O gênio da música ataca em Copacabana (Hermeto Pascoal – sala Baden Powell, 3/11/2012)

Estive ontem à noite (3/11/2012) na sala Baden Powell, em Copacabana, onde assisti a uma apresentação de Hermeto Pascoal e seu grupo. Não é a primeira vez que assisto ao músico alagoano. Portanto, sei que seus shows trazem surpresas. Para mim, a maior delas foi a capacidade que Hermeto (pronuncia-se Herméto) tem de transformar problema em solução.  Explico: em um determinado momento do show, por volta da terceira música, o sintetizador de Hermeto deixou de funcionar como ele queria. Não se ouvia o timbre de piano elétrico, mas um timbre de cordas ou sopro (algo realmente indecifrável) com um vibrato exagerado, o que transformava o  instrumento de alto nível tecnológico em uma espécie de instrumento de brinquedo, desses que qualquer jovem compra para iniciar-se. Hermeto, sem que a  banda parasse de tocar, pediu ajuda. Alguns músicos alternavam-se na tentativa de resolver o problema, até que o outro tecladista da banda (André Marques), sentado em posição oposta a Hermeto, deslocou-se do outro lado do palco e  resolveu ir lá ajudá-lo. Marques não conseguiu resolver o problema inteiramente e voltou ao seu posto, mas, presumo eu, antes de voltar, deve ter dito algo a Hermeto que incluiu o verbo “esperar”. Enquanto isso tudo ocorria, saliente-se, a banda continuava tocando. Passados uns 30 segundos da volta de André Marques a seu posto, houve, então, um fade-out na música, pois Hermeto sobressaía, levantando as mãos, pedindo passagem…

Inicia-se aí, para mim, o que foi o grande momento da noite: Hermeto começa a improvisar sobre uma seqüência de acordes. Em cima dela, vai lançando melodicamente palavras que retratam a situação que vive naquele momento. Diz: “Esse vibrato…” [ o som do teclado continha um vibrato de que o músico não conseguia se livrar] “…está me enlouquecendo…”  [e, para cada frase da língua portuguesa, punha um acorde] “…é como um sapato…” [um sapato que não se quer usar, subentende-se (a propósito, Hermeto estava de tênis). E lá vinha mais um acorde, construindo uma seqüência realmente muito bonita] . A seguir diz, olhando para André Marques, que estava lá do outro lado do palco: “Eu espero…” [mais um acorde, entortando a melodia que cantava] “…Você diz para esperar, eu espero…” [mais uma entortada harmônica]. “…E não me desespero!” [somente Hermeto para sair-se com esse “desespero” (verbo) em oposição a “espero”]. E foi encerrando aquele seu improviso, sob a aura do não-desesperar-se, sob a aura do respeito pela manutenção da música, sob a aura daquele improviso em si, daquela maravilha criada ali, na hora, em resposta ao mais prosaico dos problemas técnicos.  E o concerto prosseguiu.

Os problemas com o sintetizador persistiram. O instrumento funcionava intermitentemente, mas o homem não se deixou abater. Comandou a banda, tocou flauta, escaleta, tomou até o lugar de Marques por alguns minutos, e foi ao microfone várias vezes, contar suas histórias à platéia. Hermeto é exímio contador de histórias. E tem uma lógica muito pessoal e lúcida. Só não o entende quem não quer ou não pode. Agora, o mais impressionante, o que vejo de mais magistral nele, é a capacidade de instilar nos músicos, profundamente, o espírito da música. É claro que os músicos que estão com ele são excelentes, mas é uma excelência que não encontra igual em outros virtuoses, pois não é uma excelência meramente instrumental. Eles não são títeres do instrumento. Digo isso porque por trás deles paira uma escola e um mestre. Sim, eles não só tocam música, não são meros executores: respiram música, estão imbuídos de um espírito que é maior do que eles (Para além do improviso, há muito ensaio, com certeza…).

Depois de sair de um show de Hermeto, sentimo-nos – como posso dizer – “desentupidos”.  Respiramos melhor, ouvimos melhor, falamos melhor. Escorre, pelo ralo do espírito, todo o entulho musical – e não musical – que nos impõem cotidianamente.  Com Hermeto, estamos diante da Música e percebemos que o mundo é maior, muito maior do que estamos acostumados a imaginar. Ainda bem.

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Nota: Há outros aspectos do show que não foram relatados aí acima. Por concisão, julguei mais interessante deixá-los para esta notinha extra. Um desses aspectos, deu-se quando Hermeto, percebendo que seu teclado ainda não funcionava corretamente, deslocou-se para assumir o teclado de André Marques. Bastou um gesto e o rapaz deu lugar ao mestre, que puxou a bola para si, fez uma introdução a um tema que não sabíamos qual era e – o mais sensacional – saiu de mansinho em uma fração de segundo já conduzindo a volta de Marques, que tomou novamente o seu posto. Nesse momento, a banda, em sua faceta puramente instrumental (baixo, bateria, saxofone, teclado, percussão), mostrando serviço, fez uma das coisas mais intrigantes que já vi. Pegaram uma deixa da introdução de Hermeto ao tema até então desconhecido, e juntaram-na a uma composição de Tom Jobim (tudo isso, em um segundo ou em um segundo e meio, sem deixar a música morrer, sem pausa, sem silêncio, numa fluidez indizível). Ali percebi o grau de comunicação entre os músicos, a facilidade com que passam de um tema a outro. Hermeto, aliás, faz muito o papel de condutor, de maestro e, mais de uma vez, pareceu disposto a nomear seu sucessor, o baixista Itiberê Zwarg, dado o número de vezes que o louvou – justificadamente, diga-se de passagem – durante o concerto. Além da banda de Hermeto, ingressou no palco, algumas vezes, o grupo do próprio  Itiberê. Chegamos a ter, às vezes, com isso, doze músicos no palco. Foi um espetáculo e tanto. Obrigado, Hermeto. Obrigado, banda.

Em tempo: o concerto foi subsidiado pela Prefeitura,  e os ingressos custaram R$ 30,00 ou R$ 15,00. Enquanto isso, aqui mesmo na cidade maravilhosa, há shows de “estrelas” pop estrangeiras que beiram mil reais.

Por fim, abaixo, momento do show do dia anterior, 2/11/2012, capturado por Henry Schroy (disponível no youtube). [ http://www.youtube.com/watch?v=Vp7ZQ0c-4kk]

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11 respostas para O gênio da música ataca em Copacabana (Hermeto Pascoal – sala Baden Powell, 3/11/2012)

  1. Lazaro disse:

    Obrigado, Vinicius!!!

  2. Álvaro Figueira disse:

    Beleza, pelo texto se depreende que o show foi daquele jeito brilhante como é a música do Herméto, pela criação e improviso marcantes do gênio.

  3. Fabio pascoal disse:

    OLA! SOU O FABIO PASCOAL PERCUSSIONISTA DO GRUPO DO HERMETO PASCOAL E VENHO AGRADECER AS PALAVRAS DO VINICIUS NUNCA LI UM COMENTARIO COM UMA VISÃO TÃO DENTRO DO QUE ROLA NOS SHOWS ,VALEU E PARABENS.

  4. Carol d'Avila disse:

    Sem palavras!

  5. Ajurina Zwarg disse:

    Concordo com Fábio,conseguiu enxergar como poucos e passou para palavras a música do Hermeto !!Parabens ..maravilhoso !!

  6. Vinicius disse:

    Obrigado pela leitura, Lázaro e Álvaro!

  7. Vinicius disse:

    Agradeço imensamente aos três músicos da banda de Hermeto (Fábio Pascoal, Carol D’Avila e Ajurinã Zwarg) os comentários que deixaram aqui, avalizando o que escrevi. As palavras de vocês três valorizam muito o texto. Fico feliz em ter conseguido reproduzir uma centelha do que se sente ao ver um show de Hermeto (Hermeto, por si só, é um livro. Seria possível escrever muito mais…). Aproveito para agradecer também o fato de haver um link para este meu texto lá no site do Hermeto. É uma honra!

  8. alexandre marcant disse:

    muito bom vinícius!!!

  9. renato disse:

    Me senti como se estivesse no show! Parabêns!

  10. Vinicius disse:

    Obrigado, Ale!

  11. Vinicius disse:

    Muito obrigado, Renato.

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