Literatura e filosofia: prolegômenos [Parte 1]

  

Nota: Apresentarei aqui, aos poucos, parte do capítulo inicial de minha tese, defendida em 2007 no Instituto de Letras da UFRGS.
A tese tem como título “Jornada rumo ao crepúsculo: uma leitura nietzschiana de Moby-Dick”. “Crepúsculo” diz respeito ao “Crepúsculo dos ídolos”, de Nietzsche, em tradução de Paulo César de Souza (atentem para a construção do adjetivo “nietzschiana”, com “i”, e não “e”, de acordo com o que ensina a gramática, ainda que pareça estranho aos olhos — e ao ouvido). A obra de Melville analisada é, naturalmente, a indicada no título. O texto abaixo é o mesmo que se encontra no original. As notas de rodapé estão ao final do texto e os números que apontam para elas vêm entre colchetes, no corpo do texto (não foi possível sobrescrevê-los). Há também, aqui e ali, algumas perdas na formatação, decorrentes das possibilidades de edição oferecidas pela plataforma do WordPress.

 

 

1 – FUNDAMENTOS

Há épocas em que o homem racional e o homem intuitivo ficam lado a lado, um com medo da intuição, o outro escarnecendo da abstração. [1]
Nietzsche
1.1 LITERATURA E FILOSOFIA: FORMAS ONTOLÓGICAS DE EXPRESSÃO
1.1.1        O discurso literário e o discurso filosófico: convergências

Não há dúvida de que, no mundo Ocidental, aquilo que se costuma chamar de Literatura deita suas raízes no que se conhece como discurso mitopoético. Tal discurso contrapõe-se ao que se convencionou nomear como discurso racional, cuja formação primeira se dá, segundo a tradição, a partir dos filósofos pré-socráticos ou físicos. Anterior ao discurso racional, o discurso mitopoético (re)aparece, na modernidade, sob várias formas, dentre elas o conto, a novela e o romance – formas tipicamente narrativas e em sintonia, ainda que longínqua, com o epos grego.

Talvez a característica fundamental por que o discurso mitopoético ou literário – e aqui já se leva essa forma à sua amplitude máxima em terminologia moderna – seja percebido é a do discurso que não afirma diretamente verdade nenhuma, sendo (abstraídos os demais gêneros) convencionalmente recebido como narrativa ficcional e estando, por isso, isento da acusação de mentira – algo já apontado por Sidney, ainda que não em relação à narrativa, em momento tão distante quanto o final do século XVI na sua Defesa da poesia: “De todos os escritores sobre a face da Terra, o poeta é o que menos mente e, ainda que quisesse, ser-lhe-ia impossível fazê-lo (…). Ninguém seria tão simplório a ponto de dizer que Esopo mentiu nas suas fábulas” (SIDNEY, 2000, p. 120).

No fundamento desse raciocínio, está presente a dicotomia verdade/ficção, cujos termos caberiam, segundo preceito e vocabulário aristotélicos, respectivamente à história e à poesia, uma tratando do que de fato aconteceu e, a outra, do que poderia ter acontecido [2]. Além disso, ainda nos termos aristotélicos, a poesia, em contraposição vantajosa em relação à história, trataria do universal, ao passo que esta se ocuparia do particular [3].

Procedimento classificativo e hierárquico similar ocorre no livro V de A República, em que Platão faz a distinção entre conhecimento logicamente articulado (episteme) e opinião (doxa) [4]. Tal similaridade, que se propõe aqui, reside no fato de que a poesia gozaria de uma certa prevalência em relação à história, tanto quanto a filosofia – tida como a detentora do verdadeiro conhecimento das idéias ou formas – gozaria sobre a simples opinião, mero reino do sensível (assim, poesia : história :: filosofia : opinião). Pelo fato de a poesia dar acesso ao universal (aquilo que se justifica pela conexão causal que une os acontecimentos narrados de maneira organizada e necessária), e porque a filosofia dá, ou pretende dar, acesso ao absoluto, ambas teriam algo em comum – uma certa superioridade. O necessário (no sentido de “inescapável”, “obrigatório”), na poesia, é tão presente quanto o mesmo caráter necessário que o mundo apresenta a quem dele tem consciência e sabe como exprimi-la (tal consciência) em linguagem conceitual [5].

A poesia é, portanto, uma forma de organizar e tornar necessário o que antes não se apresentava organizado e nem de maneira necessária, tanto quanto a filosofia, como discurso que visa ao conhecimento de tudo o que há, também é uma forma de organizar e sistematizar o que está dado na experiência e no mundo, conferindo-lhe certa necessidade ideal.  Essa superioridade do discurso poético e do discurso filosófico implica a existência – pelo menos teoricamente – de uma inferioridade discursiva, representada, em Aristóteles, pelo discurso da história e, em Platão, pela simples opinião. História e opinião, assim, mostram-se carentes de acesso a um saber pretensamente ontológico que somente a poesia e a filosofia teriam o privilégio de desfrutar. Essa pretensão ontológica da filosofia e da poesia é o que as distinguiria dos demais discursos, tornando-as, em certo sentido, convergentes.

1.1.2 Em busca da forma excedente dos discursos filosófico e literário

Quando, por meio da palavra escrita, se tenta construir um discurso mais propriamente racional, ingressando, portanto, em algo cuja característica principal seja a busca da definição clara do conceito, da verdade, parece não haver dúvida de que se esteja tratando de filosofia. O discurso racional, ou filosófico, de Platão em diante, não tem como característica primordial o voltar-se para o passado a fim de narrar o que aconteceu ou o que poderia acontecer, prerrogativas de uma linguagem narrativa; o modo verbal predominante do discurso filosófico é o indicativo [6], sua intenção é a afirmação de que este ou aquele raciocínio tem ou não sentido dentro de um balizamento eminentemente conceitual. É claro que a filosofia se faz muito em função do passado, isto é, da própria História da Filosofia, mas seu tempo verbal predominante, o presente, já revela uma maior preocupação com o conceito (portanto, com a atitude reflexiva, que leva o sujeito pensante a voltar-se sobre si mesmo visando à compreensão de seu hic et nunc) do que com o relato, que, por sua vez, é mais voltado à própria enumeração seqüencial do que ocorreu, mesmo quando a organização textual não é linear, como já bem atestam as narrativas antigas com início in media res.

Há, no entanto, filósofos cuja preocupação primeira não é criar um sistema próprio e que trabalham principalmente com outras formas, aparentemente assistemáticas ou que, pelo menos, repelem a sistematização pela sistematização, como, por exemplo, o aforismo [7], sofrendo, por isso, desaprovação de uma tradição filosófica para a qual o abandono do encadeamento inerente ao método sistemático de exposição não deixa de representar certo demérito. Para essa tradição filosófica, o sistema como que responderia à tendência de totalidade a que se inclina toda “verdadeira” filosofia, aspirante à unicidade – e o filósofo que escapa de tal lógica acaba por ocupar um lugar que, para a mesma tradição, se poderia dizer excedente, híbrido ou intermediário.

De outra parte, no campo estritamente narrativo do chamado discurso mitopoético, artístico, literário ou poético (a partir deste ponto usar-se-á um ou outro termo de maneira intercambiável), há escritores cujos registros fogem daquilo que se poderia chamar de “contar uma história”, ingressando em camadas mais profundas do pensamento humano que não são comumente vertidas em narrativas, mas sim em textos de natureza mais especulativa ou filosófica. Não resta dúvida de que esses escritores de narrativas jamais seriam classificados como filósofos. Porém, simplesmente chamá-los de escritores de ficção ou de simples contadores de história guarda em si, também, certo demérito. Assim, naquilo que deveria ser apenas narrativa, também se imiscui um traço excedente, um querer filosófico.

Notas:
[1] Assim continua o trecho de Sobre verdade e mentira no sentido extramoral: “(…) Enquanto o homem guiado por conceitos e abstrações, através destes, apenas se defende da infelicidade, sem conquistar das abstrações uma felicidade para si mesmo, enquanto ele luta para libertar-se o mais possível da dor, o homem intuitivo, em meio a uma civilização, colhe desde logo, já de suas intuições, fora a defesa contra o mal, um constante e torrencial contentamento, entusiasmo, redenção. Sem dúvida, ele sofre com mais veemência, quando sofre: e até mesmo sofre com mais freqüência, pois não sabe aprender da experiência e sempre torna a cair no mesmo buraco em que caiu uma vez. No sofrimento, então, é tão irracional quanto na felicidade, grita alto e nada o consola. Como é diferente, sob o mesmo infortúnio, o homem estóico instruído pela experiência e que se governa por conceitos! Ele, que de resto só procura retidão, verdade, imunidade a ilusões, proteção contra as tentações de fascinação, desempenha agora, na infelicidade, a obra-prima do disfarce, como aquele na felicidade; não traz um rosto humano, palpitante e móvel, mas como que uma máscara com digno equilíbrio de traços, não grita e nem sequer altera a voz: se uma boa nuvem de chuva se derrama sobre ele, ele se envolve em seu manto e parte a passos lentos, debaixo dela.” (NIETZSCHE, 1996, p. 60).
[2] “… Não é ofício de poeta narrar o que aconteceu [prerrogativa do historiador]; é, sim, o de representar o que poderia acontecer.”  ARISTÓTELES, Poética, 1451a, 36.
[3]  “A oposição entre poesia e história (que não se reduz à oposição entre verso e prosa […]) exprime-se agora pela oposição entre o acontecido e disperso no tempo (história) e o acontecível, ligado por conexão causal (poesia). ‘Acontecido’ e ‘acontecível’ são ambos verossímeis; mas só os acontecimentos ligados por conexão causal são necessários.” SOUSA, E. de (in: Poética, [Comentário], p. 286).
[4] “… Não estaremos certos em dar o nome de conhecimento ao pensamento do indivíduo que conhece, e o de opinião ao que simplesmente conjectura?” Platão, A República, 476d. Cf. também Hegel, Introdução à história da filosofia: “Este contraste entre opinião e verdade, que é muito surpreendente, e está em nosso tempo em pleno vigor, e é muito pronunciado, o encontramos também na história da filosofia, por exemplo, no tempo de Sócrates e Platão, numa época de decadência da vida grega, em que Platão põe em relevo a diferença entre doxa e episteme”. (HEGEL, 1986, p.18).
[5]  Obviamente, a teoria platônica não concordaria com essa tese, pois para Platão, “(…) os poetas são imitadores de um tipo inferior: lidam com um universo de impressões enganosas, ocupados que estão em olhar as sombras nas paredes da caverna. Eis que a mimesis diz respeito não ao conhecimento (episteme), mas à opinião (doxa): às coisas, não às idéias; ao mutável, não ao absoluto e ao eterno.” (DOBRÁNSZKY, 2002, p. 14)
[6] O presente do indicativo expressa uma força declarativa comum e desejável ao espírito científico. Temporalmente, sua validade excede o presente, conferindo perenidade ao que é dito. De acordo com a perspectiva segundo a qual a tarefa da filosofia é conceituar da maneira mais abrangente possível, tal tempo parece ser o tempo por excelência da filosofia.
[7] Pensa-se eminentemente em Nietzsche. Comentando os aforismos de “Vontade de poder”, Heidegger (1991a, p. 11) diz: “Estas passagens não são em sua maior parte fragmentos incompletos ou observações rápidas; ao contrário, são ‘aforismos’ – como são chamadas costumeiramente as anotações de Nietzsche – cuidadosamente trabalhados. Mas nem toda anotação é automaticamente um aforismo, isto é, uma expressão ou declaração que fecha absolutamente suas fronteiras a tudo que é inessencial, admitindo apenas o essencial. Nietzsche observa em algum lugar, porém, que sua ambição é dizer em um aforismo breve o que os outros em um livro inteiro… não dizem.” (tradução minha, a partir do texto em inglês). Segundo constatou-se nesta pesquisa, a citação de Heidegger remete a Crepúsculo dos ídolos, p. 100, § 5: “O aforismo, a sentença, nos quais sou o primeiro a ser mestre entre os alemães, são as formas da ‘eternidade’; minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz em um livro – o que qualquer outro não diz em um livro…”

 

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2 respostas para Literatura e filosofia: prolegômenos [Parte 1]

  1. Orácio Felipe disse:

    Você acha que a poesia pode mudar o mundo???

    Poesia e Evolução Humana
    Ensaio sobre a importância da poesia para a humanidade
    Autor: Orácio Felipe
    Descrição :
    Qual a contribuição da Poesia para a evolução da humanidade? Numa rápida abordagem conversamos com os leitores sobre o significado e importância da poesia para “derreter” as algemas que muitas vezes nos aprisionam. A poesia é também uma manifestação simbólica, que revela o universo do autor mas também influi no universo do leitor, proporcionando uma expansão da consciência. Em muitos casos leva até a revolução. Listando algumas poesias e músicas evidenciamos momentos onde a evolução cultural beirou a revolução e libertou. Quiçá pudéssemos alimentar nossos educandos com boa literatura desde tenra idade.

    http://www.clubedosautores.com.br

  2. Vinicius disse:

    Não, não acho.
    abraço,
    Vinicius

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