Um conto

Abaixo, um mini-conto meu, publicado em 1998. Atentem para os bruscos cortes temporais da narrativa, aliados à troca constante de foco narrativo. 

O velho

Seis horas da manhã. O velho coloca a sexta bala no tambor do revólver prata. Os dedos enrijecidos pela artrite; o indicador no gatilho. Olha a unha preta, suja, e reflete. Está só e de cuecas, na poltrona da sala. É a hora. São sessenta e dois anos. É a hora. Sente nojo de sua sujeira. A carne enrugada da mão e as manchas amarronzadas da velhice contra o prata do revólver que brilha. É, definitivamente, a hora.

Tarde do dia anterior. O velho perambula no centro da cidade.

Os filhos se foram todos pelo ralo do banheiro e agora habitam esgotos. Ainda bem que não os tive. E a mulher, que se foi, sempre servil e escrava do verbo reclamar, não faz falta. O que me faz falta sou eu. São os motivos para eu estar aqui. É muito fácil comprar as balas. Mais fácil do que comprar o revólver. Na grande ferragem que tudo tem, no supermercado-templo das idéias embotadas. Compro as balas e compro um lustre. Manteiga e veneno de rato.

O lustre mal coube no porta-malas. Vou instalá-lo eu mesmo. Hei de ter força. Gosto do verde que ele tem. Da cor jade que a luz transporta quando bate em seus pingentes. É um belo lustre. Sabia que ia gostar dele aqui na sala. E fui eu que instalei.

As balas enroladas em um papel vermelho. A cara de trouxa da empacotadora, nariz torto, mas bons peitos. Tipo de mulher que se abandona. É burra até a medula. Mas eu a comeria. Aqui estão as balas. Tenho o revólver há três anos. É a primeira vez que compro balas. Confortável estar em casa e fazer o livre. Ninguém a me dizer o certo, o errado. Faço o livre. E se quiser arrebentar os miolos, arrebento. Será que sei colocar as balas nesse revólver?

As cuecas bege do velho são folgadíssimas, e se vêem seu pênis e escroto tocarem a almofada da poltrona. O velho encosta o cano da arma na têmpora direita. Lá dentro estão as seis balas. Um movimento e a hora será hora. Fecha os olhos. Move bruscamente a mão e destrói com seis tiros o lustre esverdeado.

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