Escrito a partir de “Noite com os gênios do estudo e do amor”, de Pedro Américo

Pedro Américo - "Noite com os gênios do estudo e do amor"

Quando a noite chega, ao homem, depois da labuta, restam muitas vezes dois caminhos apenas, ambos prazerosos. É claro que a escolha de um ou de outro depende não só dele, mas do mundo à volta e dos empecilhos por esse mundo postos. Porém, não é porque haja obstáculos que os caminhos deixam de ser trilhados. A opinião mundana sobre o estudo e sobre o amor degrada-os à luz de quem os compreende com uma certa profundidade. Quando digo “certa profundidade” não estou sendo exigente. Pode ser uma profundidade menor – rasa, se quiserem –, suficiente apenas para superar o embotamento cotidiano a que a artificialidade proveniente do meio da publicidade e do entretenimento tão facilmente conduz. Um passo para fora do círculo obtuso da mentalidade mediana, mais especificamente da mentalidade mediana brasileira, com suas novelas e futebóis, lugares-comuns e jornais de quinta, e o homem pode voltar a si mesmo, ao livro esquecido, ao corpo esquecido. Um passo para fora do círculo obtuso da mentalidade mediana, e o tempo ganha nova face: talvez seja possível a concretização do plano, talvez seja possível o aproveitamento integral do tempo, sem a amarra do relógio, sem o nó da gravata – o aproveitamento infantil  do tempo. Pois é só a criança que sabe vivê-lo, mesmo quando, aos olhos do adulto, o desperdiça.

No fluxo do tempo, e em detrimento do dia, falemos da noite, a belíssima noite: Desde, quando jovens, nem sempre sóbrios, a desfrutávamos imoderadamente e aos tropeços, até hoje, quando, em meio à vida, a deixamos passar, impercebida, a noite sempre mereceu melhor trato. Precisamos começar pela busca da linguagem certa que só a noite emana e instila, linguagem despida da fórmula e do vício burocrático do escrever; de posse da linguagem, precisamos flanar, em silêncio, distantes do falatório, em torno da auréola do seio da noite, para que ela nos seja generosa, irrigando-nos mente e corpo. Então, os humores fluirão, raros e valorosos, como deve ser.

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