Sobre o excesso

grapes

Quem bebe vinho e o traz em seu sangue e nome, sabe que o poder da embriaguez é o de trocar, no mínimo, o mundo da certeza pelo da incerteza. E isso é bom. Um certo senhor alemão, falecido em 1900, com nome de imperador e hoje conhecido de excessivas hostes, previra em seu primeiro grande livro as vantagens da desmedida, de buscar na lógica dos filósofos trágicos o poder que se contrapõe à explicação racional do mundo do homem da cicuta e a divisão deste mundo em dois pelo homem das costas largas. Trata-se de um livro árduo, mas tenho a teoria de que os grandes escritores criam uma cortina de fumaça nas primeiras cinqüenta páginas como uma maneira de espantar leitores mais preguiçosos ou medíocres. O tal alemão, que você já conhece até da televisão, pressentiu o fracasso a que a interpretação racional estava fadada, desembocando hoje na mais obtusa reificação e na transformação de toda e qualquer instância da vida comezinha em modos de suplantar o outro, enfim, de prevalecer hipocritamente sobre quem se nos opõe. No que diz respeito ao vinho, por exemplo, temos uma boa metáfora dessa imbecilidade quando vemos figuras do mundo pop preocupadas em carregar seus próprios copos para lá e para cá ou quando julgam que mais do que o vinho vale a pose do connaisseur blasé. Sempre que eles assim me cercam,  tenho vontade de comer carne crua.

Escrito em 6/8/2005
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Mau negócio (miniconto)

Depois de acordar mais cedo que os empregados da casa, um empresário, sentado na privada de louça inglesa de seu banheiro de quarenta metros quadrados, lê o jornal do dia. No caderno de economia, descobre que o fundo de ações do banco japonês administrou mal o seu dinheiro. Perda de noventa por cento. Furioso, amassa o jornal e esbraveja. Precisa ir logo para o escritório, telefonar para Osaka. Ainda sentado, leva a mão até uma portinhola metálica e a puxa. Ali está o rolo de papel higiênico, vazio.

Publicado em 1998.
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Cimento (poema fúnebre n.º 2)

 

Cimento

Cimento fresco que respinga e bate
no branco da parede
do futuro túmulo de minha mãe.

Cimento seco que gruda e endurece
à volta da lápide
do agora leito de meu pai.

Cimento eterno da pá do coveiro,
Cimento branco, cinza e negro,
Rogai por mim!

 
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Cinismo moderno

sloterdijk

“A velha social-democracia anunciara o slogan ‘saber é poder’ como judiciosa receita prática. Pretendia-se afirmar que uma pessoa devia aprender qualquer coisa como deve ser, para, mais tarde, vir a melhorar sua situação. O dito era ditado por uma fé pequeno-burguesa na escola. Essa fé está hoje em decomposição. (…) Inúmeros são os que já não estão dispostos a acreditar que começar por ‘aprender qualquer coisa’ levará mais tarde a melhorar sua situação. Neles, creio, cresce um pressentimento que no antigo kynismós era certeza: que uma pessoa tem de começar por ter uma vida melhor para depois poder vir a aprender qualquer coisa razoável. (…) No fundo, já ninguém acredita que a aprendizagem de hoje resolve ‘os problemas de amanhã’.” (Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica. Tradução de Manuel Resende. Lisboa: Relógio D’Água, 2011. p. 14-15)

A citação acima é do prefácio do livro de Sloterdijk e já dá alguma noção do problema com que hoje nos deparamos e sobre o qual, ao longo do livro, o autor alemão discorre com propriedade: o do cinismo moderno (ou pós-moderno, como queiram).

Percebe-se que os novos homens querem antes o bem-estar e depois o saber, o qual ficou para segundo plano. Desprezam-se, portanto, em alguma medida, os professores de disciplinas, digamos, pouco pragmáticas, “sem retorno no mercado”.

Fica, assim, fácil compreender o imediatismo dos jovens, seu utilitarismo intransitivo, a necessidade, enfim, de prevalecer sobre o outro a qualquer custo, algo que Nietzsche já revelara há muito, e que se coaduna ironicamente com os super-homens de hoje, todos vazios de conteúdo, ainda que repletos de i-pods e i-pads.

Os cínicos de hoje, ao contrário de Diógenes (que sequer conhecem), consideram mais razoável ser um ignorante abastado do que um sábio paupérrimo a viver em um tonel. Primeiro – pensam eles – a consecução do status social e material, o olhar blasé de superioridade lançado de dentro de uma redoma qualquer na qual se imaginam imersos, seja ela automóvel de última geração, seja ela algo propriamente invisível a proteger-lhes o divino corpo esculpido em academia (ou pelo botox, se mais vetustos). Depois de ricos (ou, na verdade, nem tão ricos assim), se preciso for, reservam espaço para o antigo amor à sabedoria.

Ao cínico de hoje pouco importa a falsa consciência, isto é, pouco importa fingir que os outros lhe são importantes… Consideram o fingir uma vantagem quantificável. A falsa consciência de quem detém posições de poder, seja no Estado, seja em comitês de toda ordem, seja nos altos círculos da iniciativa privada, é, diz-nos Sloterdijk, uma “falsa consciência esclarecida”, algo de fato assustador. Disso concluo: este mundo não tem salvação.

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

(A última linha do texto é verso do poema “Budismo moderno”, de Augusto dos Anjos.)
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Destroços (conto)

Uma porta se abre e uma corrente de ar varre a sala. O fogo na lareira oscila. A umidade escorre pelas paredes da casa. Folhas de jornais abertas pelo chão cobrem o caminho por onde todos passam, na sala, no corredor, na cozinha. A umidade  e os passos dos que caminham por ali consomem aquelas folhas, criando rastros: — uma mistura de papel, barro, e água. A empregada logo repõe a trilha com folhas novas do jornal de anteontem. A família está reunida. Gente da Capital também virá e, quando chegarem, haverá  gritaria,  beijos, abraços e gargalhadas.

Cidade de Pelotas, frio e umidade. A viagem até lá é feita por uma  estrada reta que corta pastagens e plantações de arroz. Virgínia está no banco traseiro de uma caminhonete. O veículo vai a cento e vinte, cento e trinta quilômetros por hora, e diminui a velocidade ao se aproximar do posto da polícia. Sobressaltos e barulho intermitente de pneus sobre sonorizadores, pequenas lombadas. Pelotas se aproxima. A caminhonete se desloca com rapidez por uma grande avenida asfaltada. Logo a seguir a avenida Dom Joaquim; à direita a Marechal Deodoro. Não há asfalto, mas calçamento. Um barulho ensurdecedor de borracha contra pedra. Ruas que se cortam formando quadrados perfeitos começam a aparecer. Os arredores da zona central. Virgínia avista a casa de seu avô. Andam mais duzentos metros e param em frente ao portão da garagem da casa, em uma rampa molhada pela umidade do ar. Virgínia desce e corre até a porta.

Alcebíades, com o pescoço envolto por uma manta negra, sai de sua cadeira e vai até a cozinha. Apanha uma caixa de fósforos amarela. Com um longo palito e mãos trêmulas acende o cigarro. A campainha toca insistentemente. Ele leva a mão ao aparelho de ouvido e o ajusta. Tosse. Lento, vai até a porta.

Do lado de fora, Virgínia esfrega as mãos. O nariz está vermelho. Seus pais ainda  descarregam o porta-malas. Ela pressiona o botão da campainha cinco vezes.

Alcebíades abre a porta. A corrente de ar levanta o poncho do velho e o cigarro vai ao chão, apagando-se ao tocar uma folha de jornal encharcada. Então, Virgínia o abraça, beija-lhe a face, as mãos. Eles vão juntos até a lareira assim, abraçados. O nó-de-pinho queima um fogo alaranjado. Nas paredes, retratos em preto-e-branco. Uma boleadeira com a manicla  desgastada pendendo sobre a parede da chaminé. Um fole e um gancho de ferro encostados a uma grade colocada em frente ao fogo. Sentadas em sofás de couro cru, todas as tias estão ali, ao redor da lareira, encolhidas, enrugadas.

Publicado em 1998.
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A justiça como eqüidade, segundo John Rawls

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Segue, abaixo, fábula que ilustra, da maneira mais didática possível, o argumento favorável à justiça como eqüidade. O trecho (que modifiquei aqui para efeito ultra-pedagógico) foi retirado do livro “Uma teoria da Justiça, de John Rawls”, e é de autoria de Frank Lovett (professor de Ciência Política na Washington University). Tradução minha para a Editora Penso (Porto Alegre – RS).

1. Imagine que um pecuarista rico tenha morrido e deixado seu rebanho para dois filhos, sem especificar quais animais deveriam ficar com este ou aquele filho.

2. Como todo animal tem características próprias, dividir o rebanho não é algo simples. Não basta, por exemplo, colocá-los em dois grupos numericamente iguais, ou dar todos os animais marrons para um filho e os pretos para o outro.

3. Digamos que os irmãos não cheguem a um acordo sobre a divisão dos animais e decidam consultar um juiz sábio. Como ele deve proceder?

4. A resposta é simples. O juiz diz a um dos irmãos: “Divida o rebanho em dois lotes, do modo como você julgar adequado”.

5. Voltando-se ao outro irmão, o juiz diz: “Depois que seu irmão tiver dividido o rebanho em duas partes, caberá a você escolher qual das duas será sua e qual será dele.”

6. Já que o primeiro irmão pode presumir que o segundo escolherá o melhor lote, sentir-se-á impelido a dividir o rebanho do modo mais justo possível, de modo a ficar satisfeito com qualquer dos lotes que toque a ele próprio.

Pois bem, a teoria da justiça social – o que Rawls chama de “justiça como equidade” – baseia-se essencialmente na mesma idéia.

(In: Lovett, Frank: Uma teoria da Justiça, de John Rawls. Porto Alegre: Penso, 2013. Tradução de Vinicius Figueira)

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O velho vendedor de maçãs (tradução de “The old apple-dealer”, de Nathaniel Hawthorne)

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Abaixo, minha tradução para as primeiras linhas de “The old apple-dealer”, de Hawthorne (Tales and Sketches, The Library of America, 1982).  A intenção foi manter o tom oitocentista.

THE OLD APPLE-DEALER

The lover of the moral picturesque may sometimes find what he seeks in a character, which is, nevertheless, of too negative a description to be seized upon, and represented to the imaginative vision by word-painting. As an instance, I remember an old man who carries on a little trade of gingerbread and apples, at the depôt of one of our railroads. While awaiting the departure of the cars, my observation, flitting to and fro among the livelier characteristics of the scene, has often settled insensibly upon this almost hueless object. Thus, unconsciously to myself, and unsuspected by him, I have studied the old apple-dealer, until he has become a naturalized citizen of my inner world. How little would he imagine — poor, neglected, friendless, unappreciated, and with little that demands appreciation — that the mental eye of an utter stranger has so often reverted to his figure! Many a noble form — many a beautiful face — has flitted before me, and vanished like a shadow. It is a strange witchcraft, whereby this faded and featureless old apple-dealer has gained a settlement in my memory.

O VELHO VENDEDOR DE MAÇÃS

Quem adora o pitoresco, e a moral dele decorrente, pode às vezes encontrar o que busca em um personagem cuja descrição seja por demais negativa para ser pintada e representada à imaginação por meio de palavras. Lembro-me, por exemplo, do velho da pequena banca de maçãs e biscoitos, localizada em nossa estação ferroviária. Enquanto eu esperava pela saída dos trens, minha atenção, adejando por entre as características mais vivas do ambiente, não raro se dirigia, de maneira pouco sensata, a esse objeto quase sem cor. Assim, inconscientemente, e de um modo insuspeito para ele, estudei-o até que se tornasse um cidadão integrante de meu mundo interior. O vendedor de maçãs – pobre, negligenciado, sem amigos e com poucas características que o tornassem apreciável – certamente nem imagina que um estranho tenha várias vezes se dedicado à sua figura! Muitas formas nobres – muitos belos rostos – passavam diante de mim e desapareciam como sombras. É mesmo uma espécie de feitiçaria ter esse vendedor de maçãs, tão apagado e sem graça, conquistado um lugar em minha memória.

He is a small man with gray hair and gray stubble beard, and is invariably clad in a shabby surtout of snuff-color, closely buttoned, and half-concealing a pair of gray pantaloons; the whole dress, though clean and entire, being evidently flimsy with much wear. His face, thin, withered, furrowed, and with features which even age has failed to render impressive, has a frost-bitten aspect. It is a moral frost, which no physical warmth or comfortableness could counteract. The summer sunshine may fling its white heat upon him, or the good fire of the depôt-room may slake him the focus of its blaze, on a winter’s day; but all in vain; for still the old man looks as if he were in a frosty atmosphere, with scarcely warmth enough to keep life in the region about his heart. It is a patient, long-suffering, quiet, hopeless, shivering aspect […]

Ele é um homem baixo, de cabelos grisalhos e barba curta, também grisalha, e veste, invariavelmente, um sobretudo surrado, de cor entre o marrom e o amarelo, abotoado de maneira bem justa, escondendo parte de suas calças acinzentadas; o traje, embora limpo e completo, está puído. Seu rosto, magro, murcho, enrugado e com características que nem mesmo a idade fora capaz de tornar impressionantes, parece enregelado. Trata-se de um enregelamento moral a que nenhum calor ou conforto físico poderiam se contrapor. O sol do verão pode até lançar seu intenso calor sobre o velho vendedor de maçãs – ou o calor da chama da boa lareira da estação ferroviária pode satisfazê-lo em um dia de inverno –, mas em vão, pois a impressão que temos é que ele sempre está em um lugar gelado, dispondo de pouquíssimo calor, suficiente apenas para seu coração bater. Parece alguém paciente, sofrido, calado, desanimado e trêmulo […]

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