Sobre a arte de não escrever


Já disse, alhures, aqui mesmo, neste site, que, hoje em dia, há mais escritores do que leitores. (A presença das vírgulas no período acima visa a fazer com que o leitor leia o texto lentamente. A ausência de vírgulas no período anterior e neste que escrevo visa a acelerar a leitura. É o estilo a serviço da intenção. Até para inserir ou retirar vírgulas é preciso algum refinamento. Quem não sabe escrever não sabe fazer isso, pontua mal e enche o texto de absurdos sintáticos. Mas voltemos ao texto…). Todos, hoje, dizia eu, são escritores: seja pela ótica burra que, sob o pretexto da inclusão social (ó esquerda ignara!), transforma qualquer texto impensado e primário em texto digno de publicação, seja pelo ego incontido e nouveau-riche (ó direita ignara!) de sujeitos detentores de idéias absolutamente triviais que as publicam como se novidade fossem, o leitor é minoria – uma minoria soterrada por palavras mal trabalhadas, pouco lapidadas.

É natural que, por ser burilada cotidianamente e estar ao alcance de todos, a palavra seja considerada pelos ingênuos como matéria de fácil manipulação. Vejam-se os jornais, folheiem-se nossas revistas: os ingênuos estão lá em estado puro. Mas não é um mal do Brasil apenas, é do globo, isto é, do mundo. (Para o leitor desavisado [no Brasil, é preciso avisar]: algumas palavras dos dois últimos períodos contêm alusões venenosas à nossa imprensa). Como dizia um senhor amigo meu, já falecido: Why they don’t try ceramics? É uma lástima que prefiram publicar a calar.

Eu, calo-me (observem a vírgula estilística que separa sujeito de predicado, ao contrário do que recomendam professores pueris…).  Poderia vir aqui e escrever um texto por dia se quisesse, mas escrevo um por mês. Escrevo este agora porque o mês já se esgota. Note-se, contudo, que esse procedimento não se relaciona com a famosa crônica sobre a falta de assunto que, volta e meia, aparece em nossos nobres veículos de comunicação. Não escrevo, também, porque não quero escrever: essa é a mensagem. Este espaço virtual – só não percebe quem não quer – não tem, na verdade, nada de diário, apesar de fazer uso de uma plataforma para “web logs” (em tradução literal, “diários da rede”). Escrever diariamente sobre si para os outros é vulgar (Não faça versos sobre os acontecimentos […] As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam […] Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante […] desaparecem na curva do tempo). Mas ninguém de fato leu Drummond, e a ética/estética Facebook, portanto, impera (e se alastra a todos os meios).

Digo eu, por fim, em linguagem chã o que disse o poeta mineiro em linguagem elevada. Repara: ninguém quer saber de teu cotidiano. Mas não achem que dizê-lo me é fácil. Ser didático e direto, com a ironia ao fundo, demanda tempo, trabalho e abnegação. Arte, enfim.

Este texto foi escrito imediatamente após assistir a uma entrevista (reprise de 1989), feita pelo programa Roda Viva, com o agora falecido Millôr Fernandes. RIP, Millôr.
No penúltimo parágrafo, há trechos de “Procura da Poesia”, de Drummond.
Foto: Smith Premier 1 (Typewritermuseum.org)
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