Sobre o excesso

grapes

Quem bebe vinho e o traz em seu sangue e nome, sabe que o poder da embriaguez é o de trocar, no mínimo, o mundo da certeza pelo da incerteza. E isso é bom. Um certo senhor alemão, falecido em 1900, com nome de imperador e hoje conhecido de excessivas hostes, previra em seu primeiro grande livro as vantagens da desmedida, de buscar na lógica dos filósofos trágicos o poder que se contrapõe à explicação racional do mundo do homem da cicuta e a divisão deste mundo em dois pelo homem das costas largas. Trata-se de um livro árduo, mas tenho a teoria de que os grandes escritores criam uma cortina de fumaça nas primeiras cinqüenta páginas como uma maneira de espantar leitores mais preguiçosos ou medíocres. O tal alemão, que você já conhece até da televisão, pressentiu o fracasso a que a interpretação racional estava fadada, desembocando hoje na mais obtusa reificação e na transformação de toda e qualquer instância da vida comezinha em modos de suplantar o outro, enfim, de prevalecer hipocritamente sobre quem se nos opõe. No que diz respeito ao vinho, por exemplo, temos uma boa metáfora dessa imbecilidade quando vemos figuras do mundo pop preocupadas em carregar seus próprios copos para lá e para cá ou quando julgam que mais do que o vinho vale a pose do connaisseur blasé. Sempre que eles assim me cercam,  tenho vontade de comer carne crua.

Escrito em 6/8/2005
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