Sobre o trabalho do tradutor


são jerônimo

Chega-me às mãos mais um livro que traduzi, desta feita uma fonte secundária dedicada a Rawls. O livro em si não me interessa como motivo do que escrevo agora – interessa-me apenas como ponto de partida sobre o trabalho do tradutor. Presumo que haja pessoas interessadas no ofício, principalmente jovens no início de carreira, ou até mesmo pessoas maduras que, pelas vicissitudes da vida (ai!), deparam-se com a necessidade de traduzir.

Comecemos pelo início desta história. Receber, da editora, o livro que nós mesmos traduzimos é parte de um longo processo. Em geral, a tradução é gestada durante alguns meses. As editoras tendem não só a trabalhar com prazos – uma obviedade, quando se trata de profissionalismo –, mas também com prazos cada vez mais curtos (e aí entram singelas questões de fundo capitalista, como o lucro). O tradutor, por sua vez, em geral assina um contrato pelo qual abdica dos direitos da tradução, em troca de uma remuneração quantificável em laudas, palavras ou toques no teclado, e se compromete a entregar a tradução nesse prazo.

[Entenda a equação: a Editora envia o original ao tradutor, juntamente com um contrato, o qual estipula que o livro deve ser traduzido, digamos, no ritmo de 100 páginas mensais (o original é o parâmetro). A remuneração é paga não de acordo com o número de páginas do original, mas com o número de laudas do texto traduzido (a lauda é medida em caracteres e cada editora tem a sua lauda, que, em geral, varia de 1000 a 2000 caracteres). Digamos que, depois de traduzidas, as 100 páginas do original tenham se convertido em 150 laudas. O tradutor receberá valor equivalente  ao número de laudas traduzidas multiplicado pelo valor pago pela lauda. Se o valor da lauda for, por exemplo, 20 reais, o tradutor receberá 3000 reais (150 x 20).]

Como o mundo de hoje se interessa muito pela tecnologia e um pouco menos pela qualidade humana do trabalho, é natural que, cada vez mais, os famosos softwares de tradução atuem como primeiros tradutores do texto, o qual, depois, é editado pelo tradutor humano, o segundo tradutor. Esse processo – posso garantir pelo que acompanho nas novas gerações – é bastante aceito, e até mesmo incentivado pelas editoras, quando se trata de livros técnicos, pois torna mais rápida a chegada do livro à estante do supermercado, digo, livraria. Em literatura, felizmente, o processo não se institui tão facilmente. É verdade que os softwares de tradução estão melhores e dão conta de estruturas simples e simplórias. Não obstante, o que acho assustador é a padronização do estilo do tradutor, que desaparece em prol do estilo do software. Novamente, porém, asseguro: as novas gerações sequer percebem isso e acham tudo uma maravilha. Buffon  e geração Facebook não combinam. Temos o estilo Google, Wordfast e Trados. E é só, senhores.

Sobre a sobrevivência como tradutor de livros no Brasil, afirmo ser possível, mas distante de qualquer luxo. O tradutor bem organizado e disciplinado (palavra-chave, segundo Fripp, o qual endosso), pode, porém, viver razoavelmente bem do seu trabalho. Não se trata do padrão “super-carro na garagem, super-casa, com empregados à disposição, e viagens constantes, com hospedagem em bons hotéis”; trata-se mais da vida digna de um trabalhador remunerado de maneira aceitável, como um professor universitário, digamos, mas sem direito a férias de 30 dias. É-se autônomo, e as férias de 30 dias ficam por conta da poupança dos 11 meses anteriores. Diria que um tradutor que trabalhe constantemente tenha remuneração mensal entre 5 e 10 mil reais. (O problema da frase anterior é o “constantemente”: nem sempre as editoras possuem material disponível, o que faz com que, às vezes, fiquemos algum tempo sem trabalho. Entram em cena, então, os demais trabalhos de um tradutor: abstracts, revisões de textos mal traduzidos de futuros acadêmicos, diplomas, certidões, tese do cunhado etc.).

Sobre o texto propriamente dito, sempre considerei fator importante colocá-lo em bom português, em linguagem compreensível para o leitor. Não raro, o tradutor melhora o original, que nem sempre é bem escrito, como pensam os cidadãos comuns. Já me deparei com originais muito mal escritos que, em português, graças ao meu trabalho, passaram a ser razoáveis. Essas nuanças não são percebidas pelos leigos e nem pelos “tradutores viajantes”, isto é, aqueles sujeitos que passam três ou quatro meses no exterior e se julgam capazes de traduzir qualquer coisa na língua do país que visitaram (e que, muito freqüentemente, são contratados como tradutores). A ingenuidade é inerente ao ofício, infelizmente, do tradutor ao editor.

Enfim, para resumir com uma extrapolação o tema (que já se estende mais do que eu desejava), declaro: está encerrada até segunda ordem, por questões outras, não relevantes para este texto, minha jornada como tradutor de livros no Brasil. Foram cerca de 40 livros traduzidos, depois de formação específica na área de tradução, em curso de Universidade Federal, o que é raro, já que nossos tradutores são, em sua maioria, provenientes de outras áreas do saber. Considerado o fato de que, no mercado editorial brasileiro, há mais obras traduzidas do que escritas em português como língua de origem, creio ter contribuído com meus dois centavos para o milhão de que muitos desfrutam, especialmente para o milhão dos proprietários do meu trabalho.

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6 respostas para Sobre o trabalho do tradutor

  1. Luiza disse:

    Adorei o post! Muito relevante.

  2. Audrey Bueno disse:

    Excelente.

  3. Vinicius disse:

    Obrigado!

  4. Vinicius disse:

    Obrigado, Luiza!

  5. Vinicius disse:

    Obrigado, Daniel! Que ventos te trazem aqui, meu jovem?

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