Herman Melville, tradução do trecho inicial de “Pierre: or the ambiguities”

Nota: Este romance de Melville também não foi traduzido ao português. Aqui, então, apresento, nos idiomas de Shakespeare e Camões, o início da trama, em que o escritor oitocentista nova-iorquino pinta romanticamente o amor adolescente. A abertura é um clichê, como a frase que acabo de escrever. Depois as coisas esquentam, mas os editores brasileiros e portugueses não sabem. Os tradutores, pelo menos, sabem.

 

Pierre

 Book I. Pierre Just Emerging From His Teens 

Pierre

 Livro I. Pierre recém-saído da adolescência

  

I.

 THERE are some strange summer mornings in the country, when he who is but a sojourner from the city shall early walk forth into the fields, and be wonder-smitten with the trance-like aspect of the green and golden world. Not a flower stirs; the trees forget to wave; the grass itself seems to have ceased to grow; and all Nature, as if suddenly become conscious of her own profound mystery, and feeling no refuge from it but silence, sinks into this wonderful and indescribable repose.

 I.

  Há algumas estranhas manhãs de verão no campo, quando o hóspede vindo da cidade cedo caminha pela pastagem e maravilha-se, como em transe, com um mundo verde e dourado. Flor alguma se mexe, as árvores esquecem-se de balançar, a própria relva parece ter cessado de crescer e toda Natureza, como se repentinamente tivesse ficado consciente de seu profundo mistério, não buscando refúgio algum que não o silêncio, mergulha em um maravilhoso e indescritível repouso.

 

Such was the morning in June, when, issuing from the embowered and high-gabled old home of his fathers, Pierre, dewily refreshed and spiritualized by sleep, gayly entered the long, wide, elm-arched street of the village, and half-unconsciously bent his steps toward a cottage, which peeped into view near the end of the vista.

Tal era a manhã de junho, quando, ao sair da velha e alta casa de seus pais, cercada pela vegetação, Pierre, ainda sob o efeito espiritualizante e renovador do sono, alegremente penetrou na longa e ampla rua da vila, toda ela rodeada por olmos, e, semi-inconscientemente, direcionou seus passos para uma cabana, que se revelava ao final da paisagem.

 

The verdant trance lay far and wide; and through it nothing came but the brindled kine, dreamily wandering to their pastures, followed, not driven, by ruddy-cheeked, white-footed boys. As touched and bewitched by the loveliness of this silence, Pierre neared the cottage, and lifted his eyes, he swiftly paused, fixing his glance upon one upper, open casement there. Why now this impassioned, youthful pause? Why this enkindled cheek and eye? Upon the sill of the casement, a snow-white glossy pillow reposes, and a trailing shrub has softly rested a rich, crimson flower against it.

Aquele transe verdejante perdurou; e por ele nada passava, a não ser o gado malhado que de maneira sonhadora vagava pela pasto, seguido, mas não conduzido, por meninos de bochechas vermelhas e pés brancos. Tocado e enfeitiçado pelo encanto desse silêncio, Pierre aproximou-se da cabana e levantou os olhos, parando prontamente e fixando seu olhar em uma janela do andar de cima, que estava aberta. Por que essa pausa juvenil e apaixonada agora? Por que esse olhar e rosto inflamados? Por sobre o parapeito da janela, um travesseiro brilhoso, de um branco cor de neve, repousa e, nele, um arbusto suavemente deposita uma flor escarlate.

 

Well mayst thou seek that pillow, thou odoriferous flower, thought Pierre; not an hour ago, her own cheek must have rested there. “Lucy!” “Pierre!”

“Bem podes querer este travesseiro, ó flor odorífera”, pensou Pierre; “não faz uma hora que o própria rosto dela deve ter descansado ali”.

– Lucy!

– Pierre!

As heart rings to heart those voices rang, and for a moment, in the bright hush of the morning, the two stood silently but ardently eying each other, beholding mutual reflections of a boundless admiration and love.

Como um coração corresponde a outro, aquelas vozes corresponderam-se e, por um momento, no esplendor quieto da manhã, os dois, de maneira silenciosa, mas ardente, entreolharam-se, percebendo reflexos mútuos de uma admiração e de um amor sem limites.

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2 respostas para Herman Melville, tradução do trecho inicial de “Pierre: or the ambiguities”

  1. René Bucks disse:

    Gostei da sua tradução. O livro Pierre parece tão importante quanto Moby Dick e de certa forma retoma a problemática de Moby Dick. Continua sua tradução! Vale a pena.

  2. Vinicius disse:

    Obrigado, René. Se alguma Editora se interessasse, eu iria até o fim.
    Um abraço,
    Vinicius

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