Escrito à sombra de um obelisco

 obelisco

 

O velho que me olha com olhar de avô, não é, é claro, meu avô. Muito menos meu pai, morador hipotético e emérito desta cidade. Estou à sombra de um ícone grego, escrevendo em português, falando em português, às vezes em fraquíssimo espanhol. Aqui não me importa o que lhes digo (e não lhes importa tampouco o que digo). Tudo bem: mesmo no Brasil muitas vezes me entendem em grego, isto é, não me entendem. El greco soy yo (mas não insiram palhaços pós-modernos em meus quadros), e contudo não falo grego nenhum… Os vínculos se me perderam por aqui, nesta capital de larga província: aos 40, não consigo cantar Buenos Aires como se fosse um juvenil pelotense-árabe a chorar afetadamente o que não é seu, usando palavras que não são suas. Só caminho por largas avenidas, não desço a subterrâneo algum e chamo subterrâneo de metrô. Agora, até as memórias de Dostoiévski me enjoam. Paradoxalmente, se me perguntarem o que sou, de onde sou e o que faço sentado nesta sombra, direi, com linguagem que não é minha (e nem de Bioy Casares): Soy el último hombre de Uqbar! Um patético homem de ficciones! (mas será que me entenderão?). A sombra do obelisco! – que lugar agradável! É aqui que me esqueço de que há pouco andava por una autopista, com a voz portenha de um já velho portenho maluco de brancos bigodes um Garcia demolidor de hoteles  gritando no discman imaginário de meu ouvido afetivo. Esqueço-me também de que no fluxo rápido da rodovia ousara olhar duas ou três vezes para dois ou três motoristas velhos, para ver se por acaso e somente por acaso (“o acaso é o álibi dos imbecis”) num deles não enxergava o tal morador emérito, que dizia gostar tanto da Argentina e que viria para cá, viver. Pois bem, não o achei. E senti-me envergonhado por ter olhado. Levanto-me, pego a Corrientes, compro dois ou três pulôveres de lã crua, mais dois ou três livros, seguro firme a mão de quem me ama e estou pronto para voltar.

Escrito em 14/9/2006
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