Cinco notas-resumo sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin

 

As notas-resumo abaixo são registros pessoais relativos à parte inicial do famoso texto de Benjamin. Espero que as diretrizes aqui delineadas sirvam como introdução ao texto e como estímulo a alunos preguiçosos que repetitivamente buscam na Internet “resumos” de tudo que deveriam ler integralmente. A essa espécie de aluno, digo: imprima estas anotações, desligue o computador, leia-as com atenção e, depois, vá ao original, isto é, à tradução. No caso das traduções brasileiras, recomendo a de Sérgio Paulo Rouanet (Walter Benjamin, Obras Escolhidas, Volume 1, Brasiliense, 1985), em detrimento da confusa tradução de José Lino Grünewald, popularizada na coleção “Os pensadores”, que me deu muita dor-de-cabeça quando a li pela primeira vez e continua a me dar até hoje. Sorry, Grünewald, requiescat in pace. As notas abaixo, contudo, contemplam ambas as traduções. Voltando ao texto de Benjamin: cinco ou seis horas de leitura serão o suficiente para anotar e resumir o texto decentemente e por conta própria. Pergunto-lhe: o que são cinco ou seis horas diante de uma vida toda mergulhada no erro, na ignorância?

I

Benjamin apresenta-nos um histórico da possibilidade de reprodução da obra de arte: Sempre se pôde reproduzir a obra de arte. A reprodução técnica da obra de arte é, contudo, um fenômeno novo. Os gregos só conheciam a fundição e a cunhagem, reproduzindo em série apenas os bronzes, as terracotas e as moedas. Com a xilogravura, conseguiu-se a reprodução do desenho. A tipografia introduziu imensas transformações na literatura. A litografia, no séc. XIX, permite pela primeira vez às artes gráficas não apenas entregar-se ao comércio das reproduções em série, mas produzir obras novas. A fotografia, por sua vez, viria a suplantar a litografia. A característica principal do processo fotográfico é, para Benjamin, a preponderância do olho sobre a mão, que foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, isto é, instaura-se o uso constante do olho, fixo sobre a objetiva, no lugar da mão: o olho apreende mais depressa do que a mão desenha – o processo de reprodução tornou-se muito mais rápido. A reprodução técnica da obra de arte atinge um nível tal que se impõe, ela própria, ironicamente, como forma original de arte.

II

Mesmo a mais perfeita reprodução das obras de arte carece da presença, do hic et nunc (aqui e agora) da obra de arte, de sua existência única, no lugar em que se encontra. É a essa presença que se vincula a história da obra, com as inúmeras transformações por que passa ao longo do tempo, seja pelo seu manuseio, seja pelos cuidados a elas dispensados por quem dela foi proprietário. Esse hic et nunc da obra é a sua autenticidade. Diante da reprodução feita pela mão do homem, em geral uma falsificação, o original mantém sua plena autoridade. O mesmo não ocorre com a reprodução técnica: a fotografia, por exemplo, pela ampliação da imagem, ressalta aspectos do original que escapam à visão natural, além de poder levar a cópia do original até o espectador. A catedral abandona seu lugar para instalar-se no estúdio de alguém, por exemplo. A orquestra pode ser ouvida em casa. Há, então, uma espécie de desvalorização do hic et nunc da obra de arte. A autenticidade de uma coisa é tudo aquilo que ela contém e é originalmente transmissível, desde sua duração material até seu poder de testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde.

O que se atinge, o que se atrofia, na reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua (da obra) aura. A reprodução transforma o evento antes produzido apenas uma vez em fenômeno de massa, serial, permitindo ao objeto reproduzido oferecer-se à visão e à audição em quaisquer circunstâncias, conferindo-lhe atualidade permanente. O cinema, expressão máxima da permanência e da massificação do objeto reproduzido tem um aspecto destrutivo e catártico, representando a liquidação do elemento tradicional dentro da herança ou patrimônio cultural.

III

Aura é “a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”. Observar, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho. Graças a essa definição, é fácil identificar os fatores sociais que condicionam o declínio atual da aura: as massas, para Benjamin, exigem que as coisas se lhe tornem tanto humanas quanto espacialmente mais próximas e, além disso, ao acolher as reproduções, depreciam o caráter daquilo que é dado apenas uma vez – há uma ânsia de reprodução, que visa a propiciar um domínio maior do objeto, uma necessidade irresistível de possuí-lo, de tão perto quanto possível, na sua cópia, na sua reprodução. As massas querem superar o caráter único de todos os fatos através de sua reprodutibilidade. A reprodução impressa de uma imagem artística (de uma escultura, por exemplo), visando à estandardização, despoja o objeto de sua aura.

IV

A unicidade de uma obra, isto é, sua qualidade única e exclusiva, é idêntica à sua integração na tradição cultural de uma dada sociedade. Tanto os gregos quanto os clérigos medievais apreciavam uma antiga estátua de Vênus pelo que ela encerrava de único, por sua aura, como objeto de culto e como ídolo maléfico, respectivamente. Tal apreciação se dava devido ao fato de que as obras de arte nasciam a serviço de um ritual, primeiro mágico, depois religioso. A perda da aura expressa a perda de qualquer vestígio da função ritualística, seja antiga, seja medieval, da obra – função essa que foi o suporte do valor utilitário da obra. Tal ligação (entre obra e função ritualística) ainda permanece, transformada ou secularizada, por exemplo, no culto dedicado à beleza das obras profanas da Renascença (em outras palavras, o valor único da obra de arte “autêntica” tem sempre um fundamento teológico, por mais remoto que seja). Com o advento da fotografia, os artistas passam a professar a “arte pela arte”, que é, no fundo, uma teologia da arte, uma arte pura que se recusa a desempenhar qualquer papel social e a submeter-se a qualquer determinação objetiva. A arte não é, então, nessa perspectiva, um meio, mas um fim em si. Com a reprodutibilidade técnica, há a emancipação da obra de arte de sua existência parasitária, imposta pelo papel ritualístico. A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida. As obras passam a ser reproduzidas constantemente, tendo sua aura e também sua autenticidade diluídas. No momento em que o critério da autenticidade, segundo Benjamin, deixa de aplicar-se à produção artística, toda função social da arte passa a fundar-se não mais no ritual, mas em uma nova forma de práxis: a política.

V

A obra pode ser considerada como objeto de culto (valor de culto) ou como realidade exibível (valor de exibição). A produção artística inicia-se mediante imagens que servem ao culto. O alce pintado nas cavernas pelo homem paleolítico consiste num instrumento de magia, só ocasionalmente exposto aos outros homens. O valor de culto quase obriga as obras a manterem-se secretas. Quando se emancipam do seu uso ritual, as obras de arte são mais freqüentemente exibidas, expostas. A possibilidade de as obras serem expostas, sua exponibilidade, ampliou-se muito com os vários métodos de reprodutibilidade técnica. A preponderância do valor de exibição confere à obra de arte novas funções. Assim como na pré-história a preponderância do valor de culto levou a obra a ser concebida em primeiro lugar como instrumento mágico, e só mais tarde como obra de arte, do mesmo modo a preponderância hoje conferida a seu valor de exposição atribui-lhe funções inteiramente novas, entre as quais a “artística” – a única de que temos consciência – talvez se revele mais tarde como secundária.

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19 respostas para Cinco notas-resumo sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin

  1. Lucas disse:

    Muito bom! Eu li o texto do Benjamin e precisava de alguma “fonte” que confirmasse se eu entendi a ideia central. E seu resumo foi perfeito para isso!

    Obrigado

  2. Vinicius disse:

    Eu é que agradeço pela leitura, Lucas.
    Um abraço,
    Vinicius

  3. Leticia Martins disse:

    Excelente texto!Me ajudou a compreender o texto.
    estou no meio da apostila e algumas partes estavam confusas para mim…
    Detalhe,meu texto é o traduzido por José Lino Grünnewal,talvez por isso
    tenha ficado confusa em alguns pontos!

  4. Vinicius disse:

    Obrigado, Leticia!
    Volte sempre.
    Um abraço,
    Vinicius

  5. Juliana disse:

    Muito bom mesmo,
    Parabéns !

  6. Vinicius disse:

    Obrigado, Juliana!

  7. Paola disse:

    Muito boa toda a resenha, porém a parte que mais me chamou a atenção foi o início, seu começo, sua introdução..rsrs
    Parabéns!

  8. Vinicius disse:

    Obrigado, Paola! Esse é o espírito… Temos de rir um pouco.

  9. Moises disse:

    Moises: Aceito, mas não concordo com sua colocação

  10. Vinicius disse:

    Qual delas?

  11. Leila disse:

    Incrivel me ajudou muito com a leitura do texto! Claro sucinto, perfeito! Obrigaduuuuuuuuuuu rs

  12. Vinicius disse:

    Obrigado pela leitura atenta, Leila.

  13. Cris Oliveira disse:

    Li a tradução do Grünnewald e confirmo é horrível a compreensão, mas seus tópicos foram valiosos, obrigada

  14. Vinicius disse:

    Sempre às ordens, Cris Oliveira.

    Saudações,
    Vinicius

  15. Sonia Moutinho disse:

    Estava lendo o texto completo e encontrei dificuldades para entendê-lo. Porém, após o seu resumo, ficou mais fácil. Voltarei ao texto. Parabéns. Obrigada.

  16. Vinicius disse:

    Sempre às ordens, Sonia! Boa sorte!

  17. Margaret Valente disse:

    Nossa! como é difícil de entender o texto de Wlater Benjamim, não é pra qualquer um. E você me ajudou muito com essa sua resenha. Seu texto é maravailhoso e compreensivo. Obrigada!

  18. zoraide disse:

    Muito boa sua síntese.

  19. Vinicius disse:

    Obrigado, Zoraide.

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