A geografia do centro do Rio de Janeiro, com o auxílio de Machado de Assis

Igreja de Santa Luzia, Rio de Janeiro (RJ), em 1886 e hoje

“[…] Era a primeira vez que as duas irmãs iam ao morro do Castelo. […] Natividade ia pensando na cabocla do Castelo. […] Não deu pela Praia de Santa Luzia […]” (Esaú e Jacó, Capítulos 1 e 4)

Já pensou o leitor em perambular pelas ruas centrais do Rio de Janeiro? Por que fazê-lo? (perguntariam alguns). Ora, diria eu, pelo prazer de conhecer o que a cidade esconde, como se faz ao quebrar uma casca de noz.

O trajeto que, de um local qualquer no centro da cidade, me leva ao ponto – junto ao Museu Histórico Nacional – onde resta o que seria a última elevação do Morro do Castelo não encerra, para mim, problema algum, a não ser o de passar por tanta coisa que ignoro. Sim, o Rio de Janeiro está repleto de história(s). Andar, contudo, não agrada a todos: já estive diante de cariocas que não fariam deslocamentos pelo centro, assim, gratuitamente (em geral por medos medianos, inerentes ao padrão televisivo de vida, segundo o qual tudo é violência, assaltos e sangue).

Residente da cidade faz dois anos, estive procrastinando, como sempre, plano de conhecê-la cronologicamente, postergação que se encerra agora. Por isso, senhores, por causa desse “cronologicamente”, não me interessa principiar pelo contemporâneo curvilíneo-comunista (sorry, for now, Niemeyer) ou pelos shopping-centers capitalistas. O histórico pelo histórico, isto é, aquele discurso que vincula todo o movimento da cidade obrigatoriamente à ditadura da compreensão da evolução ou involução econômica, fica em segundo plano: “A Rio Branco, antiga Avenida Central, é o retrato de um Brasil moderno, que no governo de…”; “Sob a monarquia, a região do Paço Imperial ocultava toda a opulência de uma classe …”. Não, esse discurso, ainda que constitutivo de uma determinada realidade, que, concedo, é fundamental para o cidadão político (na melhor acepção do termo), não me abre as ruas do centro, que são, afinal, o objeto do plano.

Mais histórico, creio eu, é conhecer o velho Rio de Janeiro (ou o que resta dele), com o auxílio da obra de Machado de Assis. São inúmeras as citações geográficas alusivas à capital fluminense em seus romances e contos, como qualquer estudante secundarista sabe (quer dizer, não sabe).

Antes de dar início à concretização do plano, isto é, à exploração do ambiente urbano local, desconfiei que o trabalho já havia sido levado a cabo (originalidade não existe). Não estava enganado: há, pelo menos, um livro que trata diretamente do tema e, melhor, um bom site sobre a obra de Machado, da Casa de Rui Barbosa, que, indiretamente, facilita-me a vida. É gratuito e excelente.

Da janela do escritório que habartlebito cotidianamente por 8 horas, no Castelo, visualizo a praia de Santa Luzia, hoje aterrada (as fotos acima ilustram bem isso). A julgar pelos cariocas que conheço, poucos sabem, infelizmente (reflexo de nossa educação formal muito informal), que boa parte do atual bairro do Castelo antes era mar. Machado torna-se, então, fonte segura para conhecer a história sem o doutrinamento do discurso histórico, se é que me entendem. Nesse ponto específico da cidade, o da praia/igreja de Santa Luzia, Esaú e Jacó foi-me, de saída e já no princípio, muito útil (como atestam as citações iniciais, ao lado da foto do escritor).

Por fim, um pouco mais, digamos, mar adentro, na hoje Avenida Beira-mar, situada a duzentos metros da igreja de Santa Luzia, passo freqüentemente pelo prédio em que morava o pernambucano Manuel Bandeira, o poeta do Castelo. Mas essa é outra história… (vejam o link: http://www.youtube.com/watch?v=XjlsWMCq1qM).

Autoria das fotos da Igreja de Santa Luzia: 
1886: Georges Leuzinger (rioquemoranomar.blogspot.com.br);
 2005: Ana Beatriz (olhares.uol.com.br).
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2 respostas para A geografia do centro do Rio de Janeiro, com o auxílio de Machado de Assis

  1. Álvaro Figueira disse:

    Muito interessante e preciosa a idéia do resgate histórico. Pela comparação das fotos parece que a igreja foi transplantada para o berço atual onde repousa.

  2. Vinicius disse:

    Valeu! De fato, parece um transplante mesmo, mas os aterros comandam a cidade. Tenho outras fotos do centro antigo. Vou te mandar. Um abraço!

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