O velho vendedor de maçãs (tradução de “The old apple-dealer”, de Nathaniel Hawthorne)

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Abaixo, minha tradução para as primeiras linhas de “The old apple-dealer”, de Hawthorne (Tales and Sketches, The Library of America, 1982).  A intenção foi manter o tom oitocentista.

THE OLD APPLE-DEALER

The lover of the moral picturesque may sometimes find what he seeks in a character, which is, nevertheless, of too negative a description to be seized upon, and represented to the imaginative vision by word-painting. As an instance, I remember an old man who carries on a little trade of gingerbread and apples, at the depôt of one of our railroads. While awaiting the departure of the cars, my observation, flitting to and fro among the livelier characteristics of the scene, has often settled insensibly upon this almost hueless object. Thus, unconsciously to myself, and unsuspected by him, I have studied the old apple-dealer, until he has become a naturalized citizen of my inner world. How little would he imagine — poor, neglected, friendless, unappreciated, and with little that demands appreciation — that the mental eye of an utter stranger has so often reverted to his figure! Many a noble form — many a beautiful face — has flitted before me, and vanished like a shadow. It is a strange witchcraft, whereby this faded and featureless old apple-dealer has gained a settlement in my memory.

O VELHO VENDEDOR DE MAÇÃS

Quem adora o pitoresco, e a moral dele decorrente, pode às vezes encontrar o que busca em um personagem cuja descrição seja por demais negativa para ser pintada e representada à imaginação por meio de palavras. Lembro-me, por exemplo, do velho da pequena banca de maçãs e biscoitos, localizada em nossa estação ferroviária. Enquanto eu esperava pela saída dos trens, minha atenção, adejando por entre as características mais vivas do ambiente, não raro se dirigia, de maneira pouco sensata, a esse objeto quase sem cor. Assim, inconscientemente, e de um modo insuspeito para ele, estudei-o até que se tornasse um cidadão integrante de meu mundo interior. O vendedor de maçãs – pobre, negligenciado, sem amigos e com poucas características que o tornassem apreciável – certamente nem imagina que um estranho tenha várias vezes se dedicado à sua figura! Muitas formas nobres – muitos belos rostos – passavam diante de mim e desapareciam como sombras. É mesmo uma espécie de feitiçaria ter esse vendedor de maçãs, tão apagado e sem graça, conquistado um lugar em minha memória.

He is a small man with gray hair and gray stubble beard, and is invariably clad in a shabby surtout of snuff-color, closely buttoned, and half-concealing a pair of gray pantaloons; the whole dress, though clean and entire, being evidently flimsy with much wear. His face, thin, withered, furrowed, and with features which even age has failed to render impressive, has a frost-bitten aspect. It is a moral frost, which no physical warmth or comfortableness could counteract. The summer sunshine may fling its white heat upon him, or the good fire of the depôt-room may slake him the focus of its blaze, on a winter’s day; but all in vain; for still the old man looks as if he were in a frosty atmosphere, with scarcely warmth enough to keep life in the region about his heart. It is a patient, long-suffering, quiet, hopeless, shivering aspect […]

Ele é um homem baixo, de cabelos grisalhos e barba curta, também grisalha, e veste, invariavelmente, um sobretudo surrado, de cor entre o marrom e o amarelo, abotoado de maneira bem justa, escondendo parte de suas calças acinzentadas; o traje, embora limpo e completo, está puído. Seu rosto, magro, murcho, enrugado e com características que nem mesmo a idade fora capaz de tornar impressionantes, parece enregelado. Trata-se de um enregelamento moral a que nenhum calor ou conforto físico poderiam se contrapor. O sol do verão pode até lançar seu intenso calor sobre o velho vendedor de maçãs – ou o calor da chama da boa lareira da estação ferroviária pode satisfazê-lo em um dia de inverno –, mas em vão, pois a impressão que temos é que ele sempre está em um lugar gelado, dispondo de pouquíssimo calor, suficiente apenas para seu coração bater. Parece alguém paciente, sofrido, calado, desanimado e trêmulo […]

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