O futebol conta uma história

Não creio haver nada de original em dizer que o jogo de futebol, de certa maneira, assemelha-se a uma narrativa. Nele, uma história é contada a partir de um ponto zero, ou melhor, de um zero a zero, estado inicial que pode ser alterado por meio de gols, os quais desatam nós, e são frutos, muitas vezes, de intricadas peripécias perpetradas pelos jogadores, os personagens da trama. É verdade, também, que o placar ou estado inicial pode manter-se inalterado decorrido o tempo regulamentar. Quando isso acontece, não é porque a narrativa, ou o jogo, não andou, mas apenas porque não houve desfecho favorável para o protagonista, ou para o antagonista, dependendo do ângulo que se queira tomar.

Se o jogo de futebol é, em si mesmo, uma forma de narrativa, mais ainda o é aquilo que chamamos de “campeonato”, que, por sua vez, é uma seqüência de jogos, ou capítulos, organizados e amarrados de maneira tal que definirá, ao final da competição, a equipe vencedora, encarnação incontestável do herói, o qual, apesar dos percalços, a todos derrota ao longo do tempo. O time vencedor de um campeonato recebe seus prêmios, é louvado nacionalmente (quando a competição é, naturalmente, nacional) e desfruta, por um ano, do título conquistado, até o final de uma nova edição do “romance” que é o futebol. Eis, em resumo muito breve e simples, o relato interno do processo.

Externamente, em seus, digamos, reflexos psicológicos e sociais, percebe-se muito claramente o quanto o rito futebolístico acirra ou acalma o ânimo, a alma, dos homens e, mais hodiernamente, das mulheres. É claro que sob a vibração desencadeada pelo futebol subjazem, represados, instintos guerreiros e primitivos da mais alta animalidade, controlada pela capa civilizatória de que nos revestimos desde o final do neolítico. Mas o que importa é a prevalência do fingir, da sublimação desse instinto…

No caso específico do futebol brasileiro, que há muito acompanho, a sublimação é notável. Os torcedores, não raro cidadãos que vivem miseravelmente em muitas esferas da vida (quando digo “vivem miseravelmente” não me refiro só à esfera econômica. Coloco-me, portanto, em posição contrária ao senso comum, que atrela miséria obrigatoriamente à condição econômica. É preciso lembrar que há também miséria de outra ordem. Às vezes, o cidadão é economicamente próspero, mas leva toda uma existência carente de educação formal, cultura filosófica, histórica, jurídica etc., isto é, sob a mais rotunda ignorância) – os torcedores (dizia eu, antes de perder-me na digressão parentética que há pouco se encerrou e em que, percebo, há destilação de algum veneno…) – os torcedores –  cala-te, segunda voz! – causam ao olhar arguto do observador razoavelmente instruído um misto de compaixão e espanto. Compaixão, porque o aspecto fundamental do jogo, qual seja, seu caráter ficto, é tomado como realidade vicária, substituta da vida em si, que resta esquecida. Espanto, pela capacidade que tem o jogo de fazer com que coloquem o fingir acima do real e instaurem assim, sem peias, um mundo nas nuvens, nele vivendo com prazer inatingível e invejado pela razão fria.

É de se ressaltar, ainda, o quanto o mundo das Comunicações vampiriza o fenômeno acima citado, alimentando-se dele – em estado puro – e excretando-o pela via suja da publicidade, em que, de maneira cabotina e asquerosa ficam gravadas as predileções por este ou aquele clube (em geral, o de maior potencial de “retorno” [palavrinha abominável] financeiro, já que para as animálias que administram grandes empresas tudo se resume a lucro). Pode-se dizer que os humanos que mais contribuem para transformar o futebol em circo de altas cifras – e mais nada – são aqueles cujos ideais pessoais são tão concretos quanto o ordinarismo raso das mercadorias das prateleiras dos supermercados.

Pessoalmente, enfim, confesso que, quando posso, ainda me ponho diante da TV aos domingos, um pouco à força, um pouco irracionalmente. Um romântico diria que a aura poética do futebol ainda resiste nos lares do torcedor brasileiro… Mas não seria a troca do estádio pelo sofá um indício do fim? Diante do aparelho, em meio a comerciais de sabão em pó e de cerveja, pergunto-me sempre se a paixão continuará até o próximo campeonato, enquanto, ao meu lado, no conforto de minhas melhores almofadas, o patético cava lugar. Para mandá-lo embora, apelo ao gol da foto acima. Obrigado, Falcão; obrigado, Dario; obrigado, Escurinho.

 
Este texto é dedicado a todos os heróis que jogaram no Sport Club Internacional nos anos 1970. Escurinho morreu ontem.
Aqui, o gol:
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