A tarefa do leitor de Herman Melville

Em véspera de novo ano, mais um pouco do velho Herman Melville ao leitor brasileiro…

Talvez seja possível dizer que em The Piazza Tales, o escritor nova-iorquino Herman Melville obstaculiza ao máximo o chamado prazer estético, guardando-o para momentos muito breves e específicos dos textos aparentemente enfadonhos que ali se encontram. Cabe ao leitor perscrutar a densa camada formal – construída na dureza da exigência híbrida de romantismo e realismo que as histórias carregam –, para chegar a uma ou outra situação de sublimação, o que se torna ainda mais difícil pelo fato de o autor muitas vezes fazer uso de vocabulário náutico, necessário a então “correta” descrição do ambiente marítimo – em que, diga-se de passagem, boa parte de suas histórias ocorre. Esse é o caso, por exemplo, de Benito Cereno, um dos contos ali narrados (além, é claro, de Moby- Dick, que dispensa maiores comentários, e de Billy Budd, sua última obra). Mas nem sempre, em Melville, a temática se volta ao mundo marítimo, centrando-se muitas vezes em ambiente urbano, como no caso de Bartleby ou mesmo em ambiente mambembe (ainda que fluvial), como o de The confidence-man.

A ambientação de Benito Cereno implica sem dúvida já uma primeira análise, qual seja, a de que existe nas obras de Melville a óbvia necessidade de evasão, tão comum aos chamados romances de aventura. Mas essa evasão não lhe é assim tão banal, pois que geralmente vem coroada não com uma espécie de plenitude e realização em ambiente estrangeiro, mas, mais propriamente, com a idéia de desterro, tanto físico quanto metafísico, que culmina no aniquilamento das personagens, em situação de recusa. Seja na sombra imposta pelo negro Babo ou pelo tom branco do cachalote Moby Dick, os protagonistas Benito Cereno e Ahab deixam-se levar para bem longe da redenção, um pela miséria e pela impotência, outro pela obsessão. Isso para não falar de cores e de questões de raça, que aqui não serão abordadas. Falemos de ambientação.

Pode-se dizer que o navio impõe-se como o lugar simbólico adequado não só para negar a existência terrestre mas também para negar o mundo, o sistema político, econômico, religioso e social estabelecido, pela criação de um mundo próprio – recurso do qual muito se aproveitou Melville e que, curiosamente, encontra equivalente em história bem urbana, como é o caso de Bartleby, em que um escritório de Wall Street funciona como verdadeiro mundo estrangeiro e autista (análise que faremos em outra oportunidade). Billy Budd, para retomar outro protagonista, vê-se forçado a retirar-se do domínio dos vivos, sina comum às personagens melvillianas, que talvez tenham mesmo como grande característica esse fatalismo trágico de, pela morte imposta e inevitável, ou pelo apagamento voluntário, legarem mais um conflito ao já renitente mal-estar do leitor moderno.

Ao compreender e aceitar esse fundo trágico inerente aos personagens de Melville, o leitor que se investe da condição de crítico começa a perceber a necessidade de valorizar a linguagem do romancista norte-americano, nela buscando esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase, a forma enfim, que contenha, como na poesia, maior densidade – palavra opaca, mas desnuda e revelada pela leitura atenciosa: É na margem do turbilhão enfadonho da descrição que pequenos trechos permitirão ao crítico encontrar o centro em torno do qual todo o texto se ancora.

[O ensaio original continua por mais algumas páginas, mas paro por aqui, a fim de não causar enfado. Feliz 2012!]

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