Madame Bovary, O Primo Basílio e Dom Casmurro – vai encarar?

Lembro-me de ter lido, faz cerca de dez anos, o ensaio de Silviano Santiago intitulado “Eça, autor de Madame Bovary”. O texto do crítico mineiro tem já seus 35 anos, mas ainda sobrevive nos cursos de Literatura Comparada, tenho certeza.

Não aprecio esse texto de Santiago, por razões que enumerei em outra encarnação, quando ainda cursava doutorado. Mas o fato de eu não apreciar o pós-modernismo não vem ao caso. E nem é o mote deste artiguinho aqui. O que me importa é que para acompanhar a linha de raciocínio do ensaio de Santiago, ainda que dele discordemos, tenhamos de ler, no mínimo, três romances. E isso não é pouco: Flaubert torna-se pudico diante da estética (e da ética) de baile funk carioca que hoje a muitos encanta, e vira uma espécie de “reverendo Flaubert” para os adolescentes de 17 anos que ingressam na faculdade e vivem, concomitantemente, talvez a mais pura libertinagem (burra) da história da humanidade.

Porém, mesmo que não gostemos da vulgaridade de tais bailes e sejamos mais – digamos – discretos, teremos de reconhecer que Madame Bovary, o livro, excluída a técnica de Flaubert, que é magistral, conta-nos mesmo uma história enfadonha e datada. “O Primo Basílio”, por sua vez, é um dos romances mais soporíferos que já li, excluída novamente a técnica do escrever que, em Eça, também sobrevive. Diria apenas – e posso estar errado – que o escritor português não tem aquela habilidade do corte cinematográfico avant la lettre que tinha Flaubert, aquele “show don’t tell” que causa surpresa ao levar o leitor a percorrer anos em uma só linha, como nas passagens de Carlos Bovary à idade adulta ou de Ema à condição de mulher casada. Eça de Queirós sempre me traz à mente aquela minudência descritiva que logo nos leva aos braços de Morfeu. Machado, em “Dom Casmurro”, sobrevive pela ironia.

A matriz francesa do romance oitocentista, reconheçamos, portanto, deixa muito a desejar ao olho de hoje. Revela pouco. O olho de ontem não poderia mesmo ser o olho de hoje, eu sei, mas, Flaubert e Eça (mais do que Machado) grudaram o romance demasiadamente à ética pequeno-burguesa de sua época e, com isso,  digo eu, como diriam os jovens em sua elevada linguagem, “perderam, playboy”.

“Perderam” porque, curiosamente, um Gogol, que é também do Oitocentos, não faz isso. Há mais humor, mais deboche, mais ficção, no bom sentido do termo, nas obras do ucraniano. Talvez seja, por isso, um autor de maior fôlego. Menos realismo comezinho, mais imaginação cômica. Mas essa é outra história e, sobre o cômico em Gogol, falo em outra oportunidade, enquanto vocês aí, leitores de meia pataca, tratam de travar contato com Tchítchicov e Akaki Akakievitch.

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12 respostas para Madame Bovary, O Primo Basílio e Dom Casmurro – vai encarar?

  1. Sarah Faria disse:

    Olá vinicius, preciso de uma luz, eu curso o 2º ano do ensino médio , e vou apresentar um trabalho cujo o tema é ”o adultério na literatura através dos tempos”. Gostaria muito que você postasse algo sobre esse assunto. Obrigada ^^)

  2. Vinicius disse:

    Desculpe, Sarah. Desconheço o tema.
    Abraço,
    Vinicius

  3. Bianca disse:

    Eu acho que Machado vai muito além. Não pela papagaice crítica de que Machado é Machado, mas por Dom ser muito menos, infinitamente menos um romance circunscrito ao recorte temático da denúncia de costumes, quase uma bandeira na obra de Eça. A questão da impossibilidade de um completo crédito ao narrador, a crise narrativa que Dom instaura faz a obra saltar, e muito.

    Uma crise na fé da diegese, como em Dom, só vai ecoar de novo em São Bernardo. E Graciliano nos fustiga imensamente com o nosso próprio preconceito de classe. É muito mais crível a desconfiança de Santiago do que a de Honório, porque achamos mais crível que um homem como Paulo Honório é incapaz de realmente entender o mundo à sua volta. As agruras de vida enfrentadas por Paulo Honório continuam, por que o leitor continuará vendo-o com a eterna desconfiança de que ele está ocupando um lugar que não lhe pertence.

  4. Vinicius disse:

    Seja bem-vinda, novamente, Bianca. Concordo inteiramente com o primeiro parágrafo do teu comentário. Nada a acrescentar, portanto. Quanto ao segundo, acho válido o salto que dás, de Machado a Graciliano. Como sabemos, contudo, Paulo Honório não tem a profundidade psicológica de Bentinho. Ainda assim, há muito nele (PH) que aprecio, como personagem. E boa parte do lugar que ele ocupa (talvez tenhamos uma discordância aqui) creio pertencer a ele, sim, apesar de sua rudeza. O poder, infelizmente, é privilégio de quem sabe passar por cima dos outros (ainda que depois, às vezes, venha o remorso). Agora vou até o teu site ver o que andas escrevendo…
    Um abraço,
    Vinicius

  5. Bianca disse:

    Acho que a discordância sobre a profundidade psicológica de PH é a única nas nossas leituras. Eu o sinto como um personagem muito mais complexo do que Bentinho. O recorte burguês de Machado deixa seus personagens livres para se relacionarem com sua psique sem ter que lidar com as pressões da sobrevivência. E são justamente as marcas desses conflitos entre o sobrevivente e o ente, o se, que fazem de PH um homem profundo. É o paradoxo da obra de Graciliano. Se PH fosse o sobrevivente bruto, sem conflitos, ele não extravasaria a sua necessidade de revisar sua própria história. Assim como Bentinho e como Riobaldo ele precisa desse divã que é sua própria narrativa. Um homem desconectado de sua humanidade jamais optaria por isso.

    Quando mencionei a questão de classes que Graciliano nos faz enfrentar me referi à credibilidade que instintivamente damos ao narrador. No primeiro contato, creio que o leitor de Dom, de maneira geral, dá crédito a Bentinho e olha Capitu com desconfiança. Mas o leitor de S. Bernardo dá crédito a Madalena e olha PH com desconfiança. E essa desconfiança não é baseada na análise do comportamento de Madalena, mas sim de quem constrói a narrativa. Se PH fosse um burguês, teríamos tanta certeza assim de que Madalena nunca lhe fora infiel, que seus ciúmes eram infundados?

    Evidentemente, não afirmo que o caso seja apenas esse, nem que essa seja a questão fundamental em S. Bernardo. Mas gosto de comparar as duas obras e o silenciamento feminino delas. Quando PH silencia o conteúdo da carta de Madalena eu só me recordo de Otelo sufocando Desdêmona. E o porque de Bentinho interpretar, ao assistir Otelo, que Capitu deve morrer porque esse é o fim de Desdêmona sempre me leva a questionar o seu papel com um santo Iago – e quem seria o Otelo da narração.

    É sempre bom debater aqui. Abraço!

  6. Vinicius disse:

    Sua resposta tem três longos parágrafos e inúmeros desdobramentos… Você quer me matar? Estou em fase macunaímica!
    Bem, há afirmações no primeiro parágrafo que não são passíveis de contestação, como o fato de você dizer que sente que Paulo Honório é muito mais complexo que Bentinho. Como posso contestar um sentir? Quero dados. E para tê-los você precisaria enumerá-los, ou eu precisaria reler os romances para apanhá-los. Depois, você diz que os personagens de Machado estão “livres para se relacionarem com sua psique sem ter que lidar com as pressões da sobrevivência”. A afirmação é arriscada: não se aplica, por exemplo, ao protagonista de “Pai contra mãe”.
    A seguir, você discorre sobre a profundidade de Paulo Honório, ingressa no comparativismo e chega, finalmente, ao silenciamento feminino nas duas obras (Dom Casmurro e São Bernardo). Confesso que não conseguiria atender a essa rápida transição no objeto de seu comentário/tese sem fazer inúmeras pausas e ponderações… Sou metódico e minucioso, e tenderia a esmiuçar cada um dos vínculos que você faz, aos poucos, mas isso daria um livro. Além disso, estou um pouco velho. Vocês, jovens, são mais ágeis. Escrevam os seus (livros). Finalmente, sobre a relação com Shakespeare, nada a acrescentar: é mesmo uma hipótese bem aceita na academia.
    Por fim, Bianca, obrigado pela leitura. Peço desculpas pela demora em responder.
    Grande abraço,
    Vinicius

  7. Bianca disse:

    Vinicius,

    Desculpe a mim pela prolixidade e culpe à academia: coisa de quem defendeu a dissertação ainda nesta última semana.

    Realmente a afirmação generalista sobre os protagonistas machadianos é arriscada, mas pelos menos no recorte dos dois principais romances se aplica. Contento-me com a restrição a eles.

    A ideia do livro eu venho curtindo há muito, muito tempo. Quem sabe depois do doutorado? 🙂

    Abraços!

  8. Vinicius disse:

    Parabéns pela defesa da dissertação! Quando escrever o livro, avise. Apesar da fase macunaímica, e da preguiça a ela inerente, continuo a ler.
    Grande abraço,
    Vinicius

  9. Rapaz, se entendi bem O Primo Basilio e Dom Casmurro, o primeiro trata do audlterio -como Madame Bovary. Mas Machado vai além , pois ele trata da Dúvida na cabeça do homem: Capitu traiu ou nao traiu?

  10. Vinicius disse:

    Eliezer,
    Essa sua pergunta ninguém sabe responder…
    Abraço,
    Vinicius

  11. Cléia Cardoso disse:

    hahaha gente estou amando esse blog/chat/site
    Eu como pobre mortal de pouco conhecimento literário(mas nem por isso pouco amor á Literatura), amo o Machado. O Dom casmurro então eu acho de uma profundidade incrível. Tudo aquilo que os personagens nos traz enquanto percepção. Todo o desconforto, a dúvida sobre a traição: não seria o Bentinho a trair a Capitu com tamanha desconfiança?; ainda: não teria ele uma certa atração por Escobar, e, em decorrência disso não soube lidar com seu casamento?
    O Primo Basílio é mesmo meio enfadonho, entretanto possui uma das passagens mais lindas que já li. “tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente, era a primeira vez que alguém lhe escrevia aquelas sentimentalidades…” , Madame Bovary eu não li(ainda).
    Beijo para vocês, adoro as discussões

  12. Vinicius disse:

    Cléia, obrigado pela atenção! Eu parei de escrever aqui, por compromissos familiares. Porém, comentários como o seu fazem-me pensar em voltar… Muito obrigado por ter lido o texto. Vou até relê-lo, só por causa de suas risadas. Um abraço. Vinicius

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