De volta ao país do Carnaval (passando por um “festival” de Jazz)

Pedro Teixeira - O Globo

Não vou discorrer aqui sobre as maravilhas do Carnaval brasileiro, até porque, se delas fosse falar, teria de obrigatoriamente volver ao passado, momento em que eu, jovem, ainda descortinava prazeres –  mundanos, é bem verdade – em apreciar glúteos e vulvas quase à mostra pelas ruas do Rio de Janeiro.

Hoje, em pleno Carnaval, se você resolver simplesmente deambular pelo centro da cidade, lugar outrora aprazível para um Machado de Assis e para outros intelectuais mais recentes (estes de índole pretensamente  popular e devidamente cínica, com seus copinhos de whisky bem aconchegados junto ao peito), encontrará, caso seja bom observador, razões para alguma ponderação.

Tomemos o Largo da Carioca e, nele, três coisas bem distintas que se nos revelam facilmente à  vista em um sábado de Carnaval: nos humanos, muitíssimo presentes e barulhentos ao extremo, parece querer despontar a latente cardina que impregna a roupa mulambenta de qualquer povo depauperado (apesar da propaganda em contrário de que nossos pobres sejam de classe média e de que estejam felizes a não mais poder); no chão, outrora terra, a mistura de urina e fuligem de gás carbônico, que cobre as onipresentes pedras portuguesas das ruas da antiga Capital da Guanabara, encardindo-as – e dando ao cidadão a inusitada oportunidade de sentir na pele, ou por entre os dedos, caso ande de sandálias, como era caminhar por entre as ruas de uma cidade imunda do medievo, ainda a milhas de distância de qualquer saneamento básico; por fim, ainda no chão, outrora terra (e pasto), cerca de três quartos do espaço urbano do citado Largo tomados por artigos chineses de plástico (mormente chapéus brancos de malandro carioca à venda por 4 reais e alguns centavos) disponíveis para visitantes desavisados e para os paupérrimos e desdentados habitantes locais, todos eles muito cordiais, diga-se sem ironia, naquela limite da porção de educação que lhes coube – impossível não pensar política e economicamente aqui –  por obra da sempre justa e histórica distribuição de renda do País.

Pensei em tudo isso enquanto caminhava, a partir da estação de metrô da Carioca, rumo à Rua do Lavradio, hoje tida como uma espécie de “pólo cultural da cidade” e onde se vê, aqui e ali, graças a um ou dois bares do local, surgir um bom grupinho de jazz, essa música americana “tão branca” e tão estrangeira, como pensam os burros xenófobos locais defensores incontestes do samba negro de raiz, em meio a uma cidade que parece prezar, em especial, somente três estilos de música: o próprio samba, seja em sua vertente mais refinada, voltada ao cidadão classe média, apreciador, por ser “nobre”, mais de Chico Buarque de Holanda do que de Martinho da Vila,  seja em  sua versão mais propriamente popular, em estrato economicamente mais baixo, como é o caso dos hoje globais Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz (ambos representam, também, uma simbiose do gosto local, agradando ao Leblon e à Madureira) – enfim o samba continua sendo um escudo para o cidadão obtuso que se julga, só ele, bom sujeito e bom da cabeça; o segundo estilo é o funk de morro, preferido pelos analfabetos musicais (e funcionais) adeptos da facilidade de se viver e pensar monocordicamente, com a bunda em primeiro plano e o cérebro como mero e dispensável acessório; por fim, resiste ainda, nas classes mais afluentes,  a soporífera e cambaleante bossa nova, naquele estilo de vida “barquinho” e “Zona Sul”, no pior sentido do termo e, hoje provavelmente, hit em alguns condomínios chiques da Barra, onde elegantes senhoras, além de esconder o pescoço já enrugado, dançam sozinhas lembrando-se dos bons tempos de Tom e Vinicius.

Entre esses três gêneros, imiscui-se, às vezes, um rockinho, um jazzinho ou um blues, em lugares bem demarcados da cidade, além é claro –  maldição – das já tradicionais músicas para hipsters barbudinhos e descolados, todas elas, no fundo, ainda naquele estertor cíclico 120 bpm de vinte anos atrás sob roupagem um pouco mais moderna, mas, ainda assim, impregnada do lixo conceitual e eletrônico segundo o qual DJs “tocam” instrumentos e Charlie Parker é só uma seqüência de compassos a ser copiada e colada.

Pois bem, minha caminhada até a Rua do Lavradio deveria levar a um festival de jazz (intitulado Lavradio Jazz Fest). Pensei: deve haver um palco, uma banda e alguém tocando jazz. Jazz é humano, não há máquinas no comando e, mesmo no Rio, só de vez em quando degenera na tônica e quinta do samba… Não era de todo ruim, portanto, a perspectiva.

A Rua do Lavradio, é bem verdade, já não era tão suja quanto o Largo da Carioca ou a própria Rua da Carioca, por onde também passara; não era, porém, nenhum lugar asséptico ou escandinavo (pelo chão, as tradicionais tampinhas de garrafa e baganas a granel, no melhor estilo brasileiro porco). No geral, contudo, um ambiente suportável mesmo para quem já se avizinha dos cinqüenta e anda um pouco cansado de dourar a pílula…

Surpresa maior mesmo é que, para além do divulgado festival, o que se viu foi o uso do espaço público, pelo bar organizador do evento, da maneira mais individualista possível. Tudo feito de acordo com as normas do mercado, num país em que o mais se ouve é a hipócrita louvação do coletivo: o palco do chamado “festival” ficava voltado apenas para a fachada do boteco organizador. Quem, porventura, estivesse em outro local da rua, ou em outro bar, nada divisava, uma vez que os músicos ficavam encobertos pelos panos laterais que fechavam o palco.

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Em suma, o festival foi para umas três ou quatro dezenas de afortunados que chegaram antes das 13h (cheguei às 13h20) e se acomodaram nas mesas do bar organizador, diante do palco (suplantados, sorrateiramente e aos poucos, tão logo a música começou a ser executada, por uma horda de outras duas ou três dezenas de pessoas muitíssimo educadas que, na cara dura, se interpuseram, em pé, entre os afortunados e o palco. Veja a foto acima, com a indefectível presença do chapéu branco de plástico). Um show de brasilidade, do nosso já conhecido calor humano…

Os demais freqüentadores da rua ficaram apenas com o som. Eu mesmo ouvi a primeira banda, que nos brindou com alguns clássicos, e logo fui-me embora– cansado de imaginar a face dos músicos (em um show ao vivo, em um festival – vejam bem: “festival” –, presume-se que a expressividade do artista é algo a ser, perdoem-me a obviedade, visto. Não fosse assim, ficaríamos todos em casa, fazendo uso de nossos vinis, cds e similares). Fui-me embora, dizia eu, desta feita rumo à Glória, para ver o quanto a cidade estava limpa e organizada. Com cuidado, caminhando devagar, foi-me possível não ser atropelado e nem notar o quanto a miséria estava lá presente, como as hemoptises ressequidas no pijama de um tuberculoso da antiga Ilha Grande.

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2 respostas para De volta ao país do Carnaval (passando por um “festival” de Jazz)

  1. Alf disse:

    Pois é parrscero, assim é o carnaval dos dias atuais em que a trilogia líquida do chuva,suor e cerveja, pelo que leio na mídia, apesar dos esforço$ de Preta Gil e outros artistas, agregou mais um fluido corpóreo, o mijo. Como tocaste em música me lembrei de um fato engraçado acontecido aqui na praia do Cassino, ainda dentro dos preparativos momescos, onde num palco na avenida (bem mais democrático que este aí no RIo) um grupo tocava um pouco no improviso uma música meio sambão cujo refrão era “bate, bate, bate na porta do céu..repeat,,,bate,bate… O hilário é que era uma versão(?) daquela do Bob Zimmerman Dylan – “Knockin’ on heavens door”. O pior! Fiquei com esse refrão ecoando na cabeça por várias horas! Shit.

  2. Vinicius disse:

    Pobre Dylan…

    Abraços,
    Vinicius

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