Mensagem ao filho que não tenho

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Calma, filho, o senso estético não está de todo perdido; está apenas instrumentalizado sob a forma da mercadoria. Os bárbaros de hoje, com seu poder radicalizado na mera posse, ignoram qualquer proposição de cunho filosófico sobre o que pode ou não pode representar o belo, sobre o que determina, no objeto, este ou aquele índice de beleza, ou sobre o que nos faz, subjetivamente, emitir este ou aquele julgamento. No belo como mercadoria prevalece a norma estabelecida pelo embotamento do senso comum, e os julgamentos subjetivos passam a ser meras cópias um dos outros, dando ilusão de objetividade, quando são apenas reflexos da injunção de um sistema cultural deveras interessado na manutenção de determinados jogos de poder. O senso estético de hoje, atrelado em muito ao prazer intransitivo, seja ele oriundo de um iate ou do corpo curvilíneo de uma modelo, é um pálido retrato de um tempo em que a arte ainda se impunha. Nesse senso estético estéril de hoje só há a busca da satisfação imediata, só há a prevalência do baixo ventre e do bolso. Mas escuta, filho, nem a beleza corporal, nem o conforto material são reprováveis. Reprovável mesmo é a burrice. Continua tua caminhada.

Texto escrito em 10/5/2005
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