sessenta e dois anos. É a hora. Sente nojo de sua sujeira. A carne enrugada da mão e as manchas amarronzadas da velhice contra o prata do revólver que brilha. É, definitivamente, a hora.

Tarde do dia anterior. O velho perambula no centro da cidade.

Os filhos se foram todos pelo ralo do banheiro e agora habitam esgotos. Ainda bem que não os tive. E a mulher, que se foi, sempre servil e escrava do verbo reclamar, não faz falta. O que me faz falta sou eu. São os motivos para eu estar aqui. É muito fácil comprar as balas. Mais fácil do que comprar o revólver. Na grande ferragem que tudo tem, no supermercado-templo das idéias embotadas. Compro as balas e compro um lustre. Manteiga e veneno de rato.

O lustre mal coube no porta-malas. Vou instalá-lo eu mesmo. Hei de ter força. Gosto do verde que ele tem. Da cor jade que a luz transporta quando bate em seus pingentes. É um belo lustre. Sabia que ia gostar dele aqui na sala. E fui eu que instalei.

As balas enroladas em um papel vermelho. A cara de trouxa da empacotadora, nariz torto, mas bons peitos. Tipo de mulher que se abandona. É burra até a medula. Mas eu a comeria. Aqui estão as balas. Tenho o revólver há três anos. É a primeira vez que compro balas. Confortável estar em casa e fazer o livre. Ninguém a me dizer o certo, o errado. Faço o livre. E se quiser arrebentar os miolos, arrebento. Será que sei colocar as balas nesse revólver?

As cuecas bege do velho são folgadíssimas, e se vêem seu pênis e escroto tocarem a almofada da poltrona. O velho encosta o cano da arma na têmpora direita. Lá dentro estão as seis balas. Um movimento e a hora será hora. Fecha os olhos. Move bruscamente a mão e destrói com seis tiros o lustre esverdeado.

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Contribuição da literatura à argumentação jurídica – resenha concisa

Abaixo, resenha concisa que fiz do subcapítulo Direito e retórica – Contribuição da literatura à argumentação jurídica e ao equacionamento da questão do bem-comum, de autoria do jurista e professor Plauto Faraco de Azevedo. In: Azevedo, Plauto Faraco de. Aplicação do Direito e contexto social. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000. p. 79-92.

No subcapítulo intitulado Direito e retórica – Contribuição da literatura à argumentação jurídica e ao equacionamento da questão do bem-comum, o autor volta-se ao caráter imperioso do conhecimento da língua, e em especial da literatura, para o aprimoramento do discurso de quem se inicia na carreira jurídica. Em linguagem clara, acessível e, principalmente, por meio da enumeração de autores e obras da prosa e da poesia brasileira e mundial, Azevedo visa a despertar no iniciante – mas também a recordar ao advogado mais experiente – o gosto tanto pela correta utilização da linguagem quanto pelo conhecimento de mundo que a Literatura pode propiciar. A correta utilização da linguagem (isto é, a observância das normas sintáticas e das oscilações semânticas ensejadas pelo tempo, além, naturalmente, da clareza da exposição) é componente fundamental para a argumentação convincente do jurista; o conhecimento de mundo propiciado pela Literatura abre ao futuro advogado um precioso caminho para a compreensão das mais diversas relações sociais. Unidas, a argumentação convincente e a compreensão das diversas relações sociais serão os sólidos e indispensáveis fundamentos sobre os quais o advogado deverá construir uma carreira cujo objetivo principal constitua-se em participar ativamente do mundo em que vive.

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Alguém ainda estuda Roman Ingarden?

Por motivos de força maior, estive ausente em agosto. Por isso, este texto vai com data retroativa, para cumprir a agenda do mês passado. Trata-se de parte de um trabalho cuja proposta era usar Ingarden para analisar poesia. Esqueci-me de tudo, mas o trabalho está aí. Não o apresento integralmente porque sempre tem um idiota que copia o que escrevo e depois usa como se fosse seu. De qualquer forma, deverá servir para quem tenha de se iniciar na teoria do polonês. O poema analisado é “Contrição”, de Manuel Bandeira, reproduzido logo aí embaixo.
Contrição
                                                        
Quero banhar-me nas águas límpidas                                                               
Quero banhar-me nas águas puras                                                              
Sou a mais baixa das criaturas                                                                                    
                Me sinto sórdido                                                                                    
 
Confiei às feras as minhas lágrimas                                                            
Rolei de borco pelas calçadas                                                                                    
Cobri meu rosto de bofetadas                                                                        
               Meu Deus valei-me                                                                                    
 
Vozes da infância contai a história                        
Da vida boa que nunca veio                                                                                    
E eu caia ouvindo-a no calmo seio                                                                
               Da eternidade.
 
Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.  p.155-156.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho visa a apresentar a análise de um poema de Manuel Bandeira. Para efetuar tal análise partiu-se da teoria proposta por Roman Ingarden em A obra de arte literária (Das literarische Kunstwerk), obra em que o teórico polonês procurou inserir os conceitos de fenomenologia de Husserl.

A bidimensionalidade da obra justifica-se, segundo Ingarden, pela conjunção da sucessão de frases, o que poderíamos chamar de elemento longitudinal, e da multiplicidade de componentes heterogêneos conjuntamente atuantes, as camadas ou estratos,  elementos transversais. A característica principal da obra de Ingarden, parece-nos,  é a de primeiramente explorar esses estratos a fim de firmá-los como elementos heterogêneos interdependentes e inseparáveis, inerentes à obra de arte literária. Tais estratos dividem-se em: 1) estrato das formações fônico-lingüísticas (camada dos sons lingüísticos da obra); 2) estrato das unidades da significação (trata do sentido de uma unidade lingüística superior qualquer, antes de tudo, o da oração); 3) estrato das objetividades apresentadas (aquilo de que se fala na obra); 4) estrato dos aspectos esquematizados (o conteúdo concreto de nossas observações, dependente das particularidades do objeto observado, das circunstâncias na qual a observação se faz e das particularidades psicofísicas do sujeito que observa).

Respeitando a teoria de Ingarden, e ainda que seja uma tarefa difícil analisar um estrato sem que se ingresse em outro, por serem, como já dissemos,  interdependentes e inseparáveis, passemos a explicar como dar-se-á  a análise.

Os princípios dos quais partiremos para efetuar tal análise são aqueles de que nos fala Bordini em Fenomenologia e teoria literária. Esses princípios advém de uma segunda obra de Ingarden: O conhecimento da obra de arte literária. Primeiro, devemos tomar a seguinte atitude: “comparar as frases que determinam o desenvolvimento das ocorrências do mundo apresentado e estabelecer a moldura temporal” (seqüência histórica/temporal do texto). Em segundo lugar,  devemos “comparar as frases que projetam determinações das objetividades apresentadas” (objetificação) e “antecipar as possíveis concretizações” (concretização propriamente dita). Essa tarefa é dupla, já que envolve o terceiro e quarto estratos.  Em terceiro lugar, contemplando o primeiro e segundo estratos, devemos “ver as características das unidades sonoro-semânticas frásicas de que derivam os estados de coisas, pois delas dependem a eficácia e a natureza de representação artística” (análise dos fenômenos fônicos e semânticos). Serão, portanto, três passos distintos.

ANÁLISE DO POEMA

Vejamos, então, o primeiro passo da análise, que não diz respeito a nenhum estrato em particular, mas, simplesmente, tem a função de enumerar as ações que ocorrem no texto:

O próprio título indica uma espécie de arrependimento pelas próprias culpas ou pecados. Não se sabe, porém, quem está a arrepender-se. Já no primeiro verso temos a expressão de um querer, isto é, um determinado eu lírico diz querer “banhar-se nas águas límpidas”, desejo que se repete no segundo verso, com a diferença de que as águas em que deseja banhar-se não são chamadas de límpidas, mas de “puras”. Até o momento não sabemos se as águas límpidas e as águas puras são as mesmas águas. No terceiro e quarto versos, fechando a primeira estrofe, o sujeito lírico diz ser “a mais baixa das criaturas” e que se sente “sórdido”. Na segunda estrofe — no quinto, sexto e sétimo versos — há um retorno ao passado. Nesse retorno, o eu lírico conta o que fez ( “Confiei às feras as minhas lágrimas/ Rolei de borco pelas calçadas/ Cobri meu rosto de bofetadas”) em um misto de relato arrependido, sofrimento e (auto)punição. Encerra a estrofe no oitavo verso com um apelo a Deus (“Meu Deus valei-me”). Na terceira estrofe, volta-se novamente ao passado (infância), tentando achar nele a solução para problemas presentes, para sua vida adulta, que, pode-se dizer, não é boa (“Vozes da infância contai a história/ Da vida boa que nunca veio”). O poema se encerra com dois versos interdependentes que parecem relatar outro desejo do poeta: cair no seio da eternidade ouvindo a história da vida boa.

Na segunda etapa da análise, como foi dito anteriormente, trabalharemos com o terceiro e quarto estratos. Como sabemos, no terceiro estrato há a constituição das objetividades, ou seja, estabelecem-se as objetividades apresentadas. Tais objetividades são determinadas por um continuum limitado, que começa com a primeira palavra do texto e termina com a última. O mundo representado, ou camada objetual, institui-se, assim, gradual e transversalmente, pela quebra dos versos. Aqui tentaremos, segundo Ingarden, encontrar não somente objetos isolados e pessoas, mas também relações e ligações de diversos tipos que surgem entre elas, processos e estados nos quais elas se encontram, etc. Sabemos que tudo isso não está separado, mas constitui partes componentes de um todo único. Vejamos o “quadro” que a primeira estrofe apresenta:

A primeira estrofe institui uma situação que remete à presença de alguém, de um eu, que está expressando um desejo de banhar-se não em águas límpidas ou puras, mas, isto sim, nas águas límpidas ou puras. Fazendo um contato com o segundo estrato, podemos dizer que a opção pela junção da preposição em com o artigo a, em vez do uso da preposição isoladamente, parece indicar uma maior intimidade entre o sujeito lírico e as águas de que nos fala. Essas águas, portanto,  já lhe são familiares. Apenas talvez não lhe sejam conhecidas. Logo a seguir, no terceiro verso, o eu lírico declara-se a mais baixa das criaturas. Uma criatura que, completa no quarto verso, se sente sórdida. Talvez possamos dizer que o que se afigura — apesar de necessitarmos ainda das outras duas estrofes para validar este raciocínio —  é a representação de uma situação de busca, de cura: alguém (o eu lírico) que se sente sórdido busca nas águas límpidas e puras que ainda não conhece, mas que lhe são familiares, a cura para sua sordidez, para sua baixeza, sua pequenez. Essa representação pode ser comprovada pela retroversão apresentada nos versos cinco, seis e sete da segunda estrofe. Nesse salto para trás, indicado pelo uso do pretérito perfeito, e não do presente do indicativo que constituía a primeira estrofe, o sujeito lírico parece comentar atitudes, por ele já efetuadas, que representam um estado de arrependimento, de erronia e de flagelo — situações que ele, agora quer evitar ou sanar através do bálsamo das águas límpidas e puras (percebe-se, assim, que o poeta usou da técnica do in media res). A segunda estrofe, contudo, fecha-se com um verso, o oitavo, que está novamente no presente do indicativo, ou seja, retorna ao agora do eu lírico, ao seu momento de pedir uma cura por seus erros, e retorna com um elemento muito forte: a invocação de Deus, de um meu Deus, uma entidade supra-humana, excelsa. É a invocação de Deus que permite que o mundo representado no poema reflita seu componente essencial, já antevisto pelo próprio título: a contrição, o arrependimento, o apelo, a necessidade do perdão ( parece que, em termos de análise, com essa última colocação, já ultrapassamos o terceiro estrato, pois o quarto aqui se imiscui). Essa atmosfera, de certa forma, religiosa,  estende-se à terceira estrofe. Nela, o sujeito lírico não invoca propriamente Deus, mas as vozes da infância, utilizando-se, para tanto, de um imperativo na segunda pessoa do plural (contai), que traz uma forte marca do discurso religioso. Talvez possamos dizer que essas vozes da infância, a quem o sujeito lírico roga que contem a história da vida boa que nunca veio, sejam as vozes de um inocência perdida, vozes que, justamente por serem inocentes, ainda guardam muito de um quê de anjos, puros e límpidos como as águas da primeira estrofe (esse raciocínio já invade o quarto estrato). É a história contada por essas vozes que o eu lírico deseja cair ouvindo no calmo seio da eternidade, que, por sua vez, pode ser visto como uma metáfora para o encerramento da finitude da vida e, simultaneamente, para a passagem a outro estado temporal, cuja característica é a eternidade, o infinito.

Os aspectos esquematizados, que formam o quarto estrato, são expressos mais pelo subtexto do poema do que pela forma. São, digamos, o conteúdo concreto, visível de nossas observações. São extraídos, também, do uso figurado da linguagem ou de sonoridades que os possam evocar. Deveriam, na estrutura deste trabalho, constituir a segunda parte do segundo passo do qual falamos na introdução. Pensamos, contudo,  já  tê-lo coberto na análise feita no parágrafo anterior, quando além de nomear as objetividades representadas, começamos, aqui e ali, a dar a elas uma extensão maior de conteúdo,  uma espécie de informação que vai além do que está dito no texto. Em outras palavras, segundo Bordini — em síntese nossa —, “captamos esquemas contidos nos aspectos para gerarmos uma autodoação do objeto, e é também através desses  aspectos que acrescentamos à significação da palavra, outra a ela não pertencente”. Os aspectos também são sugeridos pelos dois primeiros estratos, que agora começamos a analisar.

O  primeiro elemento que chama a atenção é o ritmo do poema, sua cadência. Na primeira estrofe, primeiro verso, temos um decassílabo… [o trabalho continua, mas creio que temos o suficiente aí acima]

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Introdução sintética à tese inicial de A ética protestante e o “espírito” do capitalismo 

O caráter peculiar (e direto) desta introdução requer, inicialmente, a análise do seguinte trecho do famoso texto de Weber:

“Resta, isso sim, o fato de que os protestantes […], seja como camada dominante ou dominada, seja como maioria ou minoria, mostraram uma inclinação específica para o racionalismo econômico que não pôde e não pode ser igualmente observada entre os católicos. […] A razão desse comportamento distinto deve pois ser procurada na peculiaridade intrínseca e duradoura de cada confissão religiosa, e não na situação exterior histórico-política.” (Weber, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. p. 33-34. São Paulo: Companhia das Letras: 2004. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. Revisão/edição do texto: Antônio Flávio Pierucci)

Percebe-se, já no primeiro capítulo da Parte I do livro – todo ele baseado em dados estatísticos, ressalte-se –, uma espécie de declaração de princípios, uma tendência de buscar, no protestantismo, indiferentemente da situação histórico-política, certa essencialidade no movimento favorável às profissões aquisitivas, ao mundo dos negócios, à prosperidade econômica, enfim; ao passo que ao catolicismo estaria reservado, pelo menos à primeira vista, um lugar menor em relação a essa mesma prosperidade, uma espécie de negação ao lucro, conforme citação de Offenbacher apresentada pelo próprio Weber: “O católico (…) é mais sossegado; dotado de menos impulso aquisitivo, prefere um traçado de vida o mais possível seguro, mesmo que com rendimentos menores, a uma vida arriscada e agitada que eventualmente lhe trouxesse honras e riquezas.” (p. 34)

Contudo, a facilidade dessa dicotomia não se sustenta, segundo Weber, uma vez que a vida dos protestantes do passado (isto é, puritanos ingleses, holandeses e americanos, e não os protestantes do princípio do século XX, época de produção do texto) em muito se assemelhava à vida católica, justamente por também trazer traços de caráter que seriam semelhantes ao “estranhamento do mundo” (traços católicos) e opostos à “alegria com o mundo” [Weltfreude], que marcaria os protestantes contemporâneos a Weber, já bem mais secularizados.

Weber então argumenta que a relação direta que o senso comum (e também Offenbacher) faz entre, de um lado, o “estranhamento do mundo” e o catolicismo, e, de outro, a “alegria com o mundo” e o materialismo protestante, está longe de ser exata. Para Weber, tais oposições não se sustentam. Por isso, propõe que elas dêem lugar “a uma constatação inversa, de um íntimo parentesco entre estranhamento do mundo, ascese e devoção eclesial, por um lado, e participação na vida de aquisição capitalista, por outro.” (p. 36).  Com isso, o leitor mais atilado pode perceber que Weber faz perfeitamente o que anuncia a citação que escolhi para encabeçar esta minha pequeníssima introdução  (a qual, apesar de pequena, deu-me algum trabalho. Sim, ser sintético é trabalhoso): busca a perenidade, a essencialidade  – a raiz religiosa, diria eu – do espírito capitalista que anima a ética dos protestantes (sempre mais prósperos economicamente), para além da sua contingência histórica. Senão vejamos:

“Se é para encontrar um parentesco íntimo entre o antigo espírito protestante e a cultura capitalista moderna, não é em sua pretensa “alegria com o mundo” mais ou menos materialista ou em todo caso antiascética que devemos procurá-la, mas sim, queiramos ou não, em seus traços puramente religiosos”. (p. 38)

Entendeu o espírito da coisa, meu jovem?

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Foucault: Vigiar e punir – Resenha para preguiçosos

É preciso retomar, aqui, um pouco das razões de Foucault em seu livro mais pop, “Vigiar e punir”. Como este espaço não se presta a elaborações extensas, atenho-me, como de costume, a uma parte do livro apenas. Optei pelo início, isto é, pelo primeiro capítulo. Para os amigos, reservo o diálogo acerca dos outros capítulos, um dia.

Antes de adentrar a resenha propriamente dita, declaro que não me contentei muito com a tradução brasileira (em determinados parágrafos, há trechos ininteligíveis). Tentei buscar on line, então, o original em francês, mas não o achei. Ainda bem. Porém, há trechos da tradução inglesa disponíveis na rede, os quais me ajudaram bastante quando houve dúvidas. Isso, de alguma maneira, comprova que o problema é mesmo da tradução brasileira, e não do original francês – apesar de sabermos de toda a afetação de Foucault, inclusive no que diz respeito ao tratamento do texto. Como já traduzi um livro sobre o filósofo, creio haver algo de verdadeiro no que afirmo.

O livro começa pela narrativa da tortura, suplício e esquartejamento de um parricida, em 1757. Pois bem, isso é o bastante para que eu faça minhas primeiríssimas derivações, as quais servirão de intróito à “resenha”.  Falemos da tortura de Damiens, o assassino: o modo como ela foi feita, a agressividade nela contida, o espírito de sua época, a animalidade, o mundo dicotômico em que se inseria – tudo isso servirá de substrato para a tese a ser apresentada ao longo do livro, qual seja, a de que essa tortura, com o tempo (isto é, ao longo dos séculos XIX e XX), transmuta-se em outra coisa, transfere-se para outro lugar. Não só passa do corpo para a “alma” (as aspas são minhas, e não de Foucault, mas acredito que estejam bem colocadas – ver a citação 23 do livro, mais abaixo): a tortura deixa também de ser prerrogativa de quem detém um poder político que se sustenta fortemente na moral religiosa, no crivo religioso, para passar a ser prerrogativa do poder legal, do poder educacional, do poder psiquiátrico, do poder presente no trabalho etc. Em outras palavras, passa a ser tortura disseminada, difusa.

Esse aspecto difuso da tortura, sua disseminação pelos mais diversos setores de nossa vida diária, já está, hoje, tão introjetado no que somos que sequer a percebemos. Ao contrário, há, na sociedade ocidental contemporânea,  esquisita e esquizofrenicamente, um certo prazer em ser “torturado”, uma vontade de não ser livre, de delegar poderes aos carrascos, que são muitos, e também difusos, mas ainda tão sem luzes quanto aqueles carrascos caricatos, seja do Antigo Regime, seja da Revolução – meros cumpridores de ordens. Estamos diante deles no condomínio, no trabalho, no transporte público, nas ruas, na beira da praia – até o campo, com sua atmosfera de amplidão libertária, tem o seu carrasquinho. O Ocidente julga-se livre, mas está preso, muito preso…

Se o aprisionamento torturante, hoje, não é o do corpo, mas o da alma, há-de se buscar, na prática, o lugar de onde emanam os eflúvios de poder que agrilhoam essa tal alma. Não é difícil perceber que boa parte deles, talvez a mais forte e resistente em termos miasmático-prisionais (o quê?!), venha ainda do cerne e da carne da Igreja (assim como de seus derivados: os embutidos pentecostais, evangélicos, macedianos…). Cordeiros torturados em número crescente bradam seus cânticos torturantes por todo o lugar, até mesmo em Copacabana (eis a cor local do texto), enquanto prostitutas passam ao largo dos templos, desfilando pernas, umbigos e bocas. A necessidade de sentir-se subjugado encontra facilmente, assim, apesar da lascívia circundante, lugar de congregação. Sob o olhar piedoso do padre/pastor e dos irmãos em Cristo, todos estão protegidos e devidamente anulados. O espírito aprisionado entre as quatro paredes do Senhor é espírito satisfeito. Afinal, fora dessas quatro paredes, não há mesmo nada, a não ser o mundo, não é? Moldada a mente, ou espírito, ou alma, pela moral que emana da Igreja, resta pouco a moldar. Contudo, a educação escolar, o mundo do trabalho e o mundo paralelo da cultura/entretenimento/informação seriam, entre outras frentes, três replicadores dessa moral, pondo-se, ainda que em outros termos, contra o indivíduo, com a finalidade precípua, apesar de tácita, de torná-lo ainda mais dócil,  ou, por fim, de moldar os que não dão ouvidos ao discurso religioso. Afinal quem não é religioso também precisa ser controlado. Fecham-se as brechas.

A escola, já pelo simples fato de dispor de um currículo, prega também verdades. Sua crença é a de que, por meio de restrições e encaminhamentos, o indivíduo será “devidamente” moldado. Uma vez moldado, será, então, entregue à sociedade “pronto para o trabalho”. Neste, cumprirá docilmente sua jornada de oito horas, contribuindo não só para sua dignificação própria, mas também para “o enobrecimento da humanidade”, dizem. Findas as oito horas, paralelamente ao trabalho, de maneira consecutiva, haverá algum tempo e espaço para o prazer/lazer, o conhecimento e a percepção da realidade, todos eles regidos, hoje, pela lógica da Publicidade, a qual aproxima – sem escrúpulos e sob um fundo eminentemente quantitativo (leia-se quantificável) e quase nada qualitativo – prazer/lazer de entretenimento, conhecimento de cultura em sentido restrito e percepção da realidade de informação jornalística. Desse caldeirão escola-trabalho-diversão, surgem os belos indivíduos que nos cercam, como se fossem “carcereiros do bem” (a expressão é minha). No aspecto diversão (deixarei a escola e o trabalho de fora, porque o texto já se anuncia longo),  esses carcereiros do bem atuam como moedeiros falsos contumazes, mas julgam produzir somente dobrões de ouro. Tudo, para eles, deve imediatamente ser convertido em algo quantificável – daí os processos infantis em que incorrem, mesmo quando adultos maduros: “viajei mais do que você durante as férias” (entretenimento quantificado); “sei mais sobre Erasmo de Rotterdam do que você” (cultura em sentido restrito quantificada); “estou mais bem informado do que você sobre a crise na Europa” (informação quantificada). Devidamente quantificada, a vida ganha ares de competição, e os moedeiros falsos sentem-se, sempre, na liderança. De fato, são próceres da humanidade de cuja companhia devemos muito nos orgulhar.

Depois desse longo intróito, passemos a trechos relevantes do livro, enfim. Estou usando a edição da Vozes, tradução de Raquel Ramalhete. Todos os trechos abaixo são do primeiro capítulo apenas. Após uma caminhada pela praia (sim, é um inverno quente este), pretendo analisá-los.  Imaginem vocês que meu scanner quebrou e tive de digitar todos os trechos. Santa tortura a que me submeto em nome do sagrado conteúdo deste site

Trechos de “Vigiar e punir” (tradução de Raquel Ramalhete) compilados por Vinicius Figueira, sem intenção comercial, para mera análise pessoal e intransferível.

1. “Dentre tantas modificações, atenho-me a uma: o desaparecimento dos suplícios. […] Punições menos diretamente físicas, uma certa discrição na arte de fazer sofrer, um arranjo de sofrimentos mais sutis, mais velados e despojados de ostentação.” [p. 13]

2. “A punição […] deixa o campo da percepção quase diária e entra no da consciência abstrata […] a certeza de ser punido é que deve desviar o homem do crime […].” [p.14]

3. “É a própria condenação que marcará o delinqüente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto à execução, ela é como uma vergonha suplementar  que a justiça tem vergonha de impor ao condenado.” [p. 15]

4. “A execução da pena vai-se tornando um setor autônomo, em que um mecanismo administrativo desonera a justiça.” [p. 15]

5. “E acima dessa distribuição dos papéis se realiza a negação teórica: o essencial da pena que nós, juízes, infligimos, não creiais que consista em punir; o essencial é procurar corrigir, reeducar, ‘curar’”. [p. 15]

6. “Existe na justiça moderna e entre aqueles que a distribuem uma vergonha de punir, que nem sempre exclui o zelo: ela aumenta constantemente: sobre esta chaga pululam os psicólogos e o pequeno funcionário da ortopedia moral.” [p. 15]

7. “De modo geral, as práticas punitivas se tornaram públicas. Não tocar mais no corpo ou o mínimo possível, e para atingir nele algo que não é o corpo propriamente. […] O sofrimento físico, a dor do corpo não são mais os elementos constitutivos da pena. O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos. […] Um exército inteiro de técnicos veio substituir o carrasco, anatomista imediato do sofrimento: os guardas, os médicos, os capelães, os psiquiatras, os psicólogos os educadores.” [p. 16]

8. “O emprego da psicofarmacologia e de diversos ‘desligadores’ fisiológicos, ainda que provisório, corresponde perfeitamente ao sentido dessa penalidade ‘incorpórea’”. [p. 16]

9. “Desaparece, destarte, em princípios do século XIX, o grande espetáculo da punição física: o corpo supliciado é escamoteado; exclui-se do castigo a encenação da dor. Penetramos na época da sobriedade punitiva.” [p. 19]

10. “ A redução do suplício é uma tendência com raízes na grande transformação de 1760-1840. […] Castigos como trabalhos forçados ou prisão – privação pura e simples da liberdade – nunca funcionaram sem certos complementos punitivos referentes ao corpo: redução alimentar, privação sexual, expiação física, masmorra.”

11. “O afrouxamento da severidade penal no decorrer dos últimos séculos é um fenômeno bem conhecido dos historiadores do direito. Entretanto, foi visto, durante muito tempo, de forma geral, como se fosse fenômeno quantitativo: menos sofrimento, mais suavidade, mais respeito e ‘humanidade’. Na verdade, tais modificações se fazem concomitantes ao deslocamento do objeto da ação punitiva. […] Se não é mais ao corpo que se dirige a punição, em suas formas mais duras, sobre o que então se exerce? A resposta dos teóricos […] é simples, quase evidente. Dir-se-ia inscrita na própria indagação. Pois não é mais o corpo, é a alma. Marbly formulou o princípio fundamental: ‘que o castigo, se assim possa exprimir, fira mais a alma do que o corpo’”. [p. 21]

12. “Momento importante. O corpo e o sangue, velhos partidários do fausto punitivo, são substituídos. Novo personagem entra em cena, mascarado. Terminada uma tragédia, começa a comédia, com sombrias silhuetas, vozes sem rosto, entidades impalpáveis. O aparato da justiça tem que se ater, agora, a esta nova realidade, realidade incorpórea.” [p. 21]

13. “Muitos crimes perderam tal conotação [de crime], uma vez que estavam objetivamente ligados a um exercício de autoridade religiosa ou a um tipo de vida econômica; a blasfêmia deixou de se constituir em crime; o contrabando e o furto doméstico perderam parte de sua gravidade.” [p. 21]

14. “Sob o nome de crimes e delitos, são sempre julgados corretamente os objetos jurídicos definidos pelo código. Porém, julgam-se também as paixões, os instintos, as anomalias, as enfermidades, as inadaptações, os efeitos de meio ambiente e de hereditariedade. […] são as sombras que se escondem por trás dos elementos da causa que são, na realidade, julgadas e punidas. […] o conhecimento do criminoso, a apreciação que dele se faz, o que pode saber sobre suas relações entre ele, seu passado e o crime, e o que se pode esperar dele no futuro.” [p. 22]

15. “A alma do criminoso não é invocada no tribunal somente para explicar o crime e introduzi-la como um elemento na atribuição jurídica das responsabilidades; se ela é invocada com tanta ênfase, com tanto cuidado de compreensão e tão grande aplicação ‘científica’, é para julgá-la, ao mesmo tempo que o crime, e fazê-la participar da punição.” [p. 22]

16. “O laudo psiquiátrico, […] a antropologia criminal e o discurso da […] criminologia, introduzindo solenemente as infrações no campo dos objetos suscetíveis de um conhecimento científico, [dão] aos mecanismos da punição legal um poder justificável não mais simplesmente sobre as infrações, mas sobre os indivíduos; não mais sobre o que eles fizeram, mas sobre aquilo que eles são, serão ou possam ser. Não mais simplesmente: ‘Quem é o autor [ do crime]?” Mas “Como citar o processo causal que o produziu? Onde estará, no próprio autor,  a origem do crime?”. [p. 23]

17. “Admitiram que era possível alguém ser culpado e louco; quanto mais louco, tanto menos culpado; culpado, sem dúvida, mas que deveria ser enclausurado e tratado e não punido; culpado, perigoso, pois manifestamente doente etc. E a sentença que condena ou absolve não é simplesmente um julgamento de culpa uma decisão legal que sanciona: ela implica uma apreciação de normalidade e uma prescrição técnica para uma normalização possível. O juiz de nossos dias – magistrado ou jurado – faz outra coisa bem diferente de julgar.” [p. 23]

18. “Ao longo do processo penal, e da execução da pena, prolifera toda uma série de instancias anexas: […] peritos psiquiátricos ou psicológicos, magistrados da aplicação das penas, educadores, funcionários da administração penitenciária fracionam o poder legal de punir[…]. A partir do momento em que se deixa a pessoas que não são os juízes da infração o cuidado de decidir se o condenado ‘merece ser posto em semiliberdade ou em liberdade condicional, se eles podem pôr um termo à sua tutela penal, são sem duvida mecanismos de punição legal que lhes são colocados entre as mãos e deixados à sua apreciação; juízes anexos, mas juízes de todo modo.” [p. 24 e 25]

19. “Resumindo: desde que funciona o novo sistema penal – o definido pelos grandes códigos dos séculos XVIII e XIX – um processo global levou os juízes a julgar coisa bem diversa do que crimes: foram levados em suas sentenças a fazer coisa diferente de julgar; e o poder de julgar foi, em parte, transferido a instâncias que não são as dos juízes da infração. A operação penal inteira se carregou de elementos e personagens extrajurídicos. Pode-se dizer que não há nisso nada de extraordinário, que é do destino do direito absorver pouco a pouco elementos que lhe são estranhos. Mas uma coisa é singular na justiça criminal moderna: se ela se carrega de tantos elementos extrajurídicos, não é para poder qualificá-los juridicamente e integrá-los pouco a pouco no estrito poder de punir; é, ao contrário, para poder fazê-los funcionar no interior da operação penal como elementos não jurídicos; é para evitar que essa operação seja pura e simplesmente uma punição legal; é para escusar o juiz de ser pura e simplesmente aquele que castiga.” [p. 25]

20. “Objetivo deste livro: uma história correlativa da alma moderna e de um novo poder de julgar; uma genealogia do atual complexo científico-judiciário onde o poder de punir se apóia, recebe suas justificações e suas regras, estende seus efeitos e mascara sua exorbitante singularidade”. [nota minha: “conceito” de genealogia da punição] [p. 26]

21. “A relação entre os vários regimes punitivos e os sistemas de produção em que se efetuam: assim, numa economia servil, os mecanismos punitivos teriam como papel trazer mão de obra suplementar – e constituir uma escravidão “civil” ao lado da que é fornecida pelas guerras ou pelo comércio.” [p. 28]

22. “Mas o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem [atacam], o marcam, o dirigem o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais. Este investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocas à sua utilização econômica […]  [A constituição do corpo] como força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de sujeição; o corpo só se torna útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. Essa sujeição não é obtida só pelos instrumentos da violência e da ideologia; […] pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada, pode ser sutil, não fazer uso de armas nem do terror, e no entanto continuar a ser de ordem física.” [p. 28 e 29]

23 .  “Não se deveria dizer que a alma é uma ilusão, ou um efeito ideológico, mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que é produzida permanentemente, em torno, na superfície [e] no interior do corpo, pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos – de uma maneira mais geral sobre os que são vigiados, treinados e corrigidos, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados, sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência. Realidade histórica dessa alma que, diferentemente da alma representada pela teologia cristã, não nasce faltosa e merecedora de castigo, mas  nasce antes de procedimentos de punição, de vigilância, de castigo e de coação.” [p. 31 e 32]

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Literatura e engajamento – Sartre

Abaixo, um pequeno resumo informal, que fiz ao final da década de 199o, do que Sartre dizia na primeira parte de seu livro “Que é a literatura?”. Nessa época (década de 1940), ainda se falava em literatura e engajamento… 

I – Que é escrever?

Sartre refuta a tese de que o engajamento que propõe à literatura deva se estender às outras artes, pois não aceita a mera correspondência entre as artes. Cada uma delas dispõe de uma linguagem diferenciada.

Há uma distinção fundamental, por exemplo, entre o meio de expressão pictórico e o literário: na representação de uma casa, o pintor apresenta, digamos, um casebre e cabe ao leitor ver nesse casebre o que quiser. O escritor, por sua vez, pode dirigir o leitor e, quando descreve um casebre, mostra nele o símbolo das injustiças sociais e provoca a indignação do mesmo leitor. Isso, para Sartre, acontece porque para o pintor a casa é coisa, ao passo que para o escritor a casa é signo (na linguagem existencialista, a casa do pintor é, enquanto a casa do escritor existe). O pintor não pinta significados – assim como o músico não transforma significados em música –, por isso a impossibilidade do engajamento. Já o escritor (de prosa) lida com os significados.

O império dos signos é a prosa, mas a poesia está lado a lado com a pintura, a música e a escultura.  A poesia, ao contrário da prosa, não se serve das palavras, isto é, os poetas se recusam a utilizar a linguagem. Para eles as palavras são coisas, não signos. O signo possui uma ambigüidade que permite olhar através dele, visando à coisa significada, ou que se volte para a realidade do próprio signo, considerando-o objeto. Aos poetas mesmo o significado (“fundido à palavra, absorvido pela sua sonoridade ou pelo seu aspecto visual, adensado, degradado”) é coisa. A palavra, para o poeta, não é signo de um aspecto do mundo, mas imagem de um desses aspectos.

A imagem verbal utilizada pelo poeta para “refletir” algo não é necessariamente a palavra que habitualmente usamos para designar o mesmo objeto. As palavras-coisas  do poeta formam o que Sartre chama de frase-objeto. A poesia cria o mito do homem, enquanto o prosador traça o seu retrato. Na poesia, o mundo e as coisas passam para o inessencial, convertem-se em pretexto para o ato humano, que se torna o seu próprio fim. Para Sartre, o poeta mantém-se, até o séc. XIX, em acordo com a sociedade e seu conjunto.  Após o advento da sociedade burguesa, o poeta faz frente com o prosador e a declara insuportável.

O prosador escreve e o poeta também. A prosa é utilitária por essência; o prosador se serve das palavras. As palavras são, para ele, designações de objetos. Sartre diz que o prosador é alguém que escolheu agir por desvendamento, feito através da palavra, pois falar é agir. A função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele. Imerso no universo da linguagem não pode mais fingir que não sabe falar: entrando no universo dos significados, não consegue mais sair.

O escritor é escritor porque decide dizer as coisas de um determinado modo, e o estilo (que deve passar desapercebido e é determinado somente após se haver decidido sobre o que escrever) é o que determina o valor da prosa. As exigências do social ou da metafísica obrigam o artista a descobrir uma nova língua e novas técnicas. Não escrevemos mais como no séc. XVII.

[…]

O filósofo francês não aceita a tese de que os escritores do passado não escrevessem com o intuito de destruir, edificar ou demonstrar coisas acerca do mundo, sendo o conceito de mensagem uma espécie de neutralizador do verdadeiro poder das palavras do escritor. Não se pode, então, ter diante dos escritores uma postura que vise a encontrar em suas obras apenas uma mensagem que a tudo resuma.

“Um escrito é uma empreitada, uma vez que os escritores estão vivos, uma vez que acreditamos que o escritor deve engajar-se inteiramente nas suas obras, e não como uma passividade abjeta, colocando em primeiro plano seus vícios, as suas desventuras e as suas fraquezas, mas sim como uma vontade decidida como uma escolha, com esse total empenho em viver que constitui cada um de nós” (p.29; Tradução de Carlos Felipe Moisés. Editora Ática.).

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A geografia do centro do Rio de Janeiro, com o auxílio de Machado de Assis

Igreja de Santa Luzia, Rio de Janeiro (RJ), em 1886 e hoje

“[…] Era a primeira vez que as duas irmãs iam ao morro do Castelo. […] Natividade ia pensando na cabocla do Castelo. […] Não deu pela Praia de Santa Luzia […]” (Esaú e Jacó, Capítulos 1 e 4)

Já pensou o leitor em perambular pelas ruas centrais do Rio de Janeiro? Por que fazê-lo? (perguntariam alguns). Ora, diria eu, pelo prazer de conhecer o que a cidade esconde, como se faz ao quebrar uma casca de noz.

O trajeto que, de um local qualquer no centro da cidade, me leva ao ponto – junto ao Museu Histórico Nacional – onde resta o que seria a última elevação do Morro do Castelo não encerra, para mim, problema algum, a não ser o de passar por tanta coisa que ignoro. Sim, o Rio de Janeiro está repleto de história(s). Andar, contudo, não agrada a todos: já estive diante de cariocas que não fariam deslocamentos pelo centro, assim, gratuitamente (em geral por medos medianos, inerentes ao padrão televisivo de vida, segundo o qual tudo é violência, assaltos e sangue).

Residente da cidade faz dois anos, estive procrastinando, como sempre, plano de conhecê-la cronologicamente, postergação que se encerra agora. Por isso, senhores, por causa desse “cronologicamente”, não me interessa principiar pelo contemporâneo curvilíneo-comunista (sorry, for now, Niemeyer) ou pelos shopping-centers capitalistas. O histórico pelo histórico, isto é, aquele discurso que vincula todo o movimento da cidade obrigatoriamente à ditadura da compreensão da evolução ou involução econômica, fica em segundo plano: “A Rio Branco, antiga Avenida Central, é o retrato de um Brasil moderno, que no governo de…”; “Sob a monarquia, a região do Paço Imperial ocultava toda a opulência de uma classe …”. Não, esse discurso, ainda que constitutivo de uma determinada realidade, que, concedo, é fundamental para o cidadão político (na melhor acepção do termo), não me abre as ruas do centro, que são, afinal, o objeto do plano.

Mais histórico, creio eu, é conhecer o velho Rio de Janeiro (ou o que resta dele), com o auxílio da obra de Machado de Assis. São inúmeras as citações geográficas alusivas à capital fluminense em seus romances e contos, como qualquer estudante secundarista sabe (quer dizer, não sabe).

Antes de dar início à concretização do plano, isto é, à exploração do ambiente urbano local, desconfiei que o trabalho já havia sido levado a cabo (originalidade não existe). Não estava enganado: há, pelo menos, um livro que trata diretamente do tema e, melhor, um bom site sobre a obra de Machado, da Casa de Rui Barbosa, que, indiretamente, facilita-me a vida. É gratuito e excelente.

Da janela do escritório que habartlebito cotidianamente por 8 horas, no Castelo, visualizo a praia de Santa Luzia, hoje aterrada (as fotos acima ilustram bem isso). A julgar pelos cariocas que conheço, poucos sabem, infelizmente (reflexo de nossa educação formal muito informal), que boa parte do atual bairro do Castelo antes era mar. Machado torna-se, então, fonte segura para conhecer a história sem o doutrinamento do discurso histórico, se é que me entendem. Nesse ponto específico da cidade, o da praia/igreja de Santa Luzia, Esaú e Jacó foi-me, de saída e já no princípio, muito útil (como atestam as citações iniciais, ao lado da foto do escritor).

Por fim, um pouco mais, digamos, mar adentro, na hoje Avenida Beira-mar, situada a duzentos metros da igreja de Santa Luzia, passo freqüentemente pelo prédio em que morava o pernambucano Manuel Bandeira, o poeta do Castelo. Mas essa é outra história… (vejam o link: http://www.youtube.com/watch?v=XjlsWMCq1qM).

Autoria das fotos da Igreja de Santa Luzia: 
1886: Georges Leuzinger (rioquemoranomar.blogspot.com.br);
 2005: Ana Beatriz (olhares.uol.com.br).
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Sobre a arte de não escrever


Já disse, alhures, aqui mesmo, neste site, que, hoje em dia, há mais escritores do que leitores. (A presença das vírgulas no período acima visa a fazer com que o leitor leia o texto lentamente. A ausência de vírgulas no período anterior e neste que escrevo visa a acelerar a leitura. É o estilo a serviço da intenção. Até para inserir ou retirar vírgulas é preciso algum refinamento. Quem não sabe escrever não sabe fazer isso, pontua mal e enche o texto de absurdos sintáticos. Mas voltemos ao texto…). Todos, hoje, dizia eu, são escritores: seja pela ótica burra que, sob o pretexto da inclusão social (ó esquerda ignara!), transforma qualquer texto impensado e primário em texto digno de publicação, seja pelo ego incontido e nouveau-riche (ó direita ignara!) de sujeitos detentores de idéias absolutamente triviais que as publicam como se novidade fossem, o leitor é minoria – uma minoria soterrada por palavras mal trabalhadas, pouco lapidadas.

É natural que, por ser burilada cotidianamente e estar ao alcance de todos, a palavra seja considerada pelos ingênuos como matéria de fácil manipulação. Vejam-se os jornais, folheiem-se nossas revistas: os ingênuos estão lá em estado puro. Mas não é um mal do Brasil apenas, é do globo, isto é, do mundo. (Para o leitor desavisado [no Brasil, é preciso avisar]: algumas palavras dos dois últimos períodos contêm alusões venenosas à nossa imprensa). Como dizia um senhor amigo meu, já falecido: Why they don’t try ceramics? É uma lástima que prefiram publicar a calar.

Eu, calo-me (observem a vírgula estilística que separa sujeito de predicado, ao contrário do que recomendam professores pueris…).  Poderia vir aqui e escrever um texto por dia se quisesse, mas escrevo um por mês. Escrevo este agora porque o mês já se esgota. Note-se, contudo, que esse procedimento não se relaciona com a famosa crônica sobre a falta de assunto que, volta e meia, aparece em nossos nobres veículos de comunicação. Não escrevo, também, porque não quero escrever: essa é a mensagem. Este espaço virtual – só não percebe quem não quer – não tem, na verdade, nada de diário, apesar de fazer uso de uma plataforma para “web logs” (em tradução literal, “diários da rede”). Escrever diariamente sobre si para os outros é vulgar (Não faça versos sobre os acontecimentos […] As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam […] Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante […] desaparecem na curva do tempo). Mas ninguém de fato leu Drummond, e a ética/estética Facebook, portanto, impera (e se alastra a todos os meios).

Digo eu, por fim, em linguagem chã o que disse o poeta mineiro em linguagem elevada. Repara: ninguém quer saber de teu cotidiano. Mas não achem que dizê-lo me é fácil. Ser didático e direto, com a ironia ao fundo, demanda tempo, trabalho e abnegação. Arte, enfim.

Este texto foi escrito imediatamente após assistir a uma entrevista (reprise de 1989), feita pelo programa Roda Viva, com o agora falecido Millôr Fernandes. RIP, Millôr.
No penúltimo parágrafo, há trechos de “Procura da Poesia”, de Drummond.
Foto: Smith Premier 1 (Typewritermuseum.org)
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Diários da descoberta da América – resenha para preguiçosos

Esta é uma resenha que escrevi há uma dúzia de anos, para não reler os Diários integralmente. Alunos brasileiros, algo me diz, farão bom uso dela para não ler o livro. Macunaíma vive.

O texto dos Diários da descoberta da América é um relato, acrescido de um testamento, das quatro viagens do navegador genovês Cristóvão Colombo às “Índias”, no período de 1492 a 1504.

Colombo pretende, ao longo dos Diários, descrever aos reis espanhóis, e em especial à rainha, todas as experiências por que passou. Usa a terceira pessoa para falar de si mesmo, o que confere maior formalidade ao texto. Não se dirige, contudo, somente aos soberanos, mas também a Deus, a quem com freqüência agradece em atitude respeitosa. Talvez se possa dizer que atua ele próprio como um Deus, pelo menos na primeira viagem, ao adotar uma postura cuja característica principal é a de ser onipotente o bastante para ocultar de seus marinheiros, que temiam um abismo em pleno oceano, a verdadeira distância percorrida por sua embarcação, a Santa Maria. Oculta de seus subordinados o que sabe, pois , ao contrário deles, está consciente de que nenhum abismo aparecerá, e porque é um homem obstinado cujo sonho maior é o de descobrir, navegando sempre a oeste, novos caminhos marítimos para as Índias, em busca de especiarias.

No primeiro contato que tem com os nativos, antevê a possibilidade de evangelizá-los. Ao ver animais que desconhece, tenta assemelhá-los, usando o vocabulário europeu, a animais de sua terra. Também o colorido e a fauna e flora exóticas deslumbram-no, fazendo com que o mundo que descreva tenha feições paradisíacas. Aquilo que era desconhecido, portanto, planta-se em seu imaginário como semente de uma nova realidade a ser desenvolvida quase que messianicamente pela coroa espanhola, da qual era representante. Interessa-lhe também o ouro que, no princípio, vê alguns dos nativos usarem como adereço, e que já começa a ser trocado por miçangas e similares, mas que só na segunda viagem será mais explorado e procurado.

Assim, a busca do ouro aliada à intenção evangelizadora talvez possam ser citadas como duas das principais características da primeira viagem, por mais que esta fosse algo mais do mundo da fantasia do que da realidade, já que toda a trajetória nas ilhas do Caribe é tomada por viagem ao reino de Cipango, ou seja, ao atual Japão. O local (atual Haiti) é tão promissor que Colombo manda construir um forte, Navidad, onde deixa 39 colonos, antes de regressar à Espanha. A volta da primeira viagem só se conclui depois de enfrentarem péssimo tempo e retenção temporária de alguns marinheiros nas ilhas de Santa Maria e de São Miguel (Açores). O almirante chega em Lisboa, onde todos se assombram com os índios que trazia em sua embarcação, para só depois dirigir-se a Barcelona, onde estavam Suas Majestades. É necessário relatar aos patrocinadores da jornada o que se conseguiu.

Tendo sido o relato convincente, Colombo parte, em 25 de setembro de 1493, com dezessete navios e 1200 marinheiros, para sua segunda viagem, que não é relatada como se fosse um diário, mas como memorial. O discurso dirige-se a Antonio de Torres, a quem cumprirá, segundo Colombo, relatar os fatos aos reis espanhóis, por isso o tom monocórdico, do “direis”, acompanhado do enfadonho “outrossim”, que abre a maioria dos parágrafos.

Já logo no início do memorial, que começa a ser contado a partir da chegada à ilha de Dominica, assim nomeada por que lá chegaram em um domingo, o narrador trata de assegurar aos monarcas que há especiarias e ouro. Diz-lhes, também, que podem agradecer a Deus por isso, o que demonstra o caráter religioso da expedição que governa. Colombo desculpa-se pelo fato de o ouro ainda não ser em quantidade suficiente para agradar aos reis, atribuindo a escassez à doença de alguns marinheiros, por sua vez atribuída à mudança de ares e águas, às dificuldades naturais e à ausência de animais de tração, sem os quais as incursões pelo novo território tornavam-se difíceis. Há também, no início do memorial, no sexto parágrafo, a conscientização de que é necessário resguardar-se, isto é, proteger-se de ataques dos nativos, uma referência ao massacre do forte Navidad, em que morreram os 39 colonos ali deixados.

Os fatores citados no parágrafo anterior são indicações de que tanto a defesa do território quanto a alimentação adequada, ou seja, o cultivo da terra, constituem fatores basilares para o desenvolvimento da ocupação de um novo território. Colombo solicita que lhe sejam mandados mantimentos, como vinho, biscoitos, carnes, além de animais vivos como carneiros, bezerros, e cabritos, para a sustentação de seus comandados. Essa operação toda já deveria passar pela figura do mercador, pago com o ouro das Índias, e que de posse do metal, dirigir-se-ia aos reis para ser reembolsado.

A difícil comunicação com os indígenas requer, de acordo com o almirante, o início de um pequeno intercâmbio, isto é, o envio de alguns nativos à Europa para que aprendam a língua do colonizador e adotem sua religião. Colombo também sugere que sejam escravizados, o que não é aceito por Isabela. Logo a seguir, começa uma seqüência de pedidos que inclui tanto salários e títulos aos homens que mais se destacam quanto soldos àqueles que vieram para a ilha sem nada receber, o que indica a vontade de que se institua uma colônia de facto, e com as devidas proteções àqueles mais próximos, algo que parece ser inerente ao espírito ibérico, se julgarmos pelo padrão latino-americano vigente.

Na terceira viagem, em 1498, Colombo chega primeiro à América do Sul, subindo depois até a ilha Espanhola, sempre pensando estar no Oriente, e próximo do paraíso terrestre. Faz considerações acerca da esfericidade da Terra. Relata seus contatos com os índios de maneira semelhante à primeira viagem. O fato novo é que Colombo perde seu título de Governador Geral das Índias devido a um conflito entre os colonos, sendo enviado de volta para a Espanha, acorrentado. Começa a perder seu prestígio.

O relato da quarta viagem assume um tom bastante melancólico, reflexo do fracasso de uma expedição que quase ficou encalhada e que não encontrou ouro algum. Semanas após seu retorno, com a morte de Isabela, seu prestígio, já pequeno, anula-se.

O testamento, que encerra o volume, é um exercício fantasioso e patético de um homem, que, mesmo fracassado, considera-se detentor dos direitos correspondentes aos cargos de Almirante, Vice-rei e Governador. Pelo documento lega a seus dependentes, em especial ao filho Diogo, o dízimo de tudo o que se achar e extrair nas Índias. Morre, portanto, renegando sua condição miserável, e convicto de que chegara ao Oriente.

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Sobre homens e orangotangos, à luz de Ortega y Gasset

Em algum momento do século passado, no entre-guerras, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset escrevia (em “A rebelião das massas”), com aquela fluência prosaica que lhe era inerente, sobre a ascensão do homem médio, do homem mediano, do homem-massa, ao poder (não só ao poder político, mas ao poder em sentido mais pleno, qual seja, o de ocupação integral de espaços). Essa ocupação, que – pressentia Ortega – seria total e totalitária, dar-se-ia muito pela quantidade, por aquilo que o espanhol chamava de “cheio”. Em qualquer lugar que se fosse, a ocupação já estaria consolidada pelo excesso, pela alta densidade demográfica, pela massa, enfim.

Hoje, cerca de 70 anos depois, o problema é outro: não se trata mais da ascensão do homem médio em detrimento do indivíduo, mas da simples aniquilação deste. Não há mais indivíduos. Os meios de comunicação, a publicidade e a mentalidade coletivista – que a todos tratam como um rebanho bovino – não prezam a contestação genuína à ideologia prevalente, mas apenas a contestação de fachada: aquela que, rápida e sinteticamente, se integra ao ruminar mediano dos bárbaros, todos eles coletivamente individualistas ao extremo, e, portanto, muito distantes de serem indivíduos.

Uma das marcas mais profundas do humano, hoje, é a impossibilidade de se estar sozinho. A solidão, hoje, só vale quando é compartilhada, seja como manifestação de sofrimento, seja como troféu de alguma empreitada esportiva ou turística. Não há mais o espantar-se, que é tão íntimo da solidão e do conhecimento. Tudo já está – pensam os bárbaros – inteiramente conhecido: o homem domina o mundo, é um ser pleno. Resta-lhe(s) apenas, portanto, uma necessidade, que é perpetuar a acumulação de bens. Sim: a única novidade possível, hoje, é a posse de mais e mais bens, todos eles bem concretos e passíveis de causar inveja à horda de seus equivalentes circundantes. Acumular, para eles, equivale a conhecer. Acumular é o thaumázein (espanto) de hoje. Comprar mais do mesmo, isto é, dispor da última versão de tudo, causa-lhes a sensação de um passo dado em direção à plenitude. Mas é uma plenitude de orangotango.

Como, aparentemente, não há maneira de recuar diante do mundo instituído, da técnica, da multidão e das “benesses” do sistema social e econômico sob o qual vivemos, estamos, de fato, diante de um dilema próximo do insolúvel. Mas não nos preocupemos: caso não o resolvamos, Eike Batista certamente nos oferecerá a solução…

 

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A tarefa do leitor de Herman Melville

Em véspera de novo ano, mais um pouco do velho Herman Melville ao leitor brasileiro…

Talvez seja possível dizer que em The Piazza Tales, o escritor nova-iorquino Herman Melville obstaculiza ao máximo o chamado prazer estético, guardando-o para momentos muito breves e específicos dos textos aparentemente enfadonhos que ali se encontram. Cabe ao leitor perscrutar a densa camada formal – construída na dureza da exigência híbrida de romantismo e realismo que as histórias carregam –, para chegar a uma ou outra situação de sublimação, o que se torna ainda mais difícil pelo fato de o autor muitas vezes fazer uso de vocabulário náutico, necessário a então “correta” descrição do ambiente marítimo – em que, diga-se de passagem, boa parte de suas histórias ocorre. Esse é o caso, por exemplo, de Benito Cereno, um dos contos ali narrados (além, é claro, de Moby- Dick, que dispensa maiores comentários, e de Billy Budd, sua última obra). Mas nem sempre, em Melville, a temática se volta ao mundo marítimo, centrando-se muitas vezes em ambiente urbano, como no caso de Bartleby ou mesmo em ambiente mambembe (ainda que fluvial), como o de The confidence-man.

A ambientação de Benito Cereno implica sem dúvida já uma primeira análise, qual seja, a de que existe nas obras de Melville a óbvia necessidade de evasão, tão comum aos chamados romances de aventura. Mas essa evasão não lhe é assim tão banal, pois que geralmente vem coroada não com uma espécie de plenitude e realização em ambiente estrangeiro, mas, mais propriamente, com a idéia de desterro, tanto físico quanto metafísico, que culmina no aniquilamento das personagens, em situação de recusa. Seja na sombra imposta pelo negro Babo ou pelo tom branco do cachalote Moby Dick, os protagonistas Benito Cereno e Ahab deixam-se levar para bem longe da redenção, um pela miséria e pela impotência, outro pela obsessão. Isso para não falar de cores e de questões de raça, que aqui não serão abordadas. Falemos de ambientação.

Pode-se dizer que o navio impõe-se como o lugar simbólico adequado não só para negar a existência terrestre mas também para negar o mundo, o sistema político, econômico, religioso e social estabelecido, pela criação de um mundo próprio – recurso do qual muito se aproveitou Melville e que, curiosamente, encontra equivalente em história bem urbana, como é o caso de Bartleby, em que um escritório de Wall Street funciona como verdadeiro mundo estrangeiro e autista (análise que faremos em outra oportunidade). Billy Budd, para retomar outro protagonista, vê-se forçado a retirar-se do domínio dos vivos, sina comum às personagens melvillianas, que talvez tenham mesmo como grande característica esse fatalismo trágico de, pela morte imposta e inevitável, ou pelo apagamento voluntário, legarem mais um conflito ao já renitente mal-estar do leitor moderno.

Ao compreender e aceitar esse fundo trágico inerente aos personagens de Melville, o leitor que se investe da condição de crítico começa a perceber a necessidade de valorizar a linguagem do romancista norte-americano, nela buscando esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase, a forma enfim, que contenha, como na poesia, maior densidade – palavra opaca, mas desnuda e revelada pela leitura atenciosa: É na margem do turbilhão enfadonho da descrição que pequenos trechos permitirão ao crítico encontrar o centro em torno do qual todo o texto se ancora.

[O ensaio original continua por mais algumas páginas, mas paro por aqui, a fim de não causar enfado. Feliz 2012!]

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Madame Bovary, O Primo Basílio e Dom Casmurro – vai encarar?

Lembro-me de ter lido, faz cerca de dez anos, o ensaio de Silviano Santiago intitulado “Eça, autor de Madame Bovary”. O texto do crítico mineiro tem já seus 35 anos, mas ainda sobrevive nos cursos de Literatura Comparada, tenho certeza.

Não aprecio esse texto de Santiago, por razões que enumerei em outra encarnação, quando ainda cursava doutorado. Mas o fato de eu não apreciar o pós-modernismo não vem ao caso. E nem é o mote deste artiguinho aqui. O que me importa é que para acompanhar a linha de raciocínio do ensaio de Santiago, ainda que dele discordemos, tenhamos de ler, no mínimo, três romances. E isso não é pouco: Flaubert torna-se pudico diante da estética (e da ética) de baile funk carioca que hoje a muitos encanta, e vira uma espécie de “reverendo Flaubert” para os adolescentes de 17 anos que ingressam na faculdade e vivem, concomitantemente, talvez a mais pura libertinagem (burra) da história da humanidade.

Porém, mesmo que não gostemos da vulgaridade de tais bailes e sejamos mais – digamos – discretos, teremos de reconhecer que Madame Bovary, o livro, excluída a técnica de Flaubert, que é magistral, conta-nos mesmo uma história enfadonha e datada. “O Primo Basílio”, por sua vez, é um dos romances mais soporíferos que já li, excluída novamente a técnica do escrever que, em Eça, também sobrevive. Diria apenas – e posso estar errado – que o escritor português não tem aquela habilidade do corte cinematográfico avant la lettre que tinha Flaubert, aquele “show don’t tell” que causa surpresa ao levar o leitor a percorrer anos em uma só linha, como nas passagens de Carlos Bovary à idade adulta ou de Ema à condição de mulher casada. Eça de Queirós sempre me traz à mente aquela minudência descritiva que logo nos leva aos braços de Morfeu. Machado, em “Dom Casmurro”, sobrevive pela ironia.

A matriz francesa do romance oitocentista, reconheçamos, portanto, deixa muito a desejar ao olho de hoje. Revela pouco. O olho de ontem não poderia mesmo ser o olho de hoje, eu sei, mas, Flaubert e Eça (mais do que Machado) grudaram o romance demasiadamente à ética pequeno-burguesa de sua época e, com isso,  digo eu, como diriam os jovens em sua elevada linguagem, “perderam, playboy”.

“Perderam” porque, curiosamente, um Gogol, que é também do Oitocentos, não faz isso. Há mais humor, mais deboche, mais ficção, no bom sentido do termo, nas obras do ucraniano. Talvez seja, por isso, um autor de maior fôlego. Menos realismo comezinho, mais imaginação cômica. Mas essa é outra história e, sobre o cômico em Gogol, falo em outra oportunidade, enquanto vocês aí, leitores de meia pataca, tratam de travar contato com Tchítchicov e Akaki Akakievitch.

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Swift – As viagens de Gulliver (para adultos)

Em um dos clássicos da literatura de língua inglesa, Jonathan Swift escreve sobre um certo Lemuel Gulliver. “Sobre” não seria a preposição adequada, uma vez que a obra é escrita em primeira pessoa. Portanto, Swift não escreve sobre Gulliver, mas o incorpora. Sim, o estatuto do narrador é, aqui, secundário. Mas voltemos: Gulliver, todos sabem, em alguma medida deriva de “gullible”, e essa derivação talvez induza excessivamente a tratar o livro como uma simples brincadeira. Como algo em que somente uma pessoa crédula ou tola acreditaria. Não é esse o caso.

“As viagens de Gulliver” foi e é tomado como um livro para diversão infanto-juvenil (desse mal sofre também Moby-Dick), mas não há nada de infantil nele, a não ser superficialmente. Talvez a interpretação centrada nessa perspectiva infanto-debilóide-juvenil venha, principalmente, do fato de os leitores, preguiçosos, não avançarem no livro. Lêem sua primeira parte, tomam conhecimento dos lilliputianos e acham que leram Swift. Em verdade vos digo: é preciso passar pelas partes dois (Brobdingnag) e três (Laputa/Balnibarbi/Luggnagg/Glubbdurbdrib/Japão), para chegar ao que o livro tem de melhor. Somente na quarta parte, “Uma viagem ao país dos Houyhnhnms”, Swift revela uma ética própria, que alguns diriam misantrópica. Não concordo com alguns…

Na quarta parte do livro, Swift nos traz aquilo que de mais nobre há no caráter humano – ainda que tal nobreza requeira forte anteposição a tudo que seja humano. É que a humanidade de Swift é para poucos… O mundo ocidental de hoje (e o de ontem, e o de anteontem) centrado como é (e foi, e fora) naquilo que há de mais vil e abjeto, qual seja, a prevalência da mentalidade prática, da riqueza puramente material, repugna (sim, esse mundo ocidental repugna) a quem despreza a lógica utilitária e plutocrática que – ao fim e ao cabo daquilo que um dia chamamos de humanidade, no hic et nunc de um vigésimo primeiro século – vem repousar tal qual plácida coroa sobre a cabeça de homens modelares de toda uma geração de asnos, como são Jobs e Zuckerberg. Essa repugnância, saibam, não é aparente, não é ideal, não é platônica.

Voltem a Swift, crianças.

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O futebol conta uma história

Não creio haver nada de original em dizer que o jogo de futebol, de certa maneira, assemelha-se a uma narrativa. Nele, uma história é contada a partir de um ponto zero, ou melhor, de um zero a zero, estado inicial que pode ser alterado por meio de gols, os quais desatam nós, e são frutos, muitas vezes, de intricadas peripécias perpetradas pelos jogadores, os personagens da trama. É verdade, também, que o placar ou estado inicial pode manter-se inalterado decorrido o tempo regulamentar. Quando isso acontece, não é porque a narrativa, ou o jogo, não andou, mas apenas porque não houve desfecho favorável para o protagonista, ou para o antagonista, dependendo do ângulo que se queira tomar.

Se o jogo de futebol é, em si mesmo, uma forma de narrativa, mais ainda o é aquilo que chamamos de “campeonato”, que, por sua vez, é uma seqüência de jogos, ou capítulos, organizados e amarrados de maneira tal que definirá, ao final da competição, a equipe vencedora, encarnação incontestável do herói, o qual, apesar dos percalços, a todos derrota ao longo do tempo. O time vencedor de um campeonato recebe seus prêmios, é louvado nacionalmente (quando a competição é, naturalmente, nacional) e desfruta, por um ano, do título conquistado, até o final de uma nova edição do “romance” que é o futebol. Eis, em resumo muito breve e simples, o relato interno do processo.

Externamente, em seus, digamos, reflexos psicológicos e sociais, percebe-se muito claramente o quanto o rito futebolístico acirra ou acalma o ânimo, a alma, dos homens e, mais hodiernamente, das mulheres. É claro que sob a vibração desencadeada pelo futebol subjazem, represados, instintos guerreiros e primitivos da mais alta animalidade, controlada pela capa civilizatória de que nos revestimos desde o final do neolítico. Mas o que importa é a prevalência do fingir, da sublimação desse instinto…

No caso específico do futebol brasileiro, que há muito acompanho, a sublimação é notável. Os torcedores, não raro cidadãos que vivem miseravelmente em muitas esferas da vida (quando digo “vivem miseravelmente” não me refiro só à esfera econômica. Coloco-me, portanto, em posição contrária ao senso comum, que atrela miséria obrigatoriamente à condição econômica. É preciso lembrar que há também miséria de outra ordem. Às vezes, o cidadão é economicamente próspero, mas leva toda uma existência carente de educação formal, cultura filosófica, histórica, jurídica etc., isto é, sob a mais rotunda ignorância) – os torcedores (dizia eu, antes de perder-me na digressão parentética que há pouco se encerrou e em que, percebo, há destilação de algum veneno…) – os torcedores –  cala-te, segunda voz! – causam ao olhar arguto do observador razoavelmente instruído um misto de compaixão e espanto. Compaixão, porque o aspecto fundamental do jogo, qual seja, seu caráter ficto, é tomado como realidade vicária, substituta da vida em si, que resta esquecida. Espanto, pela capacidade que tem o jogo de fazer com que coloquem o fingir acima do real e instaurem assim, sem peias, um mundo nas nuvens, nele vivendo com prazer inatingível e invejado pela razão fria.

É de se ressaltar, ainda, o quanto o mundo das Comunicações vampiriza o fenômeno acima citado, alimentando-se dele – em estado puro – e excretando-o pela via suja da publicidade, em que, de maneira cabotina e asquerosa ficam gravadas as predileções por este ou aquele clube (em geral, o de maior potencial de “retorno” [palavrinha abominável] financeiro, já que para as animálias que administram grandes empresas tudo se resume a lucro). Pode-se dizer que os humanos que mais contribuem para transformar o futebol em circo de altas cifras – e mais nada – são aqueles cujos ideais pessoais são tão concretos quanto o ordinarismo raso das mercadorias das prateleiras dos supermercados.

Pessoalmente, enfim, confesso que, quando posso, ainda me ponho diante da TV aos domingos, um pouco à força, um pouco irracionalmente. Um romântico diria que a aura poética do futebol ainda resiste nos lares do torcedor brasileiro… Mas não seria a troca do estádio pelo sofá um indício do fim? Diante do aparelho, em meio a comerciais de sabão em pó e de cerveja, pergunto-me sempre se a paixão continuará até o próximo campeonato, enquanto, ao meu lado, no conforto de minhas melhores almofadas, o patético cava lugar. Para mandá-lo embora, apelo ao gol da foto acima. Obrigado, Falcão; obrigado, Dario; obrigado, Escurinho.

 
Este texto é dedicado a todos os heróis que jogaram no Sport Club Internacional nos anos 1970. Escurinho morreu ontem.
Aqui, o gol:
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Merquior: breve nota de leitura acerca de uma passagem de Foucault

Leio no segundo capítulo do livro de Merquior sobre Foucault, intitulado justamente “Foucault” (livro escrito originalmente em inglês e traduzido para o português como “Foucault – ou o niilismo de cátedra”), a seguinte citação, retirada de “Histoire de la folie à l’Âge Classique”:

“O manicômio é o espelho de toda uma estrutura autoritária – a da sociedade burguesa. Constitui-se em um microcosmo no qual estão simbolizadas as sólidas estruturas da sociedade burguesa e seus valores: relações família-criança, centradas no tema da autoridade paterna; relações transgressão-punição, centradas no tema da justiça imediata; relações loucura-desordem, centradas no tema da ordem social e moral.” [tradução minha a partir do texto em inglês]

Talvez nem todos saibam que essa citação (com a qual concordo) sofrerá, como de resto sofre a obra do filósofo francês, dura crítica do autor brasileiro, interessado em defender a tese de que a razão iluminista, ao contrário do que apregoa Foucault, não deve servir de bode expiatório sobre o qual recaiam os pecados da humanidade (algo com o que também concordo). Sim, a citada estrutura autoritária está lá, presente, não só no manicômio, mas nas escolas, no ambiente de trabalho etc. Contudo, não é o abandono da razão em nome de uma subversão afetada e mítica que conduzirá o mundo a algum estado de incondicional celebração da vida em detrimento do(s) sistema(s) sob o(s) qual(is) vivemos. A razão é sempre bem-vinda, ainda mais quando se sabe no que descambou a filosofia francesa destes últimos 40 ou 50 anos, estragando a vida intelectual de duas gerações: “Words, words, words”, como diria o personagem de Shakespeare aquele.

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Escrito a partir de “Noite com os gênios do estudo e do amor”, de Pedro Américo

Pedro Américo - "Noite com os gênios do estudo e do amor"

Quando a noite chega, ao homem, depois da labuta, restam muitas vezes dois caminhos apenas, ambos prazerosos. É claro que a escolha de um ou de outro depende não só dele, mas do mundo à volta e dos empecilhos por esse mundo postos. Porém, não é porque haja obstáculos que os caminhos deixam de ser trilhados. A opinião mundana sobre o estudo e sobre o amor degrada-os à luz de quem os compreende com uma certa profundidade. Quando digo “certa profundidade” não estou sendo exigente. Pode ser uma profundidade menor – rasa, se quiserem –, suficiente apenas para superar o embotamento cotidiano a que a artificialidade proveniente do meio da publicidade e do entretenimento tão facilmente conduz. Um passo para fora do círculo obtuso da mentalidade mediana, mais especificamente da mentalidade mediana brasileira, com suas novelas e futebóis, lugares-comuns e jornais de quinta, e o homem pode voltar a si mesmo, ao livro esquecido, ao corpo esquecido. Um passo para fora do círculo obtuso da mentalidade mediana, e o tempo ganha nova face: talvez seja possível a concretização do plano, talvez seja possível o aproveitamento integral do tempo, sem a amarra do relógio, sem o nó da gravata – o aproveitamento infantil  do tempo. Pois é só a criança que sabe vivê-lo, mesmo quando, aos olhos do adulto, o desperdiça.

No fluxo do tempo, e em detrimento do dia, falemos da noite, a belíssima noite: Desde, quando jovens, nem sempre sóbrios, a desfrutávamos imoderadamente e aos tropeços, até hoje, quando, em meio à vida, a deixamos passar, impercebida, a noite sempre mereceu melhor trato. Precisamos começar pela busca da linguagem certa que só a noite emana e instila, linguagem despida da fórmula e do vício burocrático do escrever; de posse da linguagem, precisamos flanar, em silêncio, distantes do falatório, em torno da auréola do seio da noite, para que ela nos seja generosa, irrigando-nos mente e corpo. Então, os humores fluirão, raros e valorosos, como deve ser.

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O conhecimento, segundo Nietzsche

Abandonei a leitura de Nietzsche há algum tempo, para descansar. No Brasil, recomendo as traduções de Paulo César de Souza (Companhia das Letras). Abaixo, um trecho que escrevi sobre o autor alemão, para uma certa tese. Talvez sirva a alguém como uma “Introdução a Nietzsche”. Vejam só a importância de nosso planeta e de nós mesmos, na perspectiva do filósofo, já na primeira citação que selecionei, retirada de uma de suas primeiras obras, “Sobre verdade e mentira em um sentido extramoral”, que, hoje, é obra pop, conhecida de todo jovem de 17 anos… Obs.: as citações estão todas em azul.

Anunciar ao homem que o conhecimento integral do mundo lhe está vedado: esta a base sobre a qual se ergue a filosofia de Friedrich Nietzsche. Seu pensamento é uma forma de conviver com tal condição de encobrimento e de vedação ao ser e aos reais fundamentos e causas da vida humana – sem, em geral, apelar a qualquer solução metafísica. O filósofo alemão não recorre a soluções que clamem pela instituição de um mundo inteligível que se pudesse estabelecer contra um mundo sensível. Em sua filosofia, vista como um todo, ainda que este “todo” seja de dificílima sistematização, a dicotomia aparência/essência é refutada. Apesar de Nietzsche propor, em uma de suas últimas obras, a abolição completa dessa relação, pode-se dizer, para efeito de maior clareza expositiva, que toda sua filosofia repousa, ou pretende repousar, sobre uma das metades dessa dicotomia – a que diz respeito à aparência.

A partir da constatação de que há uma impossibilidade de acesso a qualquer espécie de objeto que exceda os limites da razão humana, em Nietzsche é possível encontrar uma alternativa que se configura em uma resistência a tal condição – alternativa que se poderia chamar de “vontade de ilusão” [1]. Essa alternativa não chega, porém, a configurar um conceito firme – como é constante na obra do filósofo, sempre avesso a uma tentativa mais rigorosa de definir claramente os termos sobre os quais trabalha –, mas se caracteriza, grosso modo, como uma tentativa de solução que visa, nos extremos, tanto a tolerar quanto a celebrar a vida dentro de seus limites sensíveis e biológicos, em contraposição aos limites, ou melhor, à ausência de limites relacionada a mundos inteligíveis e puramente metafísicos. Em primeiro plano tem-se, então, o viver governado por uma ética voltada à própria vida, ao fenômeno, à aparência (o termo “aparência” como sinônimo de fenômeno, à luz da filosofia de Nietzsche, radicaliza a distinção entre essência e aparência, pois toma o termo não como sendo “aparência de alguma essência”, mas como a única possibilidade aberta à percepção e ao conhecimento humanos.  “Aparência” é, portanto, aqui, algo que dispensa a antonímia expressa em “essência”). Descarta-se, assim, elevar o conhecimento humano a uma esfera desconhecida e metafísica:

“Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidades e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta [weitere] [2], que conduzisse além da vida humana. ” (NIETZSCHE, 1996, p. 53) (grifo meu).

A tolerância da vida, e sua celebração, como se vê, provêm ambas de uma premissa que, se é laudatória da racionalidade, ao mesmo tempo dela desconfia, caracterizando-a como exageradamente preenchida por um querer humano e antropocêntrico. Não há nesse louvor de Nietzsche aos achados da razão uma pretensão à universalidade. A impossibilidade de acesso integral à compreensão da totalidade do mundo, de ir além da vida humana, já está bem clara em sua filosofia no texto de 1873, mas se estende a outros momentos de sua obra, e sob outras perspectivas. [3] O conhecimento humano cobre apenas uma parcela dessa totalidade – uma parcela que se restringe aos próprios limites antropológicos do conhecimento –, e a humanidade é vista como uma simples centelha temporal, que, extinta, caracterizar-se-á por ser irrelevante para o Universo. Assim, a expressão “história universal”, que Nietzsche apresenta marcada por aspas, indica ironia: o que se lê por debaixo dela é, na verdade, “história da (efêmera) humanidade”.

Esse pensamento de Nietzsche não é, ao contrário do que se poderia supor, nada apocalíptico. Trata apenas da percepção, mais científica do que religiosa, de que houve um tempo em que os homens não existiam e de que a repetição do fenômeno, ou seja, a volta a esse não-existir, é uma possibilidade. Passado o tempo da humanidade, volve-se ao nada, e esse retorno é visto como algo natural (isto é, inerente ao fluxo da Natureza), não como algo a ser perpetrado pelo próprio homem e nem – muito menos – como desejo de auto-aniquilamento, mas pela condição de finitude do próprio mundo natural, simbolizado, na passagem citada, por um “astro” que é parte de um “sistema solar”, cuja estrela está prestes, em sua autocombustão, a queimar-se até provocar a frieza máxima, inibidora da vida do percipiente.

No mesmo trecho de 1873, observa-se que a linguagem utilizada pelo filósofo é estranha à filosofia. Nietzsche apela à fábula, para, metaforicamente, falar de um tema muitíssimo caro aos filósofos (e também aos cientistas e religiosos). Despe-se, assim, de uma linguagem rigorosa, para dizer o que pensa por meio de um singelo contar. A própria escolha da linguagem já aponta para o espírito agônico que lhe movia: ousar fazer uso de uma linguagem “inadequada” ao campo em que pretendia atuar, a filosofia, já que à época era ainda filólogo, em Basiléia.[4] Porém, mesmo antes, em O nascimento da tragédia (1872), o autor já esvaziava um pouco da arrogância dos filósofos acerca da abrangência do conhecimento, neles percebendo uma confiança extremada nas possibilidades da razão e identificando pontualmente em Sócrates um precursor de tal procedimento:

“(…) profunda representação ilusória, que veio ao mundo pela primeira vez na pessoa de Sócrates – aquela inabalável fé de que o pensar, pelo fio condutor da causalidade, atinge até os abismos mais profundos do ser e que o pensar está em condições, não só de conhecê-lo, mas inclusive de corrigi-lo. (…) sublime ilusão metafísica (…). ” (NIETZSCHE, 2001a, § 15, p. 93).[5]

Tem-se, assim, um evidente descrédito à forma mais tradicional do pensar, mas não a ponto de mergulhar a filosofia (e a vida) na mais profunda irracionalidade. Pelo contrário, Nietzsche persegue e procura, como todo filósofo, uma resposta racional e certeira – em meio a mais absoluta incerteza acerca da validade e do alcance do procedimento racional – para o porquê da vida e das próprias condições sobre as quais se ergue todo um sistema que pretende abarcar a totalidade, como é a filosofia. [6] Interrogar – e interrogar-se – é algo inerente ao pensamento de Nietzsche, não lhe servindo, portanto, o abandono incondicional ao gozo subjetivo de uma atitude irracionalista e descomprometida com o mundo. O entendimento de uma possível e inalcançável orquestração da realidade é uma preocupação que se estende a toda sua obra, e pode ser observada também mais tardiamente, como neste trecho de A gaia ciência (1882):

“Mas estar em meio a essa rerum concordia discors [discordante concerto das coisas] e toda a maravilhosa incerteza e ambigüidade da existência e não interrogar; não tremer de ânsia e gosto da interrogação, nem sequer odiar quem interroga, talvez até se divertindo levemente com este – isto é o que percebo como desprezível (…).” (NIETZSCHE, 2004a, § 2, p. 55) (grifos do autor).

Percebe-se, então, que interrogar é fundamental na filosofia do autor alemão, o que afasta qualquer possibilidade de análise de seu pensamento à luz de uma concepção de aniquilamento da própria filosofia. O que nele se tem, isto sim, é uma atitude que não despreza a razão, mas que sempre põe em dúvida o seu alcance, a sua validade: a razão como maneira de se chegar às próprias coisas é questionada, e esse questionamento sempre traz em si mesmo a necessidade de se considerar a presença intrusiva do fator humano na própria tentativa (racional) de se tomar o que se conhece – ou o que se presume conhecer – como sendo certo e inquestionável.


[1] Toma-se como referência a já antiga expressão “Der Wille zum Schein”, de Hans Vaihinger, subtítulo da obra “Nietzsche und seine Lehre vom bewußtgewollten Schein” (“Nietzsche e sua doutrina sobre a ilusão consciente”), de Hans Vaihinger (Cf. Vaihinger, Hans. La voluntád de ilusión em Nietzsche. Madrid: Tecnos, 1998). A expressão de Vaihinger provavelmente advenha de dois trechos de Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, de Nietzsche. No primeiro trecho (p. 60), Nietzsche descreve o homem intuitivo, depois de descrever o homem racional: “(…) Ambos desejam ter domínio sobre a vida: este [o homem racional] sabendo, através de cuidado prévio, prudência, regularidade, enfrentar as principais necessidades, aquele [o homem intuitivo], como ‘herói eufórico’, não vendo aquelas necessidades e tomando somente a vida disfarçada em aparência e beleza como real [zum Schein und zur Schönheit verstellte Leben als real nimmt]” (NIETZSCHE, 1996, p. 60); No segundo trecho (p. 57), Nietzsche responde à pergunta “O que é a verdade?”: “Um batalhão móvel de metáforas (…): as verdades são ilusões [die Wahrheiten sind Illusionen]”. Fonte do texto em alemão: http://www.textlog.de/455.html, consultado em 19/4/2006. Durante esta pesquisa, observou-se que as traduções vacilam entre “ilusão”, “aparência” e “fenômeno” quando o termo a ser traduzido é Schein – “luz”, “brilho”, “clarão”, “aparência”. O esclarecimento do tradutor brasileiro de O nascimento da tragédia, J. Guinsburg, que talvez possa ser aplicado às demais obras do autor alemão (e também ao texto de Vaihinger), é o seguinte: “por significar a um só tempo aparência, brilho e ilusão, Schein converte-se num dos principais termos do urdimento fenomenológico e metafísico do discurso nietzschiano em O nascimento da tragédia. Não havendo em português um vocábulo correspondente, escolheu-se o de sentido mais abrangente [aparência]” (In: NIETZSCHE, 2001a, p. 145). O termo “Wille” é normalmente traduzido como “vontade”, no sentido de “disposição”, “tendência”, “impulso” (Cf. Marton, 2000, p. 70).

[2]  “Ulterior”, que tem o sentido de algo “que chega ou acontece depois; posterior”, “que está além de; que se situa do lado de lá, “que se faz ou cumpre no futuro; posterior” (Dicionário Houaiss) parece, a nosso ver, e em respeito ao contexto, melhor tradução do que “mais vasta” para o termo original alemão “weitere”. O caráter de “ulterioridade” é diferente do caráter de “vastidão”. “Ulterioridade” implica um depois, uma solução posterior, que aqui se atrela à extinção do homem e, portanto, à morte e ao que viria depois dela – o que de fato se relaciona intimamente à  natureza especulativa da filosofia em geral e da filosofia de Nietzsche, em particular. Como o que o homem ignora é esse depois da vida, e não a vastidão da vida, “ulterior” seria melhor escolha.

[3]  Como neste trecho de Humano, demasiado humano (1878), mais em plano psicológico do que cosmológico. Note-se como, diante do desespero, um homem, o poeta, não sucumbe e, portanto, celebra a vida: “Se [o homem comum] conseguisse apreender e sentir a consciência total da humanidade, sucumbiria, amaldiçoando a existência, – pois no conjunto a humanidade não tem objetivo nenhum, e por isso, considerando todo o seu percurso, o homem não pode nela encontrar consolo e apoio, mas sim desespero. Se ele vê, em tudo o que faz, a falta de objetivo último dos homens, seu próprio agir assume a seus olhos caráter de desperdício. Mas sentir-se desperdiçado, enquanto humanidade (e não apenas enquanto indivíduo), tal como vemos um broto desperdiçado pela natureza, é um sentimento acima de todos os sentimentos. – Mas quem é capaz dele? Claro que apenas um poeta (…).” (2004c, § 33, p. 39-40).

[4]  Para maiores informações biográficas, cf. Janz, Curt Paul. Friedrich Nietzsche: Los diez años de Basilea (1869/1879).

[5] A palavra alemã aqui traduzida como “ilusão” é “Wahn”, e não “Schein”. Assim: “representação ilusória” traduz Wahnvorstellung, e “ilusão metafísica” traduz metaphysische Wahn. Fonte do texto alemão: http://www.mala.bc.ca/~johnstoi/Nietzsche/tragedy_G.htm. Acesso em 19/04/2006.

[6]  “(…) O pensamento de Nietzsche ocorre nos limites da vasta órbita da antiga questão norteadora da filosofia: ‘o que é o ser?’” (Heidegger, 1991, p. 4).

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“Bartleby, o escriturário”, de Herman Melville: crítica, resumo, encenação brasileira

Estive ontem na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, para assistir à encenação de Bartleby, o escriturário, de Herman Melville [Direção: João Batista; Cenografia: Doris Rollemberg; Elenco: Gustavo Falcão (Bartleby), Duda Mamberti (Advogado-narrador), Cláudio Gabriel (Turkey), Eduardo Rieche (Nippers), Rafael Leal (Ginger Nut)]. Em primeiro lugar, há de se louvar a dicção (no sentido amplo do termo) de Duda Mamberti, em seu sublime trabalho de memorização e clareza, algo ao alcance somente de grandes atores. Simplesmente magnífico. Cláudio Gabriel, Eduardo Rieche e Rafael Leal também estão impecáveis no veio cômico no qual cerca de metade do espetáculo mergulha. Gustavo Falcão, por sua vez, faz muito bem o contrapeso metafísico e existencial aos três personagens cômicos e ao atônito Advogado-narrador, neles instilando, aos poucos, aquela angústia de cunho filosófico, cuja especulação primeira está lá em Kierkegaard, como eu mesmo – desculpem-me a imodéstia – já dissera há nove ou dez anos em uma dissertaçãozinha de Mestrado (ver longo excerto abaixo). A direção, a cenografia, os figurinos (Mauro Leite), a música (Marcelo Alonso Neves), grata surpresa,  e a iluminação (Renato Machado) estão muito bem articulados, para dizer o mínimo. Confesso que, em princípio, a opção pela leitura cômica, inspirada em Gilles Deleuze, mas certamente não só nele, causou-me certa apreensão. Ao longo do espetáculo, contudo, pude compreender que tal opção é mais do que justificável: optar por um caminho, digamos, mais trágico, poderia afastar por demais os espectadores não afeitos à densidade do escritor nova-iorquino, exposta mais particularmente no próprio personagem Bartleby, e na – simplifico – segunda metade do espetáculo. Uma ressalva: para um espectador/leitor mais acostumado à filosofia, as gargalhadas da platéia não deixam de ser uma surpresa, às vezes, incômoda. Talvez sejam necessárias para catarticamente aliviar um pouco a densidade da trama – e até aqui a decisão por provocá-las terá sido acertada –, mas é verdade que também, quando exageradas, não deixam de denotar uma concessão àquele vínculo popular com o espectador mediano, o espectador de boiada, tão acostumado ao nem sempre feliz humor global, sem o qual, por outro lado, nem sempre, creio eu, se deva sobreviver profissionalmente nos Trópicos. Há de se considerar, portanto, que a opção pela comicidade poderá acentuar a prevalência do efeito do caráter profundo do Advogado-narrador, e não o de Bartleby, sobre o público-boiada, para quem ele simplesmente morre. Estava escrito.

Para finalizar, trata-se de um espetáculo que faz jus ao incentivo recebido do Ministério da Cultura e que, espero, continue em cartaz por muito tempo. Eis as datas: 19 a 29 de maio (quintas a sábados, 21h, e  domingos, 19h) e 7 de junho a 27 de julho (terças e quartas, 21h).

 

Abaixo, trechos de minha dissertação “Bartleby, de Herman Melville, e Begrebet Angest, de Søren Kierkegaard: possível aproximação” [Mestrado em Teoria Literária, PUCRS, 2002]

 

Bartleby, o escriturário: recuperação crítica

Pretende-se, aqui, fazer uma recuperação crítica da obra Bartleby, de Herman Melville. Um aspecto importante a ser levado em consideração é o de que a obra parece prestar-se a diversas interpretações – fato que se aplica mais especialmente ao protagonista (o próprio Bartleby), talvez devido a seu comportamento atípico. Muito se tenta reduzir o poder da personagem central por meio de uma suposta semelhança que guardaria com quaisquer outras personagens de ficção ou personalidades históricas.  Tais tentativas talvez sejam nada mais do que um esforço de compreender a complexidade não só de Bartleby, a personagem, mas também de Bartleby, o texto. Ou, então, o espírito “eclético, pedante, altamente alusivo e astucioso” [1] de Melville.

Uma questão que de imediato se põe é a que diz respeito ao trabalho do crítico literário, isto é, o de quanto ele pode, ou deve, facilitar a assimilação de um texto literário sem que sua leitura se sobreponha às leituras que serão feitas no futuro. Em outras palavras, há o risco de que uma interpretação mais “especializada” se constitua em uma espécie de interpretação única, modelar. Acompanhe-se a seguinte reflexão: “Não é trabalho do crítico destrinchar a obra por meio de uma doutrina que a ela aplique, deixando ao leitor a impressão de que seu ensaio [o do crítico] seja tão completo que a leitura da própria obra passe a ser algo ao mesmo tempo supérfluo e menos abrangente”.[2] A partir desse raciocínio, insinua-se aqui a seguinte proposta:  as leituras, por mais discrepantes que sejam, são sempre aceitas, embora nem todas sejam sempre aceitáveis – há liberdade para que o leitor elabore sua própria interpretação do texto, ainda que disso não decorra que com ela se concorde ou que ela seja intocável.

Acompanhando-se a profusão de textos críticos acerca de Bartleby, [3] fica-se com a impressão de que o texto em pauta é, na pior das hipóteses, extremamente sugestivo. Sabe-se que uma obra pode sugerir as mais diversas interpretações, mas em Bartleby parece que se está diante de uma extrapolação desse princípio. Dan McCall, em The silence of Bartleby, diz que facilmente se esquece da história Bartleby em meio à quantidade de estudos e textos críticos que a ela já foram dedicados.[4]

Bartleby foi a primeira short story (novela) [5] publicada por Melville. Em sua primeira edição, no Putnam’s Monthly Magazine, em novembro-dezembro de 1853, o título não era somente Bartleby, mas Bartleby the scrivener, e vinha acompanhado de um subtítulo: A story of Wall-Street. A seguir, inserida, em forma de livro, em 1856, na coletânea The Piazza Tales, a novela passa a ser chamada simplesmente Bartleby. McCall aponta que os cortes no título e no subtítulo talvez tenham se dado por um equívoco na troca de correspondências entre Melville e seu editor, quando aquele, ao se referir à obra em questão, o fez, por economia,  apenas pelo uso da palavra Bartleby, induzindo o editor a tanto encurtar o título quanto a eliminar o subtítulo. Pode-se argumentar que a remoção do subtítulo e o corte do epíteto the scrivener enfraquecem a dimensão cultural, as pressões de ordem econômica e as relações sociais por eles indicadas. [6] Curiosamente, duas traduções brasileiras mantêm o epíteto, ou sob a opção “o escriturário” (Rocco, 1986) ou “o escrivão” (Record, s/d).

Como é impraticável relacionarem-se todas as interpretações de Bartleby, a seguir se apresenta uma síntese de algumas delas, apresentada em recente trabalho de McCall. Um ponto importante do estudo do professor da Cornell University é aquele em que ele se refere a três possíveis fontes para Bartleby: “The Lawyer’s Story”, de James A. Maitland; um trecho da Bíblia (Mateus, 25); um ensaio de Ralph W. Emerson.

A primeira, e talvez mais explícita das três influências,  é um texto narrativo: “The Lawyer’s Story”, de James A. Maitland, publicado em 18 de fevereiro de 1853 no New York Times e no New York Tribune, alguns meses antes da publicação de Bartleby. A descoberta desse texto foi feita por Johannes Dietrich Bergmann, o qual publicou, no ano de 1975, o artigo “Bartleby and The Lawyer’s Story”. McCall não cita de maneira explícita o texto de Maitland, o qual se obteve de outra fonte, [7] e de que  abaixo se reproduzem pequenos excertos, com a finalidade de cotejá-los com o texto de Melville. […]

In the Summer of 1843, having an extraordinary quantity of deeds to copy, I engaged, temporarily, an extra copying clerk, who interested me considerably, in consequence of his modest, quiet, gentlemanly demeanor, and his intense application to his duties; so much so, indeed, that I was sorry when, at the expiration of a few weeks, the business of my office growing slack, I no longer had occasion for his services; neither, at the time, did I know of any vacancy that would suit him; but I desired him, at all events, should anything turn up, to apply to me for a recommendation, assuring him that I would do all in my power to afford him assistance.[8]  

 E duas passagens do semelhante texto de Melville:

(…) There was now great work for scriveners. Not only must I push the clerks already with me, but I must have additional help. In answer to my advertisement, a motionless young man one morning, stood upon my office threshold, the door being open, for it was summer. I can see that figure now — pallidly neat, pitiably respectable, incurably forlorn! It was Bartleby.  After a few words touching his qualifications, I engaged him, glad to have among my corps of copyists a man of so singularly sedate an aspect (…).

(…) if he desired to return to his native place, wherever that might be, I would willingly help to defray the expenses. Moreover, if, after reaching home, he found himself at any time in want of aid, a letter from him would be sure of a reply. [9]

Parece não haver dúvidas de que o texto de Maitland serviu de inspiração para que Melville criasse Bartleby em um processo transtextual (Genette, vide p. 72-73 deste trabalho) – mas apenas como um ponto de partida, já que, como bem assinala McCall, os protagonistas nas duas histórias são efetivamente diferentes. Por exemplo, a personagem Bartleby tem passado familiar ignorado, enquanto o protagonista da narrativa de Maitland, como se vê abaixo, possui uma irmã. Além disso, o caráter de Bartleby não comporta o “earnest and winning smile” (“sorriso sincero e triunfante”) do protagonista de The Lawyer’s Story :

The young man might have been, perhaps, a twenty years of age, and his sister scarcely sixteen; both were good-looking: but the young man’s countenance was shaded with constitutional or habitual melancholy — I judged the latter, because, at times, when anything deeply interested him, this expression disappeared, and left in its place an earnest and winning smile. [10]

Outro diferença importante é a de que o advogado em Bartleby, ao contrário do de Maitland,[11] jamais se refere à esposa – na verdade, toda a narrativa carece da presença feminina – embora, na primeira versão de Bartleby – e apenas nela – houvesse uma senhora (Mrs. Cutlets), esposa do cozinheiro (Mr. Cutlets, algo próximo de “Sr. Costeleta”). Observe-se o seguinte diálogo entre o advogado e o “grub-man” (algo próximo de “o homem da comida [‘do grude’]”), em que este é apresentado a Bartleby:

  – Bartleby, this is Mr. Cutlets; you will find him very useful to you. 

 – Your sarvant, sir, your sarvant – said the grub-man, making a low salutation behind his apron.  – Hope you find it pleasant here, sir; nice grounds – cool apartments, sir – hope you’ll stay with us sometime – try to make it agreeable. May Mrs. Cutlets and I have the pleasure of your company to dinner, sir, in Mrs. Cutlets’ private room? [12]

A segunda fonte possível, que ecoa a análise de outro comentador,  Bruce Franklin,[13] seria o texto do Novo Testamento, mais especificamente Mateus 25, 34-40.[14] A inferência mais generalizante que se pode fazer é a de que o advogado acolhe Bartleby de maneira cristã.  Ainda que as atitudes descritas no texto de Mateus naturalmente não se cumpram ipsis litteris em Bartleby, McCall argumenta que a semelhança entre os dois textos é bastante razoável: “Todas as palavras são diferentes, mas significam, de maneira poderosa, a mesma coisa”. [15] Outras duas comparações são feitas ao texto bíblico: (1) o fato de o advogado, que também é o narrador, textualmente citar as palavras do evangelho “A new commandment give I unto you, that ye love one another”, [16] quando resolve adotar comportamento mais cristão para com Bartleby; (2) o fato de o advogado negar Bartleby três vezes, assim como Pedro negou Jesus.[17] As passagens do texto de Melville em que o advogado estivesse a negar Bartleby são as seguintes: “but, really, the man you allude to is nothing to me”; “I certainly cannot inform you. I know nothing about him”; “In vain I persisted that Bartleby was nothing to me”. [18] McCall dá especial ênfase à primeira dessas passagens, que considera extremamente próxima do que se lê em Marcos 14, 71 (palavras de Pedro): “Não conheço esse homem de quem falais!’” (Cite-se o mesmo trecho, em inglês, para que se confira a proximidade vocabular: “I know not this man of whom ye speak”).

Fato curioso e que talvez só venha a comprovar a imensa variedade de interpretações a que a novela Bartleby parece estar sujeita é o fato de  Bruce Franklin considerar a narrativa um exemplo de texto trágico: “trata-se de uma história trágica, independentemente de a quem estejamos nos referindo” [19], ao passo que, outro comentador, o filósofo Gilles Deleuze, apregoando antes de mais nada o aspecto anti-representacional do texto de Melville, sentencia: “Bartleby não é uma metáfora do escritor, nem o símbolo de coisa alguma. É um texto violentamente cômico (…)”. [20] Franklin aponta para a simultaneidade de três diferentes espécies de ética em Bartleby: a primeira implica ação e atuação finais no mundo em que se vive, a segunda implica ação no mundo com a intenção de fazer valer razões subjacentes e a terceira implica retirar-se do mundo. Como exemplos extremos dessas três categorias éticas, Franklin indica, respectivamente, Wall Street, Jesus Cristo e os monges orientais. A ética de Wall Street é aquela que vê no mundo um fim em si mesmo; Cristo prescreve um certo comportamento a ser adotado neste mundo e os monges buscam escapar de todos os mundos. Bartleby, de acordo com o crítico norte-americano, é um mundo em que as três éticas confrontam-se. [21] O advogado parece estar sendo testado, de acordo com Franklin, a viver de acordo com Mateus, 25, isto é, em temerosa solidariedade para com a personagem Bartleby.

A terceira e última possível fonte para Bartleby teria sido um ensaio de Emerson, The Transcendentalist, no qual se ouve a voz de um homem mais velho a aconselhar outro, mais moço. Para McCall, o ensaio retém uma certa semelhança para com a relação entre o advogado e Bartleby, o qual, por seu comportamento, leva o advogado a formular uma nova concepção de vida. É o seguinte o  trecho ilustrativo de Emerson:

É um sinal de nossa época, conspícuo mesmo para o observador mais tosco, que muitas pessoas inteligentes e religiosas retirem-se da comum labuta, das competições do mercado e das reuniões partidárias, adotando um certo modo de vida solitário e crítico, o qual ainda não produziu nenhum fruto maduro que justificasse seu isolamento. Consideram-se distantes… Estão sós; o espírito de seus escritos e de suas falas é solitário; repelem influências; evitam a vida em sociedade; inclinam-se a trancar-se no seu cômodo em casa… a descobrir suas tarefas e seus prazeres na solidão. A sociedade, é certo, não gosta muito disso; aquele que resolve caminhar sozinho acusa o mundo inteiro; declara que ninguém serve para sua companhia.[22]

 A aproximação feita por McCall pretende indicar, pela contraposição de dois comportamentos distintos, presentes tanto no texto de Emerson quanto no de Melville, que este teria buscado inspiração em The Transcendentalist ao compor as personagens do advogado-narrador e de Bartleby. Bartleby representaria o homem mais jovem, cuja inatividade provoca em seu interlocutor julgamentos e questionamentos.

[…]

Outras leituras 

Egbert S. Oliver [23] faz uma leitura que aproxima Bartleby de a desobediência civil do Thoreau de Resistance to Civil Government ou Civil Disobedience, como o ensaio é mais conhecido. O “I would prefer not to” seria uma reductio ad absurdum das convicções de Thoreau.  Oliver argumenta que Melville teria tentado reproduzir o afastamento de Thoreau, mas com o intuito de ridicularizá-lo, pois retirar-se do convívio social é algo que nunca se dá de maneira integral ou independente.  A aproximação está fundada na semelhança entre o ato de recusa de copiar do escriturário e o ato de recusa de participar de uma sociedade, a resistência passiva, prenúncio de Ghandi,  do naturalista de Concord, que se recusara a pagar impostos a um governo que apoiava a escravidão e a guerra.  Segundo McCall, a resistência passiva do texto de Melville desqualifica-se como sendo uma alusão a qualquer espécie de resistência passiva pela presença do artigo indefinido inglês “a”: “Nothing so aggravates an earnest person as a passive resistance.” [24] De acordo com Kazin, o problema está em que Oliver tenta provar que Bartleby é Thoreau: “assim o que ocorre é que a relação [entre Thoreau e Bartleby] não é mais ‘possível’ mas passa a ser algo que se provou…”. [25] Outra contraposição, sugerida por McCall, à  idéia dessa aproximação, é a de que nenhum leitor contemporâneo de Melville tenha levantado a hipótese se tal semelhança. Além disso, Thoreau não era  “descorado, ameno, pálido, gentil e dócil” como Bartleby. [26]

A primeira e quem sabe mais convincente analogia entre Bartleby e outra obra depende, e não curiosamente, de efetiva aproximação entre seu autor e o autor da obra próxima. Leo B. Levy, no  ensaio Hawthorne and the Idea of Bartleby, levanta a hipótese de que de fato Melville tenha usado uma obra de Hawthorne,  The old apple-dealer, como fonte de inspiração.  A idéia aqui é a de que o autor, de certa forma, parte de um texto de outro autor para compor o seu, o que não deixa de envolver um processo que se poderia chamar de mimético.

[…]

No caso do suposto aproveitamento da história de Hawthorne por Melville, não há maiores surpresas. Como se sabe o jovem autor nutria grande admiração pelo autor mais velho (Hawthorne era quinze anos mais velho) — o que fica comprovado no texto Hawthorne and his mosses, ensaio escrito três anos antes de Bartleby como uma espécie de encômio à obra Mosses from an old manse, de Hawthorne,  talvez um bom indicador da emulação que viria a acontecer. Como aponta McCall, as próprias palavras de Melville em seu ensaio sobre o conteúdo de  The old apple-dealer indicam sua devoção romântica ao futuro cônsul:  “tais insinuações como as que encontramos nesta obra não podem proceder de um coração qualquer. Elas revelam tal profundidade em sua ternura, tal apreço por todas as formas de vida, tal onipresente amor que devemos dizer: ‘esse Hawthorne é quase um representante único de sua geração’”

[…]

Acompanhem-se alguns trechos de The old apple-dealer, uma espécie de sketch, segundo a própria denominação de Hawthorne (a reflexão sobre a construção de uma personagem é evidente: “Para falar a verdade, não é a coisa mais fácil do mundo definir e individualizar uma personagem como esta com que agora lidamos”). [27] Primeiramente, o narrador descreve a personagem que estuda, e já se podem notar algumas semelhanças entre ela e Bartleby (mantém-se o original a fim de facilitar comparações):

 I remember an old man who carries on a little trade of gingerbread and apples, at the depôt of one of our rail-roads. (…) The old man looks as if he were in a frosty atmosphere, with scarcely warmth enough to keep life in the region about his heart. He is not desperate (…) but merely devoid of hope. (…) You discover that there is a continual unrest within him, which somewhat resembles the fluttering action of the nerves, in a corpse from which life has recently departed. Though he never exhibits any violent action, and, indeed, might appear to be sitting quite still, yet you perceive, when his minuter peculiarities begin to be detected, that he is always making some little movement or other.[28]

 A seguir, talvez a maior aproximação possível com Bartleby, mais especialmente no adjetivo “forlorn” (desesperançado, desamparado), utilizado por Hawthorne, e  que também descreve o protagonista na história de Melville: “I can see that figure now — pallidly neat, pitiably respectable, incurably forlorn! It was Bartleby.  (…) I strangely felt something superstitious knocking at my heart, and forbidding me to carry out my purpose, and denouncing me for a villain if I dared to breathe one bitter word against this forlornest of mankind.”[29].  Em “gingerbread” que viria a ser reaproveitado como único item de alimentação da personagem Bartleby. Quando se observa a construção “old man of gingerbread”,  de Hawthorne, pode-se  facilmente  compreender  a concepção de uma personagem semelhante, que se nutre somente de tal item alimentício  (“he [Bartleby] eats nothing but ginger-nuts”[30]). Segue-se o trecho de Hawthorne, em que se grifam as expressões apontadas acima:

The old apple-dealer never speaks an unnecessary word; not that he is sullen and morose; but there is none of the cheeriness and briskness in him, that stirs up people to talk. (…) And, in the midst of this terrible activity, there sits the old man of gingerbread, so subdued, so hopeless, so without a stake in life, and yet no positively miserable — there he sits, the forlorn old creature, one chill and sombre day after another… (…) Thus the contrast between mankind and this desolate brother becomes picturesque, and even sublime. [31]

 

Bartleby: confiabilidade do narrador

Para McCall, deve-se considerar o texto como um fim em si mesmo. Ler Bartleby na busca de uma ou de outra personalidade histórica é algo que empobrece o próprio Bartleby. A “leitura profissional”, ao contrário da simples leitura, faz com que o texto deixe de existir para que possamos expressar nossa engenhosidade crítica e erudita. Melville “em um processo extraordinariamente doloroso, faz de seu narrador um advogado ‘real’, convincente, um homem que reflete seriamente sobre a natureza de sua profissão e assim a  exerce”.[32] Por isso seria inaceitável deixar de considerar essa personagem um advogado para considerá-la representação de qualquer outra coisa que não a de um advogado, o qual é, além disso, “um substituto do leitor, uma figura com que podemos nos identificar à medida que lutamos para compreender [a personagem] Bartleby”.[33] O professor norte-americano discorda das interpretações psicológicas  que tendem a considerar a personagem uma projeção do advogado, fruto das profundezas de seu inconsciente, como se Bartleby fosse apenas fruto da imaginação do narrador. Não concorda tampouco com interpretações que reduzam o advogado-narrador a um papel político, a um (mau) representante em Wall Street de uma classe dominante que faz uso de seus subordinados, os quais, por sua vez, reduzem-se a seres reificados, verdadeiros autômatos de um sistema injusto. No que diz respeito à psicologização de Bartleby, adicione-se o depoimento de Borges: “Bartleby já define um gênero que Franz Kafka reinventaria e aprofundaria a partir de 1919: o das fantasias do comportamento e sentimento ou, como agora lamentavelmente se diz, psicológicas”.[34]

McCall diz “confiar naquele advogado”, apesar de acusações como esta, de Wilson: “o advogado reduz a moralidade a uma questão de dinheiro; [a história] é uma das mais amargas acusações ao capitalismo americano que já se publicou”. [35] Essa confiança reside em um necessário reconhecimento de que o narrador de fato dispõe-se a participar do mundo do protagonista em um nível que parece pairar acima do mundo do cotidiano. O advogado participa de um processo em que  está a aprender com o empregado mais uma “lição de humanidade” do que está a se deixar representar como a expressão de um sistema socioeconômico injusto. Para McCall, “ver o advogado narrador como o representante de uma classe, uma inadvertida vítima de um sistema social e econômico, não é tanto fazer interpretação criativa do texto quanto é fazer uma paráfrase obtusa dele”. [36]

Talvez um trecho que combine a predisposição do advogado em interagir com Bartleby, isto é, em não expulsá-lo de seu escritório, seja este, no início da história. Logo após a primeira recusa da personagem principal em fazer o que se lhe havia requisitado, narra o advogado: “With any other man I should have flown outright into a dreadful passion, scorned all further words, and thrust him ignominiously from my presence. But there was something about Bartleby that not only strangely disarmed me, but in a wonderful manner touched and disconcerted me. I began to reason with him”. [37] Caso se aceite essa prevalência do caráter humano sobre a coisificação de que Bartleby seria vítima, outra passagem da história como “Here I can cheaply purchase a delicious self-approval. To befriend Bartleby; to humor him in his strange willfulness, will cost me little or nothing” [38] não pode ser interpretada como quer Wilson,  que diz: “a palavra chave aqui é cost: tudo se torna uma questão de lucro ou perda. O advogado mede sua noção de moralidade, tanto quanto sua consciência, pelos termos de quanto isso lhe custará. Bartleby não é mais do que uma mercadoria no escritório do advogado.” [39]

A questão de fundo está em aceitarem-se as palavras do advogado-narrador como sendo as palavras de um homem que faz autocrítica ou, então, como sendo as palavras de um homem que, imerso no mundo voraz do capitalismo, só pensa em tirar proveito daqueles que o cercam. É uma questão de como se dá a leitura do texto e não uma questão de declarar-se peremptoriamente que apenas uma delas parece aceitável. Como se quer, aqui, aproximar o texto de Melville de um texto cujas características remetem mais ao mundo moral do que ao mundo da prática [O Conceito de Angústia, de Søren Kierkegaard], é natural que já se tenha percebido que a opção é por uma leitura voltada ao efeito ético que a personagem principal produz na conduta do advogado-narrador. Com isso, não se quer, em absoluto, afastar a possível interpretação política, sociológica ou classista da obra, mas apenas optar por uma leitura que se julga mais adequada ao propósito do trabalho. Tal leitura, em sua dialética, indiretamente não deixa de abordar a condição social das personagens. Quando se assume, como fator de mudança, a força da personagem que ocupa lugar inferior na escala econômica sobre aquela que lhe é superior, talvez já se tenha optado por  uma interpretação que, mesmo abstrata e de tendência mais metafísica,  agrade mesmo aos mais ferrenhos – e pouco afeitos à abstração – defensores dos fracos e dos oprimidos. Talvez se possa conquistar a simpatia até mesmo de Bruce Franklin, que, em 1970, propõe: “aquele que jamais fez qualquer espécie de trabalho físico não está apto a ensinar Melville (…). Devemos remodelar nossas idéias para que possamos nos juntar ao povo e servi-lo”. [40] Mais tarde, em 1976, sua crítica tornou-se ainda mais dura no texto Herman Melville: Artist of the Worker’s World:

Hoje, na história norte-americana, quando se aborda Melville como um artista proletário, você se expõe ao ridículo perante o establishment acadêmico literário, os professores que ‘recebem’ de U$ 15.000,00 a U$ 40.000 por ano representando inadequadamente a literatura. Para eles, toda grande literatura não possui conteúdo de classe, pois ‘transcende’ a luta de classes. A grande literatura existe para ser apreciada — por eles e por seus melhores alunos — por sua grandeza. Ou seja: reduzem a literatura a uma agradável amenidade de sua opulenta existência. O que é mais vital e relevante sobre Melville ainda é suprimido e enterrado. Pois o Melville que se ensina é um Melville redesenhado à  imagem dos professores. [41]

O problema parece ser o de que a crítica de fundo marxista precisa justamente reduzir as personagens a dois grupos distintos. Essa redução, ainda que conveniente para fins doutrinários, talvez não seja o caminho mais adequado para a devida compreensão do alcance das personagens que, aprisionados em uma lógica maniqueísta, jamais podem transcendê-la, sob a pena de estarem rompendo com a “adequada” representação do mundo. Tal espelhamento parece requerer da literatura uma condição submissa, isto é, a literatura como meio para a conscientização: “A provocação originária, e ainda hoje sustentada , da teoria literária marxista, consiste em negar à arte, como às outras formas  da consciência — moral, religiosa, metafísica —, uma história  que lhes seja própria”. [42] […]

  

Bartleby, o escriturário: um resumo

A relativa boa recepção de The Piazza Tales de certa forma compensou o fracasso de parte dos romances escritos por Melville. Talvez em Bartleby, segunda história da coletânea,  se tenha uma espécie de ironia em que o escritor cujas obras haviam sido renegadas passa a fazer pouco de sua atividade, reduzindo-a mero trabalho de cópia, mas com isso, e aí está a ironia maior, obtendo melhores resultados diante da crítica e do público.

Desde a ressurreição de Melville na década de 1920, muitos críticos têm lido Bartleby como uma alegoria da própria situação difícil por que passava o próprio Melville (…). A história do escriturário ou copista preso entre paredes reflete de maneira adequada a própria situação de Melville em 1853, quando estava escrevendo Bartleby — pelo menos é o que se diz. Melville também passou a ver seu trabalho como as dead letters [cartas cujo destinatário não se encontra] após o fracasso de Pierre em 1851. (…) Enfrentando a necessidade de sustentar sua família, voltou-se à  escrita de ficção para a revista Putnam’s. Bartleby, the Scrivener foi a primeira  dessas histórias e sua obra-prima no gênero.[43]

Em Bartleby, há um total de cinco personagens. A narrativa é conduzida por uma dessas personagens, um advogado cujo nome jamais nos é revelado. Tal personagem constitui um narrador que participa da história “não como protagonista, mas como figura cujo destaque pode ir da posição de simples testemunha imparcial a personagem secundária estreitamente solidária com a central”. [44]  Ao lado dessa personagem (além de outros três empregados – Turkey, Nippers e Ginger Nut – cuja importância é secundária na história),  atuando como protagonista, está Bartleby. A relação entre ambas é a seguinte: Bartleby é um escriturário, que trabalha para o advogado, que é seu empregador. Para este, Bartleby serve como fonte de desnorteamento e de preocupação devido à  absoluta ausência, em sua personalidade, das ambições costumeiras e dos vícios, ambos inerentes à condição humana. [45] Isso se dá porque o escriturário teimosamente afirma – por recusar conformar-se às regras sociais – sua liberdade individual. Porém, a maneira pela qual impõe sua contrariedade é silenciosa e passiva ao invés de ser vigorosa e ativa.[46] Essa contrariedade de Bartleby é sempre expressa pela frase “I would prefer not to” (Prefiro não fazê-lo), com a qual o protagonista responde aos pedidos ou às ordens do chefe.

A resposta “I would prefer not to” é primeiramente dada quando a tarefa em questão é a de revisar os manuscritos copiados no escritório de advocacia. Bartleby não se recusa a copiar, mas a revisar. Essa atitude efetivamente desnorteia o narrador-advogado, pois é inusitada: um empregado não pode simplesmente recusar-se a fazer o que lhe é pedido. A primeira recusa se dá, aproximadamente, ao final do primeiro quartel da narrativa. O narrador, o advogado, diz: “In this very attitude did I sit when I called to him, rapidly stating what it was I wanted him to do – namely, to examine a small paper with me. Imagine my surprise, nay, my consternation, when without moving from his privacy, Bartleby in a singularly mild, firm voice, replied, ‘I would prefer not to’”. [47]

Um aspecto que se deve ressaltar é o da maneira pela qual a personagem principal ingressa na narrativa à primeira página da novela (sempre quem narra é o advogado):  “But I waive the biographies of all other scriveners,  for a few passages in the life of Bartleby, who was a scrivener the strangest I ever saw, or heard of. (…)  Bartleby was one of those beings of whom nothing is ascertainable, except from the original sources, and, in his case, those are very small.” [48] Logo a seguir, o advogado descreve-se: “I am one of those unambitious lawyers who never addresses a jury, or in any way draws down public applause; but,  in the cool tranquillity of a snug retreat, do a snug business among rich  men’s bonds, and mortgages, and title-deeds. All who know me consider me an eminently safe man.” [49] (o grifo é do texto original). A contraposição entre as duas personagens é evidente: Bartleby não inspira tranqüilidade ao advogado, que, considerando-se um homem seguro, vê sua segurança ameaçada pelo estranho escriturário.

 


[1] McCALL, op. cit., p. 25. (Tradução: Vinicius Figueira).
[2] BARZUN, Jacques. apud McCALL, op. cit., p. ix. (Tradução: Vinicius Figueira). O texto de Barzun foi retirado de A little matter of sense (New York Times Book review – 21/06/87).
[3] Em uma simples visita a um site de uma universidade norte-americana (http:// raven.cc.ukans.edu/~zeke/bartleby/biblio.html), pôde-se colher mais de cinqüenta ensaios sobre Bartleby.
[4] Cf. McCALL, op. cit., p. x. (Tradução: Vinicius Figueira).
[5] Dada a possível  dificuldade de transposição do termo short story, como Bartleby é geralmente chamado em inglês, ou mesmo da presença da palavra tale no título do livro em que se insere a obra em questão, apela-se a uma definição de novela: “na novela, a ação desenvolve-se normalmente em ritmo rápido, de forma concentrada e tendendo para um desenlace único (…). Na novela, o tempo representa-se quase sempre de forma linear, sem desvios bruscos nem anacronias, assim acompanhando a relativa simplicidade da ação; na novela, o espaço surge, se não desqualificado, pelo menos desvanecido, em certa medida ofuscado por uma personagem que se caracteriza pela excepcionalidade, pela turbulência, pelo inusitado”. Cf. REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de narratologia. Coimbra: Almedina, 1987. p. 295.
[6] Cf. McCALL, op. cit., p. xi. (Tradução: Vinicius Figueira).
[7] Agradece-se à  Professora Margaret M. Dardis, da University of Iowa, a qual gentilmente enviou, por via eletrônica,  o texto de Maitland.
[8] Maitland, James A. The Lawyer’s Story: Or the Wrongs of the Orphans. (cópia eletrônica do texto original).
[9] Melville, op. cit., p. 29 e 41.
[10] Maitland, James A. The Lawyer’s Story: Or the Wrongs of the Orphans. (cópia eletrônica do texto original).
[11] Acompanhe-se mais um trecho da história de Maitland: “While employed by me, he had occasion, once or twice, to be at my private residence late in the evening; and on one occasion my wife, when he was present, happened to observe that she wished she knew of some smart, clever girl to assist in making up some children’s dresses, he modestly said that he believed his sister was perfectly competent to the task and would be most happy to embrace the opportunity, for they were both very poor, and found great difficulty in getting along. Maitland, James A. The Lawyer’s Story: Or the Wrongs of the Orphans. (cópia eletrônica do texto original).
[12] No diálogo acima trocaram-se as aspas por travessões a fim de adaptá-lo à norma brasileira — processo que se adotará ao longo do trabalho. Obteve-se o texto original no site da University of Kansas. Disponível em: <http://raven.cc.ukans.edu/~zeke/ bartleby/biblio.html>. Acesso em: 19 abr. 2001.
[13] O livro de Franklin chama-se The Wake of the Gods e foi publicado pela Stanford University Press em 1963. Encontra-se parte do livro no site, já citado na nota anterior, da University of Kansas.
[14] Eis o trecho: “Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me’. Então os justos lhe responderão: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver?’ Ao que lhes responderá o rei: ‘Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’.”
[15] McCALL, op. cit., p. 4. (Tradução: Vinicius Figueira).
[16] João 13, 34: “Dou-vos um mandamento novo: que vos amei uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”.  A citação aparece à página 49 em Bartleby.
[17] Marcos 14, 30: “Disse-lhe Jesus [a Pedro]: ‘Em verdade te digo que hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás’ ”.
[18] Melville, op. cit.,  p. 53-54.
[19] Franklin, Bruce apud McCALL, op. cit.,  p. 5. (Tradução: Vinicius Figueira).
[20] Deleuze, Gilles. Bartleby, ou a fórmula. In: ___. Crítica e clínica. São Paulo: 34, 1997. p. 80. Essa argumentação de Deleuze mereceu resposta de Costa Lima em Mímesis: desafio ao pensamento.  p. 331-347.
[21] Cf. FRANKLIN, Bruce.  Bartleby: The Ascetic’s Advent. In: ___. The Wake of the Gods: Melville’s Mythology. Disponível em: <Http:// raven.cc.ukans.edu/~zeke/ bartleby/biblio.html>. Acesso em: 19 abr. 2001.
[22] Emerson, Ralph W. apud McCALL, op. cit., p. 6-7. (Tradução: Vinicius Figueira). Eis o original: “It is a sign of our times, conspicuous to the coarsest observer, that many intelligent and religious persons withdraw themselves from the common labors and competitions of the market and the caucus, and betake themselves to a certain solitary and critical way of living, from which no solid fruit has yet appeared to justify their separation. They hold themselves aloof…. They are lonely; the spirit of their writing and conversation is lonely; they repel influences; they shun general society; they incline to shut themselves in their chamber in the house… to find their tasks and amusements in solitude. Society, to be sure, does not like this very well; it saith, Whoso goes to walk alone, accuses the whole world; he declares all to be unfit to be his companions”.
[23] Disponível em: <Http:// raven.cc.ukans.edu/~zeke/bartleby/biblio.html>. Acesso em: 19 abr. 2001.
[24] Melville, op. cit., p. 34.
[25] KAZIN, Alfred apud McCALL, op. cit., p. 74. (Tradução: Vinicius Figueira).
 [26] McCALL, University Press, op. cit., p. 76. (Tradução: Vinicius Figueira).
[27] HAWTHORNE, Nathaniel. The old apple-dealer. In: ____ . Tales and sketches. New York: Viking Press, 1982. p. 718. (Tradução: Vinicius Figueira).
[28] Idem, ibidem, p. 714-715.
[29] MELVILLE, op. cit., p. 29 e 42.
[30] Idem, ibidem, p. 34.
[31] HAWTHORNE, op. cit.,  p. 717 e 719.
[32] McCALL, op. cit., p. 95. (Tradução: Vinicius Figueira).
[33] Idem, ibidem, p. 100. (Tradução: Vinicius Figueira).
[34] Borges, Jorge Luis. Prólogos com um prólogo de prólogos. In: ____.  Obras Completas. Barcelona: Emecé, 1996. v. IV. p. 110. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos.
[35] Wilson, James C. Bartleby: The Walls of Wall Street. Disponível em: <Http:// raven.cc.ukans.edu/~zeke/bartleby/biblio.html>. Acesso em: 19 abr. 2001 (Tradução: Vinicius Figueira).
[36] McCall, op. cit., p. 108. (Tradução: Vinicius Figueira).
[37] Melville, op. cit., p. 32.
 [38] Idem, ibidem, p. 34.
[39] Wilson, James C. Bartleby: The Walls of Wall Street. Disponível em: <http:// raven.cc.ukans.edu/~zeke/bartleby/biblio.html>. Acesso em: 19 abr. 2001. (Tradução: Vinicius Figueira).
[40] FRANKLIN, Bruce apud McCALL, op. cit., p. 110. (Tradução: Vinicius Figueira).
[41] Idem, ibidem,  p. 111. (Tradução: Vinicius Figueira).
[42] Jauss, op. cit., p. 36.
[43] Wilson, James C. Bartleby: The Walls of Wall Street. Disponível em: <Http:// raven.cc.ukans.edu/~zeke/bartleby/biblio.html>. Acesso em: 19 abr. 2001. (Tradução: Vinicius Figueira).
[44] Reis, Carlos e Lopes, Ana Cristina M. Dicionário de narratologia. Coimbra: Almedina, 1987. p. 258. Ver Genette.
[45] Cf. Hillway, op. cit.,  p. 116. (Tradução: Vinicius Figueira).
[46] Idem, ibidem, p. 115. (Tradução: Vinicius Figueira).
[47] Melville, Herman. Bartleby. In: ___. The piazza tales. New York: Amereon House. s/d. p. 30-31.
[48] Idem, ibidem,  p. 22.
[49] Idem, ibidem, p. 23.
 
Foto de Melville: domínio público; Foto do grupo: Click Cultural (sem crédito de autor). 
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Vilém Flusser, “Fenomenologia do Brasileiro”: resenha rápida de uma leitura lenta

A noção de “repertório de ignorâncias”, que não sei a quem pertence, lembrando-me apenas de tê-la ouvido pela primeira vez na voz de um professor irônico, deve aplicar-se a todos nós, humanos.

Na realidade proposta neste mini-ensaio, título com o qual um grande amigo, bondoso, certa feita, fraternamente, rotulou meus textos, restrinjo-me a falar de apenas um componente que até bem pouco tempo fazia parte de meu repertório de ignorâncias. Sim, sempre haverá autores para as quais nunca abrimos os ouvidos ou ajustamos as sinapses. É claro que Flusser não chega a ser alguém ignorado no meio acadêmico brasileiro, mas do título deste mini-ensaio aposto que o leitor brasileiro mediano não apreende as três primeiras palavras. Não há esperança, mesmo, feliz ou infelizmente, que saibam o que é fenomenologia e nem muito menos o que significam os dois nomes próprios que a antecedem. Mas não nos desesperemos. Todos temos nosso repertório de ignorâncias e aqui venho eu purgar um pouco do meu.

É verdade que conto na estante de minha pequena biblioteca – já nem tão pequena assim, pois julgamo-nos, ingenuamente, eternos e com mais tempo para ler do que de fato dispomos – com “Língua e realidade”, do autor tcheco (sim, Flusser o era). Lembro-me de ter iniciado a leitura do livro há uns três ou quatro anos em lugar improvável. Na demorada sala de espera (ou leitura) de uma nutricionista (!), que, à época, freqüentava semanalmente, o que havia para ler eram Caras e Vejas. Tentei, então, naquela hora de espera semanal, durante cinco ou seis meses, sempre avançar um pouco no livro de Flusser. Não consegui. O ambiente não ajudava. E o livro ainda me espera, em meio a tantos outros.

Neste mês, contudo, um pouco envergonhado de manter autor de tal envergadura em meu repertório de ignorâncias, tomei iniciativa audaz e li (outro) livro dele: “Fenomenologia do Brasileiro”, traduzido, creio eu, pelo professor fluminense Gustavo Bernardo (não há crédito sobre a tradução). Há, diga-se, uma versão on-line, acessível a todos, divulgada pelo citado professor. Porém, não resisti, e comprei o livro em papel pela bagatela de R$ 19,00 (EdUERJ, 1998; na capa, famoso quadro de Tarsila do Amaral, que não capta integralmente o sentido da obra, mas é uma tentativa…).

No livro em papel, temos, além do próprio texto de Flusser, uma boa introdução de G. Bernardo, apontando entre outras coisas, para os conceitos de “redução fenomenológica” (épokhé) e, também, para a famosa “suspensão temporária da descrença”, de Coleridge. [Como antigo leitor de Teoria da Literatura, confesso que quase fui abrir meu exemplar da Biographia Literaria (capa dura, da Indypublish de Boston, cerca de 300 páginas, comprado por valor irrisório em sebo carioca), para cruzar informações, mas me contive, senão a leitura nunca acaba.] Enfim, para não tornar enfadonho este texto aqui, resumo em uma frase curtíssima o que teria a dizer: filosofia e literatura dialogam em nível profundo.

Volto ao livro de Flusser, ponto central deste mini-texto. Para usar uma imagem gasta e aproveitar o sentido do nome do autor: o livro é um rio a ser navegado várias vezes. Uma leitura só não me bastou, ao menos. Estou na segunda. Agora, valendo-me também das facilidades da edição on-line (que joguei para dentro de um editor de textos), faço uso de marcadores, corrijo pequenos defeitos de formatação e, acima de tudo, seleciono trechos que julgo interessantes e sobre os quais poderia discorrer longamente, tivesse tempo para tanto ou tivesse que dar aulas, como dantes.

Encontro, no livro, um misto de admiração e elegante desprezo pelo que é o Brasil. O olhar estrangeiro de Flusser, de um lado, despe-nos por completo. Estamos nus: índios que somos. De outro, veste-nos com a melhor das indumentárias, visando a nos colocar em meio aos mais nobres salões intelectuais do mundo ocidental ou “histórico” – para usar a terminologia do autor – como se representássemos uma centelha de esperança diante do desalento europeu. Não se trata de desprezo de parte de Flusser (ele não está trabalhando com a imagem de levar índios às côrtes européias), mas de esperança fidedigna de um autor que conhece bem o significado da palavra migrante, por ser ele próprio um, e que estuda bem o fenômeno da migração no verdadeiro melting pot que é esta terra (e não os Estados Unidos, como diz), constituída por homens de todos os cantos do mundo, para além das três raças tristes. Quem sabe o brasileiro teria algo a dizer que mudasse efetivamente o mundo? É essa a pergunta/esperança de Flusser.

Passados mais de vinte anos da produção do livro (Flusser morreu em 1991), talvez se possa dizer que já tenhamos dado o primeiro passo rumo ao abandono da obsolescência a que parecíamos estar condenados. Mas não pretendo aqui fazer leitura sociológica, econômica ou política que privilegie conexão com nosso estado atual de coisas, em que a situação do país, de fato, na esfera internacional, é, seguramente, a melhor dos últimos cinqüenta anos. Deixo tal tarefa aos mestres da economia, da sociologia e da ciência política, sempre dispostos a tudo explicar com aquela certeza que convence muito bem o público televisivo… Eu, curioso, restrinjo-me a outras perguntas: O que somos, importa? Estabilidade econômica eivada de ignorância, importa? Futebol, carnaval e cordialidade, sem estofo, sem conhecimento filosófico, importam? Maniqueísmo direita versus esquerda, e seus respectivos patrulhamentos, importam? Onde estamos hoje? Quem somos nós, brasileiros? O que podemos fazer efetivamente para este mundo que se abre diante de nós? Se começássemos todos pela leitura de Flusser, o segundo passo estaria dado.

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Cinco notas-resumo sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin

 

As notas-resumo abaixo são registros pessoais relativos à parte inicial do famoso texto de Benjamin. Espero que as diretrizes aqui delineadas sirvam como introdução ao texto e como estímulo a alunos preguiçosos que repetitivamente buscam na Internet “resumos” de tudo que deveriam ler integralmente. A essa espécie de aluno, digo: imprima estas anotações, desligue o computador, leia-as com atenção e, depois, vá ao original, isto é, à tradução. No caso das traduções brasileiras, recomendo a de Sérgio Paulo Rouanet (Walter Benjamin, Obras Escolhidas, Volume 1, Brasiliense, 1985), em detrimento da confusa tradução de José Lino Grünewald, popularizada na coleção “Os pensadores”, que me deu muita dor-de-cabeça quando a li pela primeira vez e continua a me dar até hoje. Sorry, Grünewald, requiescat in pace. As notas abaixo, contudo, contemplam ambas as traduções. Voltando ao texto de Benjamin: cinco ou seis horas de leitura serão o suficiente para anotar e resumir o texto decentemente e por conta própria. Pergunto-lhe: o que são cinco ou seis horas diante de uma vida toda mergulhada no erro, na ignorância?

I

Benjamin apresenta-nos um histórico da possibilidade de reprodução da obra de arte: Sempre se pôde reproduzir a obra de arte. A reprodução técnica da obra de arte é, contudo, um fenômeno novo. Os gregos só conheciam a fundição e a cunhagem, reproduzindo em série apenas os bronzes, as terracotas e as moedas. Com a xilogravura, conseguiu-se a reprodução do desenho. A tipografia introduziu imensas transformações na literatura. A litografia, no séc. XIX, permite pela primeira vez às artes gráficas não apenas entregar-se ao comércio das reproduções em série, mas produzir obras novas. A fotografia, por sua vez, viria a suplantar a litografia. A característica principal do processo fotográfico é, para Benjamin, a preponderância do olho sobre a mão, que foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, isto é, instaura-se o uso constante do olho, fixo sobre a objetiva, no lugar da mão: o olho apreende mais depressa do que a mão desenha – o processo de reprodução tornou-se muito mais rápido. A reprodução técnica da obra de arte atinge um nível tal que se impõe, ela própria, ironicamente, como forma original de arte.

II

Mesmo a mais perfeita reprodução das obras de arte carece da presença, do hic et nunc (aqui e agora) da obra de arte, de sua existência única, no lugar em que se encontra. É a essa presença que se vincula a história da obra, com as inúmeras transformações por que passa ao longo do tempo, seja pelo seu manuseio, seja pelos cuidados a elas dispensados por quem dela foi proprietário. Esse hic et nunc da obra é a sua autenticidade. Diante da reprodução feita pela mão do homem, em geral uma falsificação, o original mantém sua plena autoridade. O mesmo não ocorre com a reprodução técnica: a fotografia, por exemplo, pela ampliação da imagem, ressalta aspectos do original que escapam à visão natural, além de poder levar a cópia do original até o espectador. A catedral abandona seu lugar para instalar-se no estúdio de alguém, por exemplo. A orquestra pode ser ouvida em casa. Há, então, uma espécie de desvalorização do hic et nunc da obra de arte. A autenticidade de uma coisa é tudo aquilo que ela contém e é originalmente transmissível, desde sua duração material até seu poder de testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde.

O que se atinge, o que se atrofia, na reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua (da obra) aura. A reprodução transforma o evento antes produzido apenas uma vez em fenômeno de massa, serial, permitindo ao objeto reproduzido oferecer-se à visão e à audição em quaisquer circunstâncias, conferindo-lhe atualidade permanente. O cinema, expressão máxima da permanência e da massificação do objeto reproduzido tem um aspecto destrutivo e catártico, representando a liquidação do elemento tradicional dentro da herança ou patrimônio cultural.

III

Aura é “a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”. Observar, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho. Graças a essa definição, é fácil identificar os fatores sociais que condicionam o declínio atual da aura: as massas, para Benjamin, exigem que as coisas se lhe tornem tanto humanas quanto espacialmente mais próximas e, além disso, ao acolher as reproduções, depreciam o caráter daquilo que é dado apenas uma vez – há uma ânsia de reprodução, que visa a propiciar um domínio maior do objeto, uma necessidade irresistível de possuí-lo, de tão perto quanto possível, na sua cópia, na sua reprodução. As massas querem superar o caráter único de todos os fatos através de sua reprodutibilidade. A reprodução impressa de uma imagem artística (de uma escultura, por exemplo), visando à estandardização, despoja o objeto de sua aura.

IV

A unicidade de uma obra, isto é, sua qualidade única e exclusiva, é idêntica à sua integração na tradição cultural de uma dada sociedade. Tanto os gregos quanto os clérigos medievais apreciavam uma antiga estátua de Vênus pelo que ela encerrava de único, por sua aura, como objeto de culto e como ídolo maléfico, respectivamente. Tal apreciação se dava devido ao fato de que as obras de arte nasciam a serviço de um ritual, primeiro mágico, depois religioso. A perda da aura expressa a perda de qualquer vestígio da função ritualística, seja antiga, seja medieval, da obra – função essa que foi o suporte do valor utilitário da obra. Tal ligação (entre obra e função ritualística) ainda permanece, transformada ou secularizada, por exemplo, no culto dedicado à beleza das obras profanas da Renascença (em outras palavras, o valor único da obra de arte “autêntica” tem sempre um fundamento teológico, por mais remoto que seja). Com o advento da fotografia, os artistas passam a professar a “arte pela arte”, que é, no fundo, uma teologia da arte, uma arte pura que se recusa a desempenhar qualquer papel social e a submeter-se a qualquer determinação objetiva. A arte não é, então, nessa perspectiva, um meio, mas um fim em si. Com a reprodutibilidade técnica, há a emancipação da obra de arte de sua existência parasitária, imposta pelo papel ritualístico. A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida. As obras passam a ser reproduzidas constantemente, tendo sua aura e também sua autenticidade diluídas. No momento em que o critério da autenticidade, segundo Benjamin, deixa de aplicar-se à produção artística, toda função social da arte passa a fundar-se não mais no ritual, mas em uma nova forma de práxis: a política.

V

A obra pode ser considerada como objeto de culto (valor de culto) ou como realidade exibível (valor de exibição). A produção artística inicia-se mediante imagens que servem ao culto. O alce pintado nas cavernas pelo homem paleolítico consiste num instrumento de magia, só ocasionalmente exposto aos outros homens. O valor de culto quase obriga as obras a manterem-se secretas. Quando se emancipam do seu uso ritual, as obras de arte são mais freqüentemente exibidas, expostas. A possibilidade de as obras serem expostas, sua exponibilidade, ampliou-se muito com os vários métodos de reprodutibilidade técnica. A preponderância do valor de exibição confere à obra de arte novas funções. Assim como na pré-história a preponderância do valor de culto levou a obra a ser concebida em primeiro lugar como instrumento mágico, e só mais tarde como obra de arte, do mesmo modo a preponderância hoje conferida a seu valor de exposição atribui-lhe funções inteiramente novas, entre as quais a “artística” – a única de que temos consciência – talvez se revele mais tarde como secundária.

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Adeus a “Cerromaior”, de Manuel da Fonseca

Abaixo, as primeiras páginas de um ensaio mais longo sobre o romance “Cerromaior”, de Manuel da Fonseca. O livro é de 1943, o ensaio, de 1999. São coisas velhas, portanto. Publico-o, em grande parte, como divertimento pessoal. Eu era outro, o texto era outro. E isso há doze anos apenas… Outro assunto: Sei que muitos leitores portugueses acorrem a este site (ou sítio, como queiram), a fim de ler outro texto sobre literatura portuguesa aqui presente, centrado em Alberto Caeiro. Se forem ler este aqui, faço recomendação semelhante à que fiz no outro: não há o que copiar. Sejamos realistas: um professor brasileiro não terá nada a ensinar a povo tão sábio.

A primeira preocupação deste ensaio é a de inserir a obra analisada em seu contexto histórico. O trabalho literário, como sabemos, responde, à sua maneira, a uma situação social qualquer, buscando, de certa forma, refletir esta ou aquela posição e, a princípio, contribuindo para a formação de um discurso ideológico. No caso do Neo-realismo português não é diferente. De acordo com Maria Luíza Ritzel Remédios, para citar uma influência próxima, “propunha a literatura portuguesa dos anos 40 que a arte não era apenas um prazer estéril, mas servia a um proveito essencial do homem, contribuindo para o desenvolvimento da consciência e melhoria da ordem social” (REMÉDIOS, p.14). Reduzindo-se o foco à obra de um escritor apenas, Manuel da Fonseca, pode-se dizer que, segundo Carlos Reis, “sem esforço se reconhecerá [a obra de Fonseca] como duplamente coerente: em primeiro lugar, pela inequívoca vinculação às fundamentais coordenadas ideológicas do movimento neo-realista; em segundo lugar, pela consistência interna que [a] caracteriza”. É o diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa que ensina, em seu comentário abrangente — às vezes enfadonho — do movimento Neo-realista português, que os tipos presentes na obra de Manuel da Fonseca, todos eles provenientes do Alentejo, contribuem para a caracterização de um cenário de conflitos, tensões e de situações econômicas e sociais. “Antes de mais” — para usar uma expressão tão ao gosto do mesmo Carlos Reis, que, por explicar tudo de maneira tão onisciente, parece ser um semideus da literatura portuguesa, deixando-nos quase sem o que dizer (a menos que apelemos a um verso também português: “Arre, estou farto de semideuses!”) —, antes de mais, dizíamos, gostaríamos de ressaltar que é dele, do senhor Reis, a idéia de que “o tempo exerce importante papel na obra de Fonseca, um tempo atravessado pelo labor da memória e por impulsos de retorno à infância”.

Feitas essas considerações iniciais, partamos para uma análise menor, talvez mais baixa, e por isso de acordo, pensamos, com a obra em questão. Em primeiro lugar, pensamos que uma análise séria não pode supervalorizar nem subvalorizar a obra que se propõe estudar. Assim, apesar de agir com neutralidade, não tentaremos esconder o juízo que fazemos de Cerromaior, algo que pretendemos elucidar abaixo.

Comecemos pelo título: Cerromaior. É um nome próprio, e assim sendo, pode ser qualquer coisa. É justamente em nosso país, o Brasil, que encontramos essa criatividade de unir duas palavras, ou pedaços de duas palavras, para formar um terceiro nome próprio, fato que espantou Umberto Eco. Cada um nomeia seus filhos, ou obras, como deseja. Ficamos sabendo, contudo, pelo prefácio à obra, escrito pelo próprio Manuel da Fonseca, que o título “fora sugerido pelo cerro do castelo novo, novo de mil anos, entenda-se, que é o chão de Santiago, vila onde a minha experiência encontrara, e recriava agora, as personagens. … o cerro de Santiago é de todos o mais alto. Daí o título: Cerromaior” (FONSECA, p.9). O porquê da união das duas palavras, cerro e maior, em uma só fica então explicado de maneira singela.

Continua o autor à mesma página: “Vila [de] que me propus tratar, focando capítulo a capítulo, todas as camadas sociais”. Questionamos essa declaração. O que são todas as camadas sociais para o autor? Talvez seja um pouco excessivo dizer-se que todas as camadas sociais são contempladas, pois o que a obra verdadeiramente faz é reduzir o mundo a duas realidades, portanto, a duas camadas sociais apenas: a dos patrões e a dos empregados.

Tendo sido escrito em 1943, durante o regime fascista português, o livro é uma espécie de peça de resistência. Serve, por isso, a um intuito fundamental à época, que é o de denunciar, pelas vias da ficção, um estado de coisas refratário às liberdades civis. Basta dizer que o governo português “esteve associado à Alemanha nazista, fornecendo-lhes minerais e permitindo o uso de seus territórios para operações radiofônicas” (NETTO, p.72). O modo pelo qual denuncia é que parece problemático.

Vejamos o que diz Carlos Reis acerca de Cerromaior: “Cerromaior representando uma peculiar interação de elementos importantes à semântica da ficção, como são a personagem, o espaço e o tempo, configura-se como momento de transição, de amadurecimento das estratégias discursivas do movimento neo-realista” (REIS, p.535). Pensamos ser tal comentário inegável, ainda que também um tanto quanto óbvio. Toda obra literária interessa pela mesma peculiar interação de elementos, já que personagem, espaço e tempo estão obrigatoriamente presentes em qualquer narrativa. Desconhecemos obra em que não haja interação entre personagem, espaço e tempo. Não conseguimos, por isso, apreender a real dimensão do comentário do mestre português, talvez uma tentativa de supervalorização do trabalho de Fonseca. Ainda à mesma página, diz-nos Reis que “seu título parece conferir ao espaço uma certa proeminência”. O título, então, demarca um território de “maioridade”. Do castelo se tem uma visão completa da vida do vilarejo, e é nesse castelo que habita o herói da história, Adriano. Perguntamo-nos, e disso Reis se esqueceu, em que medida a escolha do nome Adriano tem alguma relação, ainda que inversa, com o imperador romano, adotado por seu primo Trajano, que, ao morrer, lhe deixou o trono. O imperador romano construiu obras de importância e numerosos monumentos, embelezou Roma e seus arredores e — algo talvez importante à análise de cunho mimético — corrigiu abusos, suavizou a sorte dos escravos, moderou a perseguição aos cristãos. Será que o Adriano ficcional também não fez coisa semelhante aos camponeses, guardadas as devidas proporções?

Se voltarmos à organização da história — faremos agora um acompanhamento capítulo por capítulo da obra de Fonseca —, verificaremos que esta (a história) começa por um capítulo in media res. Nesse primeiro capítulo interagem principalmente duas personagens: Doninha e Adriano. Ambos encontram-se na cadeia, como prisioneiros. Há, contudo, uma hierarquia entre os dois, segundo a qual ficamos sabendo que Doninha agoniza, ao passo que Adriano tem liberdade para circular pelo presídio: “Era o único preso que tinha licença de andar pela cadeia” (FONSECA, p.24). Da janela, Adriano observa a rua, avista o amanuense Abílio Rocha e “sem que forçasse a memória, embalado pela voz de Abílio Rocha, Adriano foi recuando no tempo”. Instaura-se, portanto, uma analepse. Esse recuo, leva ao capítulo 2, no qual está dito ser de um ano o intervalo temporal entre o acontecido e o narrado. As personagens da família de Adriano são aqui introduzidas. Sabemos que Adriano ficara órfão e que as dívidas de seu pai haviam sido assumidas pelo tio, que passava a controlar a casa do herói (Adriano). Os custos referentes aos estudos de Adriano são cortados. Os filhos desse tio — primos de Adriano, portanto — começam a desfrutar de um poder sobre a propriedade da família. Configura-se então uma situação economicamente desfavorável a Adriano, ou seja, ele não tem poder para governar o que herdara, fato que produz (nele) uma individualidade arredia e isolada do mundo social circundante. Até mesmo a paixão pela prima Lena começa a lhe causar enfado. Adriano não tem profissão nem amor por mulher nenhuma. Articula-se então, em Adriano, a personalidade de um homem insatisfeito com o que o cerca e que, por isso, busca realizar-se pela interação com indivíduos economicamente inferiores e pertencentes a outro estrato social, cuja aptidão maior, para efeitos de trama, é a de provocar em Adriano o perfil de uma espécie de líder camponês. Ele se torna um elo entre duas realidades, uma espécie de salvador, comovido pela situação dramática por que passam os ceifeiros. História: “quanto aos assalariados rurais do Alentejo, a sua combatividade teceu uma larga teia de heroísmo” (NETTO, p. 23). Perguntamos: será que a cooptação de Adriano é realmente necessária? Será necessária a presença de um líder vindo da pequeno-burguesia? […]

BIBLIOGRAFIA

FONSECA, Manuel da. Cerromaior. Lisboa: Caminho, 1981.
NETTO, José Paulo. Portugal: do fascismo à revolução. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.
REIS, Carlos. O discurso ideológico do neo-realismo português. Coimbra: Almedina, 1983.
REMÉDIOS, Maria Luíza Ritzel. O romance português contemporâneo. Santa Maria: edições UFSM, 1986.
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O sintético caráter de Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere”

Uma leitura tardia – atrasada, portanto – que decidi fazer foi a de “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos. É lugar-comum considerar o autor alagoano mestre. Os períodos curtos, a concisão são características suas, sempre almejadas. Graciliano é o escritor do corte, da supressão. Nada pode ser melhor do que a clareza em poucas palavras, que, por isso, carregam-se de sentido, sentido quase-poético. A história factual do livro em questão todos conhecem. Portanto, não me atenho preferencialmente a ela. Também não exploro o livro em sua integridade, uma vez que não o finalizei e nem disponho de espaço para isso; restrinjo-me ao primeiro volume, intitulado “Viagens” e, neste, ao que o autor fala sobre, digamos, a arte de escrever e a natureza humana. Vejamos uma primeira citação:

“Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.” [ p. 21]

Vemos aqui, em poucas palavras, a confirmação de que nem sempre liberdade e bom trabalho literário combinam. A restrição temporal, a intolerância política e o espaço exíguo não são empecilhos absolutos. Outro aspecto importante do trecho é a analogia entre a gramática e o DOPS. Obviamente, nessa analogia, observa-se alguma diferença: os limites impostos pela sintaxe são limites respeitados voluntariamente pelo escritor, ao contrário dos limites políticos, verdadeiramente arbitrários.

A seguir, mais um trecho. Este relativo ao aspecto maquinal (e reduzido) do trabalho do escritor, bem como à necessidade de sobreviver (e de sustentar a família). Nesse contexto, justifica-se o lidar com textos alheios, quase sempre mal escritos. O citado aviltamento (o “acanalhar-se”)  é, sem dúvida, proveniente da constatação de que é preciso vender o que bem se sabe fazer. Rebaixamento do poeta.

“E como outros espíritos miúdos dependiam de nós, e era preciso calçá-los, vesti-los, alimentá-los, mandá-los ouvir cantigas e decorar feitos patrióticos, abandonamos as tarefas de longo prazo, caímos na labuta diária, contando linhas, fabricamos artigos, sapecamos traduções, consertamos engulhando produtos alheios. De alguma forma nos acanalhamos.” [p. 22]

Depois, então, o reconhecimento da própria insignificância, uma característica do trabalho do gênio, que, sempre crítico do que faz, se julga pequeno. A dificuldade de utilizar a primeira pessoa, para não passar de seu “tamanho ordinário”…  Encolher-se diante de quem realmente merece patentear-se (fina ironia). Tudo em nome de humildade digna, com uma pitada de desprezo.

“Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem; fala um sujeito mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adotar o pronomezinho irritante, embora se façam malabarismos por evitá-lo. Desculpo-me alegando que ele me facilita a narração. Além disso não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário. Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei às discussões, esconder-me-ei prudente por detrás dos que merecem patentear-se.” [p.24]

Ao discorrer sobre o romance Angústia diz:

“Certas passagens desse livro não me descontentavam, mas era preciso refazê-lo, suprimir repetições inúteis, eliminar pelo menos um terço dele. Necessário meter-me no interior, passar meses trancado, riscando linhas, condensando observações espalhadas.” [p. 27]

E:

“A cadeia era o único lugar que me proporcionaria o mínimo de tranqüilidade necessária para corrigir o livro.” [ p. 31]

Está clara, na primeira dessas duas passagens, a vocação ao corte, à supressão. Na segunda, a resignação à cadeia, a tentativa de adaptação rápida à nova realidade, sem prejuízo do trabalho de escritor. Contudo esse trabalho teria seus percalços:

“Sempre compusera lentamente: sucedia-me ficar diante da folha muitas horas, sem conseguir desvanecer a treva mental, buscando em vão agarrar algumas idéias, limpá-las, vesti-las; agora tudo piorava, findara até esse desejo de torturar-me para arrancar do interior nebuloso meia dúzia de linhas. Sentia-me indiferente e murcho, incapaz de vencer uma preguiça enorme subitamente aparecida, a considerar baldos todos os esforços.” [p. 74]

Aliada ao trabalho, uma primeira e firme concepção sobre a natureza humana:

“Não supunha os homens bons nem maus: julgava-os sofríveis, pouco mais ou menos razoáveis, naturalmente escravos dos seus interesses. Sem dúvida: uma razão miúda, variável com as circunstâncias e o egoísmo natural: dormir, comer, amar, reproduzir-se; um pouco acima disto, avaliar quadros e livros, inspirar respeito, mandar.” [p. 83]

E uma segunda, mais sintética:

“Lá fora comportava-me automaticamente. A repartição, o despacho, o bonde, o horário, conversas bestas com indivíduos que se mexiam como se fossem puxados a cordões.” [p. 116]

No último trecho, a crítica ao homem-títere. No trecho anterior, os bretes a que estamos — todos — submetidos como homens. Dessas concepções, da profunda consciência do caráter dos homens, Graciliano faz sua literatura. E algumas animálias ainda acham que literatura é diversão.

Fonte: Ramos, Graciliano. Memórias do cárcere. Círculo do Livro (sob licença da Record), 1981.

Foto de Graciliano: Kurt Klagsbrunn

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Breve nota sobre “A teoria do romance”, de Lukács

 

 

Em época de Natal, lembrança de um tempo de perfeição…

A teoria do romance

1. Culturas fechadas 

Nesta primeira parte de A teoria do romance, Lukács faz uso de uma linguagem um tanto quanto intrincada, às vezes lírica, para explicar ao leitor aquilo que chama de culturas fechadas. A começar pelas três primeiras linhas do livro, já se tem uma idéia de seu cunho abstrato : ”Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina” (p. 25). A princípio, não se sabe que tempos afortunados são esses, a não ser pela insinuação de que são tempos em que há uma grande integração, ou uma grande unidade, entre o sujeito e o objeto, entre o eu e o mundo. A seguir, Lukács explica que os tempos afortunados são aqueles que não têm filosofia (p. 26) e que a era em que não há nenhuma alteridade para a alma é a era da epopéia. Nesse período, o da epopéia, mais exatamente o da poesia épica de Homero, “ser e destino, aventura e perfeição, vida e essência são conceitos idênticos” (p. 26/27). À totalidade do mundo épico grego, Lukács contrapõe a dissipação do mundo da filosofia — mundo este movido pela produtividade do espírito, pela dissociação entre o eu e o mundo, pela ascensão da coerção imposta pelas formas (no sentido platônico) — que, então, estava nascendo e que, de certa forma,  sobrevive até a modernidade. Em outras palavras, Lukács afirma que “da absoluta imanência à vida, em Homero, passamos à absoluta, porém tangível e palpável, transcendência em Platão” (p. 31).

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Wolfgang Iser – O processo da leitura

Wolfgang Iser (1926-2007)

Esta tradução tem dez anos, e, como já não sei mais onde está o original (um dia o acho em meio a meus arquivos), publico-a sem dar garantia de acerto ou de extremo capricho na revisão. Trata-se, na verdade, de uma tradução de um texto em inglês de autoria do alemão Wolfgang Iser. Optei por apresentar apenas as duas primeiras páginas do texto, que tem um total de 25, na expectativa de não infringir direitos autorais. Espero, na verdade, que o texto sirva como estímulo ao conhecimento da obra do teórico alemão em língua portuguesa. Ressalto que o trabalho de tradução foi feito a pedido da professora Maria da Glória Bordini. Resolvi postá-lo ao deparar-me há pouco – em meio à leitura da tradução de José Paulo Paes para o Tristram Shandy, de Sterne – com o trecho do autor irlandês citado por Iser.

 

Wolfgang Iser

O Processo da Leitura: Uma abordagem fenomenológica

Tradução: Vinicius Figueira

I

A teoria fenomenológica da arte confere plena ênfase à idéia de que, ao se considerar uma obra literária, deve-se levar em conta não só o texto em si, mas também, e em igual medida, as ações envolvidas na resposta a ele. Dessa forma, Roman Ingarden (1) confronta a estrutura do texto literário com os modos nos quais pode ser konkretisiert (concretizado). O texto, como tal, oferece diferentes “aspectos esquematizados” através dos quais o tema da obra pode vir à luz, mas o verdadeiro trazer a luz é um ato de konkretisation (2). Se assim é, a obra literária tem, então, dois pólos: um dos quais poderíamos denominar artístico (referente ao texto criado pelo autor), e outro, que chamaríamos de estético (referente à concretização realizada pelo leitor). Dessa polaridade segue-se que a obra literária não deve ser completamente idêntica ao texto nem à sua concretização, mas, isto sim, estar a meio caminho dessas duas possibilidades. A obra é mais do que o texto, pois este só adquire vida quando é concretizado, e, além disso, a concretização não é, de forma alguma, independente da disposição individual do leitor – embora seja influenciada pelos diferentes padrões do texto. A convergência entre o texto e o leitor traz a obra literária à existência. Tal convergência jamais pode ser precisamente localizada, mas sim permanecer sempre virtual, já que não deve ser identificada com a realidade do texto ou com a disposição individual do leitor.

É a virtualidade da obra que dá origem à sua natureza dinâmica, o que, por sua vez, é pré-condição para os efeitos que a obra suscita. À medida que o leitor faz uso das várias perspectivas que o texto oferece para relacionar os padrões aos “aspectos” e vice-versa, coloca a obra em movimento. É esse processo que resulta, em última análise, no despertar de reações de parte do leitor. Assim, a leitura faz com que a obra literária revele seu caráter inerentemente dinâmico. Que isso não é uma descoberta nova fica evidente a partir de referências feitas já nos primórdios do romance. Laurence Sterne observa em Tristram Shandy:

Nenhum autor que compreenda as justas fronteiras do decoro e da boa educação presumirá conhecer tudo. O respeito mais verdadeiro que podeis demonstrar pelo entendimento do leitor será dividir amigavelmente a tarefa com ele, deixando-o imaginar, por sua vez, tanto quanto imaginais vós mesmo. De minha parte, estou-lhe continuamente fazendo cortesias dessa espécie e empenhando-me o quanto posso em manter-lhe a imaginação tão ocupada quanto a minha própria. (3)

A concepção de Sterne acerca do texto literário é a de algo como uma arena em que o leitor e o autor participam de um jogo de imaginação. Se ao leitor fosse dada a história toda, e não lhe fosse deixado nada a fazer, sua imaginação nunca entraria em campo e o resultado seria o tédio que inevitavelmente surge quando tudo já está predeterminado. O texto literário deve, portanto, ser concebido de tal forma que envolva a imaginação do leitor na tarefa de resolver as coisas por conta própria, pois a leitura só é um prazer quando é ativa e criativa. Desse processo de criatividade o texto pode ou não ficar muito distante, o que nos permite dizer que o tédio e a tensão exagerada formam limites, que, se transpostos, farão com que o leitor abandone o campo de jogo.

Virginia Woolf, em seu estudo de Jane Austen, revela-nos o quanto a parte “não escrita” do texto estimula a participação criativa do leitor:

Jane Austen é, pois, uma senhora de emoção muito mais profunda do que aparenta. Estimula-nos a completar o que não está explícito. O que oferece é, aparentemente, insignificante, porém composto de algo que se expande na mente do leitor e que dota da mais duradoura forma de vida cenas que parecem triviais. É sempre o caráter que é enfatizado. As voltas e reviravoltas do diálogo nos mantêm sob o domínio do suspense. Nossa atenção divide-se entre o momento presente e o futuro. Aqui, efetivamente, nesta falta de acabamento e na inferioridade da história principal, estão todos os elementos da grandeza de Jane Austen. (4)

Os aspectos não escritos de cenas aparentemente triviais, bem como o diálogo velado presente nas “voltas e reviravoltas” não apenas atraem o leitor para a ação, mas também o levam a dar abrigo aos múltiplos delineamentos sugeridos pelas situações dadas, de modo que esses revestem-se de uma realidade própria. Porém, à medida que a imaginação do leitor anima esses delineamentos, eles, em contrapartida, influenciarão o efeito da parte escrita do texto. Assim começa todo um processo dinâmico: o texto escrito impõe certos limites a suas implicações não escritas, a fim de impedi-las de se tornarem obscurecidas e vagas, mas, ao mesmo tempo, tais implicações, resultantes da imaginação do leitor, colocam a situação dada contra um pano de fundo que a dota de uma significação muito maior do que aquela que poderia ter parecido possuir. Dessa forma, cenas triviais repentinamente tomam a forma de um “duradouro modo de vida”. O que constitui esse modo de vida jamais nos é dito, nem, muito menos, explicado no texto, embora seja, na verdade, o produto final da interação entre texto e leitor.

Notas
1. Cf. INGARDEN, Roman. Vom Erkennen des literarischen Kunstwerks. Tübingen, 1968, pp. 49 ss.
2. Para uma discussão detalhada desse termo, ver INGARDEN, Roman. Das literarische Kunstwerk. Tübingen, 1960, pp. 270 ss.
3. STERNE, Laurence. Tristram Shandy. London, 1956, p.79. Tradução de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 136.
4. WOOLF, Virginia. The Common Reader. First Series: London, 1957, p. 174.
 
 
 
 

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/poema

 

Noite de finados

Noite longa.

Um sonho demorado com dois que se foram.

Sonho falso,

e é só.

Estou só:

foram-se.

 
Poema de finados, escrito em memória de meus pais. A foto é uma composição feita com imagens de sósias de ambos, encontradas ao acaso na Internet. Texto já publicado em outro site, em julho de 2006.
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De volta às “Memórias do Coronel Falcão”

 

Prezados leitores: apresento uma resenha já antiga, escrita na década de 1990, sobre livro mais antigo ainda. Antes que a gaveta a engolisse, retoquei-a, para publicação curta, como esta. É claro que cortei algumas coisas e retirei algumas ingenuidades. Inseri, também, uma ironiazinha aqui e um debochezinho acolá. Tudo sem menoscabar ninguém, a não ser a mim mesmo.

 

O livro Memórias do Coronel Falcão, de Aureliano de Figueiredo Pinto, escrito em 1937 e publicado apenas trinta e seis anos depois, em 1973, é uma incursão pelo universo gaúcho das três  primeiras décadas do século XX. A personagem principal, o coronel Falcão, é um estancieiro levado ao poder em seu município. Em torno da mudança de seu status, de homem do campo a administrador público, é que o romance se desenrola.

Falcão, homem solteiro e sem filhos, vive, antes de tornar-se homem público, de maneira tranqüila e à margem da política, governando apenas quem para ele trabalha, em sua estância. Seu espaço é o do proprietário de terras que produz ao seu redor um mundo particular em que reina absoluto. Tal mundo, na verdade, reproduz – e aí vai um protótipo – o isolamento e a introspectividade do estancieiro gaúcho, cujas aspirações estão voltadas basicamente à proteção da família e daqueles que lhe são caros. Falcão, contudo, não possui família, e, se está a proteger alguém, esse alguém é ele próprio. A essa espécie de senhor das terras não interessa o que se passa além de suas cercas. O arame farpado demarca não só os limites de sua propriedade, mas também os limites de sua personalidade, de seu espírito – se quiserem. O homem enclausurado em seus domínios, feito um semideus, será, porém, forçado a agir.

As forças políticas e, queira-se ou não, humanas, comandadas pela mão de um narrador onipresente e onisciente, a falar-nos naquela primeira pessoa indicativa de ubiqüidade (escolha, talvez, de um autor também onipresente em flagrante mea culpa, de cujas garras o leitor custa a se libertar), exigem que Falcão abra seus horizontes para além da estância. Na verdade,  o poder político e o amor  reclamam essa simbiose do “semideus” do pampa com o universo que o cerca. Ocorre, portanto, a invasão do pequeno e fechado mundo de Falcão em duas instâncias: pelos apelos políticos de uma sociedade em busca de um líder — torna-se intendente do município, aprovado inclusive por Borges de Medeiros, chefe supremo, muito ironizado ao longo do romance — e pelo surgimento de uma mulher, ou melhor, amante, que paralelamente conferirá certo clima romântico à narrativa.

A política e o amor serão, assim, responsáveis pela degradação do herói do pampa. Perdido em um ambiente hipócrita em que as ações estão carregadas de duplas possibilidades — o ambiente político — e afetado por um adultério só a muito custo consumado, Falcão ingressa em um mundo que poderíamos chamar — se levarmos em conta o caráter do personagem — de “impuro”. O mundo anterior,  o mundo da estância, nessa lógica — e se me permitir o leitor desta resenhazinha — seria ou restaria como mundo puro. A pureza, portanto, representaria o Falcão pré-político, o Falcão sem esposa, ou amante, e vida social. Já a impureza estaria associada ao Falcão público, ou seja, ao homem em contato ativo com o meio em que vive, para além de sua propriedade, para além de si mesmo.

 (Pausa para o clichê: Se quiséssemos fazer uso da oposição “regional x universal” nesta análise, o regional constituir-se-ia não só pelos elementos típicos do espaço gaúcho, como a estância, o pampa, o cavalo, mas também pela ausência de vida social mais ampla, pela ausência da inserção do homem em um Estado, ou em um País — ausência que, por sua vez, representaria o universal, o diálogo com  mundo, com seus inerentes males à formação original e, digamos, imaculada, do caráter da personagem.)

O mundo “impuro”, em que o coronel inicialmente desfruta do poder que lhe havia sido concedido, tem, no entanto, curta duração. A conquista da mulher, Stelita, também. A classe que governa o Estado quer, na verdade,  dividir o poder dos estancieiros  e com eles joga, dando-lhes e retirando-lhes o poder, de acordo com suas conveniências. Stelita, a amante, constitui, em um mundo ainda conservador, um objetivo inalcançável a Falcão pela dificuldade que a quebra do matrimônio (dela) representa. O coronel é, então, mesmo que ainda sem o saber, violado em seus princípios por essas duas  circunstâncias: a política e o amor. Logo a seguir, essas duas novas realidades provam ser realmente deletérias e desencadeiam um processo de degeneração, em que a ausência da mulher, as dívidas, a perda de patrimônio, a entrega da fazenda aos credores e a destituição do mandato são os elementos principais. A “impureza” está consumada.

O coronel percebe, então, que abandonou seu mundo em troca de uma quimera [para um estudo aprofundado de peripécias, nós, catarses e otras cositas más, que são tão boas — se é que me entendem —, ver a esquecida Poética de Aristóteles, tradução de Eudoro de Souza. Eu a lia inteira, em voz alta, com meus alunos, examinando o texto em si e as notas do tradutor. Ninguém reclamava. Pelo contrário…]. Voltando ao Falcão: Tanto o poder político quanto o amor que possuía eram embustes. Sente a necessidade de reconstruir-se. Resta-lhe somente a possibilidade de comandar um rancho que outrora presenteara a um peão, afilhado seu. Na pequena propriedade que o peão, compadecido, devolve-lhe, Falcão restabelece seu equilíbrio e lentamente começa a readquirir seu poder. No rancho tentará a volta à pureza do mundo que perdera.

A volta ao campo e a obrigação de buscar o próprio sustento representam o retorno à essência [ai!] de um personagem irremediavelmente ligado à terra. Feita a síntese, a passagem pelo mundo externo ao campo, Falcão estava pronto para retornar. O retorno, ainda que por um caminho diferente daquele por que partiu, devolve-lhe seu mundo original e instaura um novo tipo de poder. Esse poder, que é de outra natureza, diferente dos outros por ele experimentados, pois não é o poder do grande estancieiro nem tampouco o do político, constitui um novo coronel Falcão, autóctone, mas voltado ao mundo exterior. Um homem sintético, enfim.

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Ainda se estuda “A estrutura do texto artístico”, de Iuri Lotman?

 

Abaixo, uma anotação que fiz, ao final do século passado, sobre um capítulo de livro do já esquecido – creio eu – Iuri Lotman. Em tempo: espero terminar a análise do poema de Drummond, começada no mês passado e ainda incompleta. Um dia, terei mais tempo; um dia, suplantarei a máquina. Enquanto isso, restrinjo-me a um o tempora, o mores resignado.

 

 Em tom epistemológico, Lotman começa o capítulo intitulado Os elementos e os níveis da paradigmática do texto artístico, parte do livro A estrutura do texto artístico [Lisboa: Editorial Estampa, 1978], pela constatação de que na teoria da literatura se admite correntemente (isto é, à época da escritura do texto) a afirmação de que o discurso vulgar – ou cotidiano – dos homens e o discurso em prosa são a mesma coisa, fato que tem como conseqüência inferir-se que a prosa, em relação à poesia, é dominante, já que está mais próxima da linguagem cotidiana. Segundo Tomachevsky – argumenta Lotman –, a forma natural do discurso humano é a prosa. Sendo assim, o discurso em verso está em um plano secundário, estruturalmente mais complexo do que o da prosa.

Lotman, na verdade, refuta esse raciocínio que defende ser a prosa artística a expressão de uma forma de partida, coincidente com o discurso falado não-artístico (ou do cotidiano). Isso porque, para ele, foi o discurso em verso, e não a prosa, o primeiro discurso da arte verbal.  E acrescenta: a poesia  é uma dissimulação da linguagem e, portanto, algo distinto do discurso vulgar. A maneira pela qual assimilamos a poesia acontece a partir do material “dissimilado”, a partir do qual se cria um quadro do real.

Assim, podemos antever, em Lotman, duas preocupações fundamentais: a compreensão diacrônica (histórica) do texto artístico ou literário e o estabelecimento das diferenças formais que configuram os dois gêneros que hoje conhecemos como prosa e poesia. Entre essas duas preocupações é que Iuri Lotman elabora sua teoria.

O efeito artístico do processo que leva um autor a criar um determinado tipo de texto em uma determinada época, afirma Lotman, é sempre uma relação: relação do texto com a expectativa do leitor, com as normas estéticas de uma época, os estereótipos próprios do tema ou das leis dos gêneros. A enumeração pura e simples dos processos nada oferecerá para a sua compreensão, já que na medida em que um mesmo elemento material do texto entra nas diversas estruturas de um todo adquire inevitavelmente um sentido diferente. Isso se verifica, por exemplo, nos chamados processos-menos (que são sistemas de recusas conseqüentes e conscientes sentidas pelo leitor). Em outras palavras, há em toda forma uma recusa consciente daquilo que já foi, digamos, deglutido por um movimento ou escola anterior (o exemplo dado é um poema de Pushkin, cuja ausência de epítetos, metáforas, rimas, ritmo acentuado renega o seu oposto: a presença dessa mesmas características, que encontrávamos no movimento literário anterior).

Aprofundando a questão referente à poesia como forma, Lotman afirma que a ausência de rima em um verso que não supõe a possibilidade da existência da rima, ou seja, que dela não necessita, como, por exemplo, a poesia antiga, o verso das bilinas russas (que são representações populares medievais) é diferente da ausência de rima em um verso que já a recusa (por exemplo, o verso livre contemporâneo). Ou seja: na citada poesia antiga a ausência de rima não é um elemento artisticamente significativo, ao passo que no verso livre contemporâneo essa mesma ausência é presença de não-rima, presença de rima-menos. Daí conclui-se que todo processo acontece em função de um processo anterior.

Preocupado com o aspecto formal do texto artístico e, mais precisamente, voltando a considerar a possibilidade de o discurso artístico estar próximo ou distante do discurso do cotidiano, Lotman diz que a idéia de que a semelhança com uma realidade não-artística constitua o valor ou mesmo a condição da arte é um fenômeno recente. Tal maneira de pensar tem subjacente a ela, como sabemos, a necessidade de estabelecer as fronteiras entre a prosa e a poesia e de compreender como essa distinção se deu ao longo do tempo. Nas etapas iniciais, é justamente a diferença entre a arte e as esferas do cotidiano que fazia perceber o texto esteticamente: isso implicava, obviamente, privar a linguagem da sua similitude com o discurso vulgar. Só o movimento ulterior da arte a fará voltar para a prosa, introduzindo-se os prosaísmos, a licença poética na poesia e na prosa etc. Institui-se uma simplicidade pensada, qualificada: a evolução pode ser percebida como simplificação, quando é na verdade, uma negação do que vigorava anteriormente e uma busca do que já havia mais anteriormente ainda.  Se pensarmos exclusivamente na poesia, tal processo poderia ser assim esquematizado: De três momentos A (não-rima), B (rima), C (não-rima), o momento C seria um retorno a A, mas um retorno cuja característica principal não é a originalidade, mas a imitação consciente e inovadora. O suposto refinamento que a rima representa passa a ser questionado, e então é a não-rima que carrega a marca do refinamento.

A oposição prosa/poesia é a expressão da oposição não-arte/arte, ou seja, em dados momentos se está ou mais próximo (prosa?, poesia?), ou mais distante (poesia?, prosa?), da não-arte.

A prosaicização da cultura artística afirma, por um lado, a autoridade da não-arte (da realidade, da vida cotidiana, do documento), e, por outro, em forte dialética, institui como norma a reprodução da vida pelos meios da arte  [p. 177]. Mesmo um documento transposto em prosa artística recebe do contexto a marca de um caráter elaborado e torna-se uma reprodução de si mesmo. Por isso, o discurso artístico não é idêntico à prosa não-artística (ao discurso  do cotidiano), mas relaciona-se com ela, por meio de um filtro, de um código, de uma forma, enfim — como uma reprodução se relaciona com o seu objeto.

O discurso oral distingue-se de um modo radical do discurso escrito. A reprodução do discurso oral na literatura artística constrói-se segundo as leis do discurso escrito, ou seja, altera-se devido à injunção  da forma. Em outras palavras, o discurso oral pode penetrar muito profundamente no tecido da narração do século XX, mas não pode suplantar as estruturas escritas, pelo fato de o texto artístico não ser o discurso oral, mas a sua reprodução escrita. Mesmo quando não se trata das formas escritas da arte verbal, o discurso oral – da improvisação do cantor folclórico ao discurso cênico – constrói-se na base de uma variante normalizada e plena (que é o texto escrito).

A oposição prosa/poesia, conclui Lotman, é uma oposição centrada na sucessão e na negação entre os dois sistemas. Sendo dependentes um do outro, ou melhor, um necessitando do outro para se afirmar, não faz muito sentido pregar uma diferença absoluta: considerar a poesia e a prosa como construções independentes, isoladas uma da outra e que podem ser descritas sem correlação recíproca levará inesperadamente à impossibilidade de delimitar esses fenômenos [p. 182]. Somente recorrendo-se às formas mais típicas é que podemos, segundo Tomachevsky, perceber a diferença entre poesia e prosa. Não concordando integralmente com essa distinção legitimada por uma divisão estanque, Lotman busca compreender o problema em uma escala mais ampla, dialética. Para provarmos que um verso livre é efetivamente verso, precisamos recorrer a elementos extratextuais (a parte extratextual da estrutura artística constitui um componente perfeitamente real – por vezes muito significativo – do todo artístico [p. 186]), bem como atentarmos à construção gráfica. Além de variarem ao longo do tempo, “as ligações extratextuais têm um caráter muito subjetivo, que vai até ao individual-pessoal, que não cede por assim dizer à análise pelos meios atuais da ciência literária. Mas elas possuem também o seu conteúdo regular, histórica e socialmente condicionado e na sua totalidade estrutural podem perfeitamente ser objeto de estudo” [p. 186].

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“ ‘A máquina do mundo’ de Drummond” rediviva

Escrevo também para incautos. Por isso, alerto: o que está entre aspas simples, acima, é título de um poema. O que está entre aspas duplas é título de um ensaio de Merquior. O adjetivo que acrescento ao título do ensaio deste, por sua vez, é explicação sintética do meu interesse pela obra de um e de outro. Além disso, faz pouco, em 7 de agosto, Antonio Cicero escreveu texto sobre o poema na Folha de São Paulo, publicando-o também em seu site.

Jamais havia lido “A máquina do mundo” com perspicácia antes de ler o ensaio de Merquior (escrito originalmente em 1965, e publicado no livro “Razão do poema” [Topbooks, 1996]). Parecia-me um poema longo demais, com aqueles tercetos sinuosos, que se estendiam por linhas e linhas até chegar ao ponto, até fechar um período. Caía sobre mim a escuridão da preguiça, mais do que a escuridão reveladora de que trata o poeta. Além disso, mente sintática, eu não me deixava levar por aqueles enjambements. Sim: não cavalgava. Era mais uma cavalgadura, como são, aliás, os leitores de hoje. E de ontem. Um dia, porém, o crítico vem e nos dá as rédeas e a sela. Dá-nos até um chicote. E a mutação ocorre.

O papel do crítico, não os críticos dos jornais de hoje, que já nem os há (A. Cicero, uma exceção), é também o de esclarecer, o de dialogar com o leitor da fonte primária, da obra analisada. Para o leitor de poemas, isso é fundamental. É claro que não me refiro ao leitor mediano de poemas, que busca na poesia o belo fácil e digerível. Não me refiro ao leitor que busca flores, passarinhos, estrelas e alegria fácil, que confunde poesia com diversão de domingo. Refiro-me, sim, ao leitor que na poesia vê e compreende o acesso ao conhecimento que ela proporciona. A palavra certa, não descartável. O encadeamento lógico. Não (só) o folguedo, mas a seriedade. Sobre o poema de Drummond, sobre o poeta Drummond, deve bastar, como síntese que sustenta esse meu breve argumento, um trecho da crítica de Merquior: “[…] fugidio poeta cuja meditação sobre a existência resume dolorida a forte inclinação para o nada, para a fria quietude de uma terra nua e deserta”. Não há, repito, em “A máquina do mundo”, flores ou passarinhos, não há estrelas ou beijinhos. Não há sorriso fácil. Não há, tampouco, interesse pelos fatos do cotidiano (“Les événements m’ennuient”, epígrafe de Valéry, não por acaso está em “Claro Enigma”, livro em que se insere o poema analisado). Diz-se não à gratuidade da luz, mergulha-se na desolação do escuro.

Merquior, fino crítico que é, traz à baila o Canto X, 80 dos Lusíadas. Lá, para dizer o mínimo, flagramos a expressão que dá nome ao poema de Drummond; lá, também, já está a impotência do engenho humano, a que o poeta mineiro se resigna – e que o português lamenta. Os 96 versos de “A máquina do mundo” exigem silêncio e maturidade. Não é poema para ser lido em menos de uma hora, nem para ser relido poucas vezes. Seu efeito pode ser – alerto – desagradável. Mas trata-se de um desagradar que ensina. E isso deveria bastar.

A seguir, durante o mês de setembro, uma análise do poema. O texto abaixo está sendo produzido aos poucos e não está revisado.

Comecemos a análise pelos 12 primeiros versos, em azul, abaixo. Nota-se facilmente que o eu-lírico ou o poeta (para a distinção, ou indistinção, entre os dois termos, ver minha análise de poema de Alberto Caeiro aqui mesmo neste site) dá início ao poema com uma conjunção aditiva. Ora, qualquer pessoa com o mínimo de bom senso (são poucas) já percebe que esse “e” já coordena, já adiciona, já liga algo a alguma coisa. Mas o que seriam esse algo e essa alguma coisa? Como antes do “E” não há nada (pelo menos não há nada escrito), fica evidente que a ligação é com a interioridade, até então não-expressa em palavras, de quem fala. E quem fala, percebe-se, está a rememorar, a palmilhar, o passado, mais especificamente o passado pedregoso de uma estrada em Minas. E esse palmilhar, percebam, é vagaroso. Disso, digo eu brevemente, tratam os dois primeiros versos. Passemos ao terceiro e ao quarto, que falam de um sino rouco, que ao fecho da tarde, badala, misturando-se ao som pausado e seco dos sapatos de quem caminha. Vejam bem: caminha. Sim, porque até o momento o rememorar, o palmilhar, da estrada podia ser interpretado como algo somente metafórico, o que de fato não condiz com o que vem a seguir. Efetivamente o poeta declara estar além da mera remissão metafórica. Ele narra. Ele diz estar caminhando. Obviamente, no nível discursivo, todo esse poema é um fingir, é uma memória, como bem atesta o seu “como se” inicial, disfarçado de “e como” (verso 1) seguido de um subjuntivo passado (em outras palavras: “e como eu palmilhasse” equivale efetivamente a “e como se eu palmilhasse”). A declaração de movimento, os sapatos a produzirem seu som pela estrada pedregosa, o agouro do sino, são elementos que colocam o leitor em um estado diferente diante do poema. O leitor não mais somente contempla um texto, uma metáfora poética barata, que até seu colega de segundo grau sabia fazer. Contempla, isto sim, a imagem de um homem a caminhar narrada em palavras. É preciso contudo analisar em minúcia o que é esse caminhar e o que são as palavras que o dizem. Pois bem, para que uma simples imagem de um homem a caminhar por entre pedras em uma estrada se torne uma imagem poética, há-de se ter algum refinamento. Refinamento ao escrever, é claro. E refinamento ao ler, algo que nem todos têm, e pouco passível de ser ensinado. Sim, todos sabem ler, mas, mesmo aquele que lê e compreende bem o noticiário semanal, o livro de estatística ou de cálculo e até mesmo aquele que lê e compreende bem suas filosofias, esses podem não saber ler poesia. Porque não foram feitos para ela. Porque foram feitos para os números. Porque foram feitos para o rasinho do aqui e agora. Ou seja: se a imagem poética não se instaura na cabeça de quem lê, mesmo depois de muito esforço, não há mestre que destrave tal atravancamento. Não se trata de boçalidade. Trata-se de aptidão. E é por ela que definimos nossos amigos, nossas afinidades. Às vezes, porém, felizmente, até mesmo um engenheiro saberá ler poesias. Dito isso, volto ao verso 5, no ponto da cesura. Continua o poeta no como se lingüístico do como se poético, a enumerar imagens: agora nos fala de aves de formas pretas que pairam em um céu de chumbo, de aves que se diluem na escuridão maior. Paremos aqui. “Escuridão maior” merece atenção. Em tempos como os nossos, de promessas de céus claros e límpidos, em tempos de religião aeróbica, de pastores bem treinados e eloqüentes a apascentar um rebanho inerme de homens ávidos por paz de espírito coroada de dinheiro, como é o Brasil de hoje, termos, em tempo nem tão distante, um Drummond falando de escuridão maior… Chega a ser um alívio, um desplante, um bálsamo. Penso: meu Deus (sic), há (havia) reflexão, nem tudo são Rossis e Malafaias. A escuridão maior vem dos montes, vem de cima, portanto, mas vem também do próprio ser do poeta, desenganado. Ora, não há nada mais humilde e terno do que isso: um poeta da grandeza de Drummond a admitir e demonstrar sua descrença, sua impossibilidade de crer. Eis uma opinião qualificada: a de um grande poeta desenganado. Há poetas que fazem isso, que demonstram seu desengano. Mas não com essa força. No Brasil de hoje, por exemplo, o poeta A. Cicero (que me perdoe a franqueza) o faz muito melhor pela via da razão. Drummond equipara a escuridão dos montes (a natural, que é dada gratuitamente) à sua própria, que é trabalhada e racional. Assim, a força do negrume é, definitivamente, outra, pois sintética, no sentido comum do termo. Os nove primeiros versos encerram um, digamos, primeiro estágio do poema, já que o décimo institui uma peripécia (salve, Aristóteles), uma virada. É nele que se entreabre a máquina do mundo, esse querer fantasioso do homem ainda não iluminado. (Vinicius, em 17 e 18 de setembro de 2010. To be continued…).

1              E como eu palmilhasse vagamente
2              uma estrada de Minas, pedregosa,
3              e no fecho da tarde um sino rouco
/
4              se misturasse ao som de meus sapatos
5             que era pausado e seco; e aves pairassem
6             no céu de chumbo, e suas formas pretas
/
7             lentamente se fossem diluindo
8             na escuridão maior, vinda dos montes
9             e de meu próprio ser desenganado,
/
10           a máquina do mundo se entreabriu
11           para quem de a romper já se esquivava
12           e só de o ter pensado se carpia.
/
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
/
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
/
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
/
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
/
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
/
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
/
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
/
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de
/
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
/
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
/
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
/
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
/
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
/
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
/
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
/
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
/
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
/
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
/
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
/
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
/
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
/
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
/
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
/
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
/
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
/
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
/
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
/
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
/
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Longe do panóptico

O panóptico (essa maravilha [o itálico marca ironia] concebida por Bentham, e esmiuçada nas páginas de um dos livros de Foucault mais lidos no Brasil, por conta de um certo filme) – anunciam-me alguns teóricos – não é só o panóptico em sua encarnação física (que vemos, na foto acima, em um presídio de Barcelona); não é tampouco somente o seu resultado mais imediato, isto é, a possibilidade de vigilância sem vigilante, uma vez que o preso, como sabemos, acaba por introjetar a sensação de estar sempre sob os olhos de alguém, ainda que a torre de observação esteja vazia; o panóptico, hoje, para além dessas sutilezas do mundo real, é muito mais a vigilância exercida pelo incrível mundo da Internet [ironia em “incrível mundo da Internet”, ainda que sem marcação de itálico ou aspas…]. Esse mundo, por meio de e-mails, pop-ups, spams e outros dispositivos mais recentes, como o discreto twitter – que em geral nos informa sobre fatos importantíssimos da vida cotidiana de pessoas desimportantes –, está sempre a nos dizer: sei que você está aqui (ou saiba que eu estou aqui), sei que você percorre (ou saiba que eu percorro) tais e tais caminhos pelo mundo virtual e que, portanto, seu (meu) perfil é este ou aquele…

Em outras palavras, o controle antes introjetado a partir de um suporte físico, a torre, é hoje exercido ao longe, sem torres, sem fios. Vejamos como, grosso modo, esse processo se dá para quem escreve na Internet, panóptico encarnado, e para quem escreve em papel (livros).

Quem escreve, seja qual for o meio utilizado, escreve para terceiros, escreve para um leitor (ainda que teóricos da comunicação, como Castells, já falem em autocomunicação…). Mais do que escrever para terceiros, contudo, na Internet escreve-se com a clara possibilidade de que os terceiros digam algo sobre o que foi escrito (motivo pelo qual há a seção “comentários” em quase todos os textos da rede, inclusive neste). Há, portanto, um fundo social, ainda que de baixa intensidade, nesse dispositivo. Desse fundo social, autores diferentes fazem uso também diferente. Alguns comprazem-se em constantemente declarar sua própria genialidade pela via negativa, isto é: pelo elogio ao comentário “brilhante” de um leitor acabam elogiando-se a si mesmos. Outros, resolvem bloquear os comentários, a fim de não ter de abrir espaço a injunções externas de qualquer espécie, exceto à injunção da prepotência. No meio termo, outros, ainda, mantêm os comentários abertos, embora pouco uso seja feito deles. O escritor, portanto, controla, exercendo seu poder sobre os leitores e, de certa forma, deixa controlar-se, mas somente para que seu poder se fortaleça, ainda que inconscientemente.

A leitura de um livro, por sua vez, não dá espaço a comentários dessa espécie, especialmente pelo fato de os autores estarem bem distantes, freqüentemente mortos… O diálogo é feito, assim, com o lápis à mão, à margem do texto, e depois convertido, ou não, em texto secundário (refiro-me especialmente à crítica literária, mas o procedimento vale para a leitura em geral). Percebam a virada: o poder maior aqui é do leitor, e não do escritor. O leitor, portanto, pode efetivamente elaborar sua interpretação sem o comando do olhar onipresente do autor. Agora, sem dúvida, trata-se de um processo mais trabalhoso, como, aliás, são todos os processos que conduzem à autonomia do sujeito.

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Saudade da terra

Saudade do útero da mãe terra, da mãe terra escura, negra e úmida que um dia me abrigou no mais recôndito dos silêncios, em isolamento de tudo e de todos, principalmente de todos, removido para sempre da vida comezinha do um dois três e quatro pelo qual julgam contar-me, eu, maior do que tudo, eu, maior do que o nada, por um instante eterno enterrado na Coxilha do Fogo, na Coxilha dos Piegas, à beira do São Gonçalo, nas margens do Canal que se ilumina pela brancura de uma casa, como um Cruz e Souza extemporâneo, como um Drummond de segunda, entregue à terra – escura, úmida e uterina terra.

Texto escrito em junho, mas publicado em julho (com data retroativa). Faltava-me um computador.
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Poema invertido

 
O boi rumo à pastagem
(verde e tenra)
é como a casa que espera
o homem que já chega:
 
Portas fechadas a esconder
conforto e calor,
Carne que se locomove –
a antever prazer (e dor).
 .
Sossego e permanência,
Ruminação e corte.
Sono ou devassidão,
Empanzinamento e morte.
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Pero Vaz de Caminha & Hans Staden: anotações de gaveta

Para não deixar em branco o mês de abril, mês brasileiro por excelência, uma anotação de gaveta:

A carta, de Pero Vaz de Caminha &  A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, de Hans Staden

 Os dois relatos de viagem, aqui resenhados de maneira muito breve, quase preguiçosa, guardam uma distância temporal de cerca de cinqüenta anos e inserem-se no grupo de textos quinhentistas cuja característica principal é a narrativa dos primeiros contatos com povos nativos do Novo Mundo, o continente americano. Essa aparente pequena distância que os separa é, porém, definidora de uma grande diferença: a profundidade com que os dois “relatores” viveram o contato com o índio brasileiro. Bastaram cinqüenta anos para que dois europeus experimentassem de maneira muito diversa a visão de mundo oferecida pelo outro, representado por índios diferentes e de tribos também diferentes. Nesse pequeno período histórico, pequenos povoados portugueses já se impunham, como os pês desta oração. O Brasil já era um pouco mais do que índios à beira-mar. Daí a diferença primordial entre o relato en passant de Caminha e a experiência de vida, pelo menos aparentemente, mais intensa de Staden, que flutuou entre tribos inimigas em um mesmo território.

Caminha, dirigindo-se a Dom Manuel,  começa seu relato por uma demonstração de humildade cínica, dizendo-se quase incapaz de fazê-lo, principalmente se o que narrar for comparado aos relatos dos capitães. Pretende, contudo, já desde o início, cumprir uma certa fidelidade ao fato objetivo, escrevendo “nem para aformosear nem para afear”. Narra ao soberano, seu interlocutor preferencial, o trajeto navegado: a passagem pelas Canárias, por Cabo Verde, e a chegada, cerca de um mês depois, em 21 de abril de 1500, ao continente americano, indicado pela quantidade de ervas compridas e pela presença de aves. Avista o monte que  seu capitão chama de Pascoal, um “monte muito grande, muito alto e redondo”. Há, no dia 22 de abril, o primeiro contato com homens que andavam pelas praias, assim descritos pela frase já tantas vezes repetida: “A feição deles é serem pardos, quase avermelhados, de rostos regulares e narizes bem feitos; andam nus sem nenhuma cobertura; nem se importam de cobrir nenhuma coisa, nem de mostrar suas vergonhas. E sobre isto são tão inocentes como em mostrar o rosto”. Essa descrição é que, pode-se dizer, define um afastamento entre a cultura européia e a americana, recém-descoberta. O indígena é visto como um animal exótico, não possuidor da dignidade humana que cerca o homem europeu e o seu representante mor,  o rei português, o interlocutor.

No primeiro contato do capitão, Cabral, com os índios, já afloram, entre a troca de curiosidades gastronômicas e zoológicas, os interesses primeiros da expedição: a existência de ouro e a prata naquelas terras, algo que os índios confirmam, embora o próprio Caminha declare que “isso [a existência de ouro] entendíamos nós, por assim desejarmos”. Os primeiros contatos lingüísticos provavelmente contêm, ou contiveram, um preenchimento  fantasioso mútuo.

 O caráter religioso da expedição está representado pela missa rezada por Frei Henrique. Caminha tece as primeiras considerações acerca da facilidade com a qual aqueles selvagens seriam cristianizados. Aqui se tem uma manifestação óbvia do quão importante é a religião na conquista, por parte do colonizador, do outro, do homem desconhecido, analfabeto e “ateu”. A religião imiscui-se entre essas duas espécies de homem, o colonizador e o colonizado, como elemento aglutinador e, ao mesmo tempo, destruidor.

É a religião a mola mestra da narrativa de Staden, em cujo começo há uma carta que declara não só a obediência ao príncipe Phillip, mas também, e principalmente, a Jesus Cristo. O viajante alemão não tem como interlocutor Sua Alteza, ao contrário da carta de Caminha. Seu texto dirige-se ao leitor comum. Porém, muitos dos fatos por ele narrados são atribuídos à intervenção divina. A maneira por que se salva de ser a iguaria principal do banquete antropofágico dos Tupinambá(s), por exemplo, é atribuída à vontade divina, apesar de estar evidente que os índios o pouparam pela mais obtusa superstição – algo comum entre povos primitivos. Para os selvagens, algumas mortes sucessivas entre membros de uma mesma família indígena, provavelmente devido a uma epidemia, foram levadas a cabo pela ira do deus do homem branco (no caso, Staden), que  por eles estava sendo maltratado. Decidiram, então, esses primitivos homens, poupá-lo para que seus companheiros não mais morressem. Como a coincidência ocorreu, i.e., ninguém mais morreu após terem poupado o alemão, a superstição prosperou entre os indígenas e Staden continuou vivo.

O livro de Staden se divide em duas partes: a primeira trata das duas viagens que fez ao Brasil; a segunda traz uma espécie de guia para se chegar ao Brasil, além de conter uma descrição pormenorizada dos usos e costumes dos Tupinambá(s).

Na primeira viagem que fez ao Brasil, saindo de Lisboa, em embarcação portuguesa,  Staden  chegou a Pernambuco, onde a tripulação de que fazia parte prestou ajuda ao povoado de Igaraçu, que estava sitiado pelos selvagens. Conseguem a rendição destes e logo retornam a Portugal, em uma viagem de 108 dias de fome até os Açores. Dessa primeira viagem o relato é bem curto.

Em sua segunda viagem marítima, sai de Sevilha (na páscoa de 1549). São três embarcações que partem conjuntamente e combinam encontrar-se à latitude 28 sul (ilha de Santa Catarina), no Brasil. Somente em novembro de 1549 é que a nau em que estava Hans Staden chega, sozinha, ao litoral brasileiro, mais precisamente na altura de Paranaguá, lugar em que perguntam pela ilha de Santa Catarina aos nativos, os quais lhes indicam o caminho e a distância a navegar. Quando chegam a Santa Catarina, um espanhol (Juan Fernando, basco de Bilbao) os recebe. Expressam-lhe o desejo de ir ao Río de la Plata. Logo após, chega uma das outras duas naus que haviam partido de Sevilha. Inexplicavelmente, a nau maior afunda. Todos os tripulantes ficam por dois anos presos nas ilhas. Decidem, então, ir a Assunção, metade por terra, metade navegando na embarcação que restara. Staden está entre os que vão pelo mar. Essa viagem definiria seu destino.

A primeira atitude é a de ir a São Vicente para alugar uma nau dos portugueses, com a qual pudessem alcançar mais facilmente o Río de la Plata. Ocorre então o naufrágio da caravela em que estavam, ainda que sem baixas, próximos a Itanhaém, onde são recebidos por portugueses. Vão a pé até São Vicente, buscando uma nova vida, uma ocupação. Lá, os portugueses são aliados de tupiniquins, estando cercados por duas tribos inimigas: os carijós, ao sul, e os tupinambás, ao norte. Faz-se necessária uma fortaleza que defenda os portugueses do ataque dos tupinambás, e é justamente Staden que começa a desempenhar a função de guarda nessa fortaleza, até ser capturado por eles.

Na aldeia dos tupinambás, o alemão é recebido de maneira ameaçadora. Segundo o ritual da tribo ele deve ser devorado, pois é um inimigo. Os tupiniquins atacam  os tupinambás, sem resultado positivo para Staden, que se transforma em um prisioneiro valioso à espera da morte. Contudo, dá-se a supracitada mortandade de alguns tupinambás, fato que leva Staden a ser temido. A partir desse momento, ele integra-se a tribo, exercendo um papel de conselheiro, caçando, participando de batalhas. Começa, então, depois de um período de nove meses, a pedir aos chefes indígenas que o libertem em troca de presentes que um suposto irmão seu enviaria. Com a chegada de uma nau francesa, consegue, através de uma simulação em que os tripulantes passaram-se por seus irmãos, ludibriar os indígenas, que o deixam partir ao encontro da família. Chega à Europa em fevereiro de 1555, com muita brasilidade nas costas.

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Literatura e filosofia: prolegômenos [Parte 2]

Dando continuidade à apresentação do capítulo inicial de minha tese (ver a postagem do mês de novembro, neste site), apresento o subcapítulo em que trato da distinção entre o escritor de ficção e o filósofo. Para tanto, talvez inusitadamente, Heidegger e Genette são convocados. Tenham paciência: o texto é simples, mas exige alguma atenção. Não é, certamente, o tipo de texto que se lê na tela de um computador sem abdicar de outros prazeres, digamos, mais acessíveis, como, por exemplo, aqueles obtidos por meio da discrição do Orkut, da ausência de egocentrismo do Facebook e dos sempre reservados pop-ups do MSN…
O texto abaixo é o mesmo que se encontra no original, estando apenas as citações, que lá eram somente recuadas, também marcadas em azul aqui. As notas de rodapé estão ao final do texto e os números que apontam para elas vêm entre colchetes.
1.1.3 Possíveis classificações dos discursos filosófico e literário excedentes

Sabe-se que a anteposição, nos termos extremos de uma proposição que agora aqui se instaura, entre o filósofo sistemático e o simples escritor de literatura ficcional, ocupando ambos, respectivamente, o ponto mais alto e o ponto mais baixo de uma hipotética hierarquia, deriva de uma simplificação (basta citar um terceiro exemplo – os diálogos platônicos – como algo que não se encaixa totalmente nem em uma nem em outra categoria: se não há sistema em Platão também não se pode dizer que não haja filosofia, e só porque há diálogo não se pode dizer que haja somente poesia). Aceitando-se, porém, a artificialidade do citado caráter simplificador como abertura de um caminho para uma abordagem razoavelmente organizada de textos literários e filosóficos, o ponto principal passa a ser o de chamar a atenção para o fato de que os discursos que preenchem os termos médios da proposição aqui apresentada – isto é, tanto o que se poderia chamar de discurso filosófico não necessariamente sistemático, quanto o que se poderia chamar de discurso narrativo que busca algo além do simples narrar e descrever – também perscrutam e interpretam a seu modo aquilo a que se propõe o discurso sistemático (e considerado hegemônico) do cânone filosófico. Assim, tendendo a equiparar os dois termos médios ao termo mais alto da proposição, configura-se uma primeira hipótese de trabalho: diante do discurso filosófico tradicional e sistemático, sugerem-se as presenças até certo ponto concorrentes do “discurso filosóficonão necessariamente sistemático” (ou, mais simplesmente, “discurso filosófico assistemático”) e de um “discurso narrativo que busca algo além do simples narrar e descrever” (ou, mais simplesmente, “discurso literário especulativo”). Descartam-se, portanto, como foco desta investigação, os termos extremos da proposição: o discurso filosófico sistemático e o discurso literário que somente narra e descreve (em geral, com o intuito básico do entretenimento, seja na produção, seja na recepção do texto).

Para sustentar e justificar a escolha dos termos médios da proposição, um filósofo e um teórico da literatura são citados a seguir. O primeiro (Heidegger) fala sobre a injustificada dificuldade de aceitação de outro filósofo (Nietzsche) – como filósofo – na academia de seu país. O segundo (Genette) disserta sobre a dificuldade inerente ao senso comum de perceber na narrativa algo mais do que um simples relato.

Durante muito tempo se declarou no meio acadêmico alemão que Nietzsche não era um pensador rigoroso, mas um ‘poeta-filósofo’. Nietzsche não teria lugar entre os filósofos, que pensam apenas sobre assuntos abstratos e obscuros, muito distantes da vida. Caso se queira, ainda assim, chamá-lo de filósofo, ele terá de ser considerado como um ‘filósofo da vida’. Essa rubrica, favorita e perene, serve ao mesmo tempo para nutrir a suspeita de que qualquer outro tipo de filosofia é algo para os mortos, sendo, no fundo, dispensável. Tal visão coincide totalmente com a opinião dos que prezam em Nietzsche o mesmo ‘filósofo da vida’ que finalmente teria aniquilado o pensamento abstrato. Esses julgamentos comuns sobre Nietzsche estão errados. O erro será conhecido apenas quando a confrontação com ele for ao mesmo tempo associada à confrontação com a questão fundamental da filosofia. [1] (HEIDEGGER, 1991a, p. 5) (grifos do autor).
Caso se aceite, por convenção, permanecer no domínio da expressão literária, definir-se-á sem dificuldade a narrativa como a representação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da linguagem, e mais particularmente da linguagem escrita. Esta definição positiva (e corrente) tem o mérito da evidência e da simplicidade; seu inconveniente principal é talvez, justamente, encerrar-se e encerrar-nos na evidência, mascarar a nossos olhos aquilo que precisamente, no ser mesmo da narrativa, constitui problema e dificuldade, apagando de certo modo as fronteiras do seu exercício, as condições de sua existência. Definir positivamente a narrativa é acreditar, talvez perigosamente, na idéia ou no sentimento de que a narrativa é evidente, de que nada é mais natural do que contar uma história ou arrumar um conjunto de ações em um mito, um conto, uma epopéia, um romance. (GENETTE, 1973, p. 255) (grifos do autor).

No que diz respeito à contraposição dos dois discursos filosóficos aqui apontados, o sistemático e o assistemático, a diferença seria fundamentalmente formal. Tanto que Heidegger não desprestigia a priori nenhum dos dois caminhos, chamando a atenção para a qualidade do texto nietzschiano como filosofia, independentemente da forma sob a qual se apresenta. Poder-se-ia dizer que Nietzsche marca sua presença no que se refere ao conteúdo mais fundamental da própria filosofia, que é, em resumo, além da tentativa de resposta à pergunta “o que é o ser?”,  também a  tentativa de resposta – com ou sem apelo à metafísica – à velha questão do porquê da existência de algo em vez de nada (“Por que existe afinal ente e não nada?”[2]). Assim, talvez se possa deduzir que, de qualquer maneira, tanto o sistema quanto a falta dele manter-se-iam (e manter-nos-iam) ainda sob o domínio itinerante da procura por uma resposta, pelo que somos e por quem somos.

Quanto ao discurso literário narrativo que vai além do mero narrar e descrever, aqui chamado de discurso literário especulativo, observa-se que a distinção não é, como na filosofia, eminentemente formal, mas valorativa, pois tal discurso não guarda dessemelhança material (isto é, textual) para com o discurso literário do simples contador de histórias. Há, porém, uma suposição – errônea – do público em geral de que a organização e sistematização que torna a narrativa necessária seja algo natural e singelo para o escritor, que somente estaria a reproduzir mimeticamente a realidade, e não a instaurar e criar situações que funcionam como subsídios para a formação do imaginário do leitor e de sua subjetividade, inserta no mundo. Ainda que seja difícil traçar uma fronteira entre uma e outra espécie de texto narrativo sem a citação de exemplos concretos, pode-se ao menos dizer, por ora, que é ao leitor que cabe, em seu percurso, conferir uma qualidade mais profunda àquilo que parece um simples contar, evitando reduzir a narrativa a algo por demais evidente, a um começo, a um meio e a um fim [3].

Assim, os dois autores citados, Heidegger e Genette, possibilitam ressaltar que uma determinada forma excedente do discurso filosófico e a (re)valorização do discurso literário sob outra perspectiva permitem ao leitor a concretização de algo que não deve ser tomado como necessariamente diferente ou distante no que diz respeito a seus conteúdos [4]. Se a linguagem utilizada e a forma adotada pelos dois discursos são distintas, definir o conteúdo de um como sendo obrigatoriamente mais ou menos filosófico ou literário que o do outro constitui um problema bastante complexo, que reclama o estabelecimento de um limite mais claro entre o que seja a filosofia e o que seja a literatura, algo que não se está apto a realizar conceitualmente aqui. É possível, contudo, traçar indicações por meio de exemplos e da escolha de dois autores/objetos específicos, ensaiando-se indutivamente a comparação e estabelecendo, ao longo e ao final do processo, uma diferença/semelhança entre discurso filosófico e discurso literário.

Em termos gerais, literatura e filosofia reclamam modos específicos de abordagem. Ambas, porém, não escapam à lógica de que só são literatura e filosofia porque há sempre um autor, um texto e um leitor. Para que se chegue a uma compreensão profunda daquilo que comumente se aceita como literatura, a prefiguração do discurso tido como literário (sugerida e perpetrada por um autor) interessa a esta análise tanto quanto dois outros fatores: a forma específica já objetivada sob a qual se oferece à fruição – isto é, o suporte material do texto (excluindo-se, como é natural à nossa época, a oralidade) – e a posterior concretização por parte do leitor. Sem a totalidade dessas três instâncias, produção, texto e recepção, a literatura não pode ser compreendida integralmente. Com isso, guarda-se certa distância do enfoque excessivamente cientificista presente nas análises formalistas e, mais tarde, estruturalistas, as quais acabavam por não contemplar a possibilidade de um fundamento ontológico da literatura, preferindo enclausurar-se muitas vezes em excessiva imanência [5]. Prepondera aqui, então e ao contrário, a perspectiva segundo a qual o texto literário estabelece-se por meio da consideração do leitor, do texto e do autor. O discurso filosófico, por sua vez, aponta mais facilmente para sua origem, porque está isento do signo da ficção e porque se identifica imediatamente (ou pelo menos assim se espera) com seu autor e com a sistematização eminentemente racional e objetiva de seu pensamento, aguardada pelo leitor. Assim, escrever filosofia assistematicamente é em certa medida solapar o cânone no que ele tem de mais petrificado: a razão – e o encadeamento sistemático a ela inerente. O aforismo repele a sistematização e, conseqüentemente, a tradição filosófica, exigindo um receptor que o leia independentemente e sem conexão necessária com o que se lhe segue, em pouca extensão textual.

Notas

[1] Esta questão é “O que é o ser?”, que Nietzsche, segundo Heidegger 1991a, p. 4, responde com a noção de “vontade de poder”. A mesma questão está em Aristóteles, Metafísica, 1028b: “E, em verdade, a questão que outrora se levantou, que ainda hoje é levantada e sempre o será, que sempre é matéria de dúvida – a saber o que é o ser – identifica-se com a questão: que é a substância? Pois é esta que alguns afirmam ser uma, outros mais de uma, e que uns dizem limitada em número e outros, ilimitada. E, por isso, também nós devemos considerar sobretudo, em primeiro lugar, e quase exclusivamente, o que é aquilo que é neste sentido.”
 [2] Esta pergunta se encontra em Que é metafísica?, de Heidegger (1996, p. 63).
 [3] No caso específico deste trabalho, tal percurso se dá sobre uma pequena parte da obra de Herman Melville.
 [4] “O conteúdo da filosofia existiu antes em forma de religião, na forma de mito, do que em forma de filosofia” (HEGEL, 1986, p.12).
 [5] A abordagem científica de cunho formalista e suas derivações, como se sabe, valorizam em demasia o plano da expressão, em detrimento do plano do conteúdo e dos aspectos semânticos, os quais, ao contrário, se relacionam intimamente com um estudo de caráter mais pretensamente eidético que se pretende realizar aqui. Quando somente o significante é valorizado, ainda que se argumente em favor do entrelaçamento forma/conteúdo, reduz-se quase que exclusivamente ao poema (à linguagem versificada, lírica) o caráter cognitivo do que se desvela pelo literário, ignorando, então, a narrativa, e também o drama, como formas sob as quais o pensamento poético também se estabelece. Esse procedimento exageradamente formalista, que contraria a possibilidade de que o romance seja uma forma sob a qual tanto a vida empírica quanto os valores últimos e absolutos da existência, isto é, sua (im)possível essencialidade, estejam conjugados, não será aqui utilizado, pois o texto literário a ser aqui analisado é narrativo.
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