Alguém ainda estuda Roman Ingarden?

Por motivos de força maior, estive ausente em agosto. Por isso, este texto vai com data retroativa, para cumprir a agenda do mês passado. Trata-se de parte de um trabalho cuja proposta era usar Ingarden para analisar poesia. Esqueci-me de tudo, mas o trabalho está aí. Não o apresento integralmente porque sempre tem um idiota que copia o que escrevo e depois usa como se fosse seu. De qualquer forma, deverá servir para quem tenha de se iniciar na teoria do polonês. O poema analisado é “Contrição”, de Manuel Bandeira, reproduzido logo aí embaixo.
Contrição
                                                        
Quero banhar-me nas águas límpidas                                                               
Quero banhar-me nas águas puras                                                              
Sou a mais baixa das criaturas                                                                                    
                Me sinto sórdido                                                                                    
 
Confiei às feras as minhas lágrimas                                                            
Rolei de borco pelas calçadas                                                                                    
Cobri meu rosto de bofetadas                                                                        
               Meu Deus valei-me                                                                                    
 
Vozes da infância contai a história                        
Da vida boa que nunca veio                                                                                    
E eu caia ouvindo-a no calmo seio                                                                
               Da eternidade.
 
Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.  p.155-156.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho visa a apresentar a análise de um poema de Manuel Bandeira. Para efetuar tal análise partiu-se da teoria proposta por Roman Ingarden em A obra de arte literária (Das literarische Kunstwerk), obra em que o teórico polonês procurou inserir os conceitos de fenomenologia de Husserl.

A bidimensionalidade da obra justifica-se, segundo Ingarden, pela conjunção da sucessão de frases, o que poderíamos chamar de elemento longitudinal, e da multiplicidade de componentes heterogêneos conjuntamente atuantes, as camadas ou estratos,  elementos transversais. A característica principal da obra de Ingarden, parece-nos,  é a de primeiramente explorar esses estratos a fim de firmá-los como elementos heterogêneos interdependentes e inseparáveis, inerentes à obra de arte literária. Tais estratos dividem-se em: 1) estrato das formações fônico-lingüísticas (camada dos sons lingüísticos da obra); 2) estrato das unidades da significação (trata do sentido de uma unidade lingüística superior qualquer, antes de tudo, o da oração); 3) estrato das objetividades apresentadas (aquilo de que se fala na obra); 4) estrato dos aspectos esquematizados (o conteúdo concreto de nossas observações, dependente das particularidades do objeto observado, das circunstâncias na qual a observação se faz e das particularidades psicofísicas do sujeito que observa).

Respeitando a teoria de Ingarden, e ainda que seja uma tarefa difícil analisar um estrato sem que se ingresse em outro, por serem, como já dissemos,  interdependentes e inseparáveis, passemos a explicar como dar-se-á  a análise.

Os princípios dos quais partiremos para efetuar tal análise são aqueles de que nos fala Bordini em Fenomenologia e teoria literária. Esses princípios advém de uma segunda obra de Ingarden: O conhecimento da obra de arte literária. Primeiro, devemos tomar a seguinte atitude: “comparar as frases que determinam o desenvolvimento das ocorrências do mundo apresentado e estabelecer a moldura temporal” (seqüência histórica/temporal do texto). Em segundo lugar,  devemos “comparar as frases que projetam determinações das objetividades apresentadas” (objetificação) e “antecipar as possíveis concretizações” (concretização propriamente dita). Essa tarefa é dupla, já que envolve o terceiro e quarto estratos.  Em terceiro lugar, contemplando o primeiro e segundo estratos, devemos “ver as características das unidades sonoro-semânticas frásicas de que derivam os estados de coisas, pois delas dependem a eficácia e a natureza de representação artística” (análise dos fenômenos fônicos e semânticos). Serão, portanto, três passos distintos.

ANÁLISE DO POEMA

Vejamos, então, o primeiro passo da análise, que não diz respeito a nenhum estrato em particular, mas, simplesmente, tem a função de enumerar as ações que ocorrem no texto:

O próprio título indica uma espécie de arrependimento pelas próprias culpas ou pecados. Não se sabe, porém, quem está a arrepender-se. Já no primeiro verso temos a expressão de um querer, isto é, um determinado eu lírico diz querer “banhar-se nas águas límpidas”, desejo que se repete no segundo verso, com a diferença de que as águas em que deseja banhar-se não são chamadas de límpidas, mas de “puras”. Até o momento não sabemos se as águas límpidas e as águas puras são as mesmas águas. No terceiro e quarto versos, fechando a primeira estrofe, o sujeito lírico diz ser “a mais baixa das criaturas” e que se sente “sórdido”. Na segunda estrofe — no quinto, sexto e sétimo versos — há um retorno ao passado. Nesse retorno, o eu lírico conta o que fez ( “Confiei às feras as minhas lágrimas/ Rolei de borco pelas calçadas/ Cobri meu rosto de bofetadas”) em um misto de relato arrependido, sofrimento e (auto)punição. Encerra a estrofe no oitavo verso com um apelo a Deus (“Meu Deus valei-me”). Na terceira estrofe, volta-se novamente ao passado (infância), tentando achar nele a solução para problemas presentes, para sua vida adulta, que, pode-se dizer, não é boa (“Vozes da infância contai a história/ Da vida boa que nunca veio”). O poema se encerra com dois versos interdependentes que parecem relatar outro desejo do poeta: cair no seio da eternidade ouvindo a história da vida boa.

Na segunda etapa da análise, como foi dito anteriormente, trabalharemos com o terceiro e quarto estratos. Como sabemos, no terceiro estrato há a constituição das objetividades, ou seja, estabelecem-se as objetividades apresentadas. Tais objetividades são determinadas por um continuum limitado, que começa com a primeira palavra do texto e termina com a última. O mundo representado, ou camada objetual, institui-se, assim, gradual e transversalmente, pela quebra dos versos. Aqui tentaremos, segundo Ingarden, encontrar não somente objetos isolados e pessoas, mas também relações e ligações de diversos tipos que surgem entre elas, processos e estados nos quais elas se encontram, etc. Sabemos que tudo isso não está separado, mas constitui partes componentes de um todo único. Vejamos o “quadro” que a primeira estrofe apresenta:

A primeira estrofe institui uma situação que remete à presença de alguém, de um eu, que está expressando um desejo de banhar-se não em águas límpidas ou puras, mas, isto sim, nas águas límpidas ou puras. Fazendo um contato com o segundo estrato, podemos dizer que a opção pela junção da preposição em com o artigo a, em vez do uso da preposição isoladamente, parece indicar uma maior intimidade entre o sujeito lírico e as águas de que nos fala. Essas águas, portanto,  já lhe são familiares. Apenas talvez não lhe sejam conhecidas. Logo a seguir, no terceiro verso, o eu lírico declara-se a mais baixa das criaturas. Uma criatura que, completa no quarto verso, se sente sórdida. Talvez possamos dizer que o que se afigura — apesar de necessitarmos ainda das outras duas estrofes para validar este raciocínio —  é a representação de uma situação de busca, de cura: alguém (o eu lírico) que se sente sórdido busca nas águas límpidas e puras que ainda não conhece, mas que lhe são familiares, a cura para sua sordidez, para sua baixeza, sua pequenez. Essa representação pode ser comprovada pela retroversão apresentada nos versos cinco, seis e sete da segunda estrofe. Nesse salto para trás, indicado pelo uso do pretérito perfeito, e não do presente do indicativo que constituía a primeira estrofe, o sujeito lírico parece comentar atitudes, por ele já efetuadas, que representam um estado de arrependimento, de erronia e de flagelo — situações que ele, agora quer evitar ou sanar através do bálsamo das águas límpidas e puras (percebe-se, assim, que o poeta usou da técnica do in media res). A segunda estrofe, contudo, fecha-se com um verso, o oitavo, que está novamente no presente do indicativo, ou seja, retorna ao agora do eu lírico, ao seu momento de pedir uma cura por seus erros, e retorna com um elemento muito forte: a invocação de Deus, de um meu Deus, uma entidade supra-humana, excelsa. É a invocação de Deus que permite que o mundo representado no poema reflita seu componente essencial, já antevisto pelo próprio título: a contrição, o arrependimento, o apelo, a necessidade do perdão ( parece que, em termos de análise, com essa última colocação, já ultrapassamos o terceiro estrato, pois o quarto aqui se imiscui). Essa atmosfera, de certa forma, religiosa,  estende-se à terceira estrofe. Nela, o sujeito lírico não invoca propriamente Deus, mas as vozes da infância, utilizando-se, para tanto, de um imperativo na segunda pessoa do plural (contai), que traz uma forte marca do discurso religioso. Talvez possamos dizer que essas vozes da infância, a quem o sujeito lírico roga que contem a história da vida boa que nunca veio, sejam as vozes de um inocência perdida, vozes que, justamente por serem inocentes, ainda guardam muito de um quê de anjos, puros e límpidos como as águas da primeira estrofe (esse raciocínio já invade o quarto estrato). É a história contada por essas vozes que o eu lírico deseja cair ouvindo no calmo seio da eternidade, que, por sua vez, pode ser visto como uma metáfora para o encerramento da finitude da vida e, simultaneamente, para a passagem a outro estado temporal, cuja característica é a eternidade, o infinito.

Os aspectos esquematizados, que formam o quarto estrato, são expressos mais pelo subtexto do poema do que pela forma. São, digamos, o conteúdo concreto, visível de nossas observações. São extraídos, também, do uso figurado da linguagem ou de sonoridades que os possam evocar. Deveriam, na estrutura deste trabalho, constituir a segunda parte do segundo passo do qual falamos na introdução. Pensamos, contudo,  já  tê-lo coberto na análise feita no parágrafo anterior, quando além de nomear as objetividades representadas, começamos, aqui e ali, a dar a elas uma extensão maior de conteúdo,  uma espécie de informação que vai além do que está dito no texto. Em outras palavras, segundo Bordini — em síntese nossa —, “captamos esquemas contidos nos aspectos para gerarmos uma autodoação do objeto, e é também através desses  aspectos que acrescentamos à significação da palavra, outra a ela não pertencente”. Os aspectos também são sugeridos pelos dois primeiros estratos, que agora começamos a analisar.

O  primeiro elemento que chama a atenção é o ritmo do poema, sua cadência. Na primeira estrofe, primeiro verso, temos um decassílabo… [o trabalho continua, mas creio que temos o suficiente aí acima]

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6 respostas para Alguém ainda estuda Roman Ingarden?

  1. Emilio Davi disse:

    Olá, Vinícius.
    Estou iniciando estudos sobre o polonês. Além das obras “A obra de arte literária”, do próprio Ingarden, e “Fenomenologia e teoria literária”, de Maria da Glória Bordini, vc pode me indicar outras? Pode ser artigos, teses, dissertações.
    Aguardo. Até mais, Emilio.

  2. Vinicius disse:

    Prezado Emílio,
    O que disponho de Ingarden é a edição em inglês da obra citada aí acima e uma pequena tradução, feita pelo Curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, de um opúsculo (22 páginas) intitulado “A bidimensionalidade da estrutura da obra literária”. Se você precisar deste opúsculo, deixe seu e-mail aqui que eu lhe envio uma cópia “escaneada”.
    Boa sorte nos estudos,
    Vinicius

  3. Emilio Davi disse:

    Gostaria que me enviasse o opúsculo, Vinicius. Quanto as obras que citei, eu as tenho, mas o opúsculo não. Muito obrigado pela atenção dispensada. Ah, um pedido: se for possível, gostaria de ler também a parte não publicada de sua análise. Ela vai tratar mais especificamente dos estratos fônico-linguístico e das unidades significativas, correto? Seria muito bom pra mim, pois com ela, eu teria uma noção de completude da análise. (Vinícius, quanto a questões de autoria, peço sua confiança na minha pessoa). Até mais, Emilio. e-mail: emiliodavi@mail.com

  4. Vinicius disse:

    Ok quanto ao opúsculo. Assim que encontrar tempo, escaneio (o e-mail é aquele mesmo ou é gmail?).
    Quanto à minha análise, é algo pessoal, não muito relevante. Eu teria de revê-la antes de enviar… Onde você estuda? E em que nível está? Mestrado?

    Um abraço,
    Vinicius

  5. Emilio Davi disse:

    Olá, Vinícius.
    O e-mail é aquele mesmo (emiliodavi@mail.com). Quanto a mim, estudo na UFRGS (doutorado interinstitucional) e sou docente na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul). Preciso do Ingarden para analisar poemas, e o seu texto me ajudou a ter algumas ideias diferentes. Por aqui, no MS, não encontro praticamente nada sobre ele, nem pessoas que o estudam. Consegui, na rede eletônica, alguns poucos artigos sobre o assunto, mas sinto necessidade de ler mais.
    Obrigado. Até mais, Emilio.

  6. Vinicius disse:

    Emilio,

    Enviarei um e-mail a você.

    Vinicius

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