Uma tradução de Melville

Melville

Melville

Da série “Traduções prazerosas”: Trecho de carta de Melville a Hawthorne. O texto é de 1851. Em primeiro plano, o original (em preto) e, logo abaixo, minha tradução (em azul). A seguir, na cor verde e em frases numeradas, um comentário informal das escolhas formais deste tradutor para o primeiro período, e tão-somente para o primeiro período (se eu tivesse de apresentar as escolhas que fiz para todos os outros períodos, esta mensagem teria cinco páginas), do texto do mestre norte-americano.

Original:

In a week or so, I go to New York, to bury myself in a third-story room, and work and slave on my “Whale” while it is driving through the press. That is the only way I can finish it now, – I am so pulled hither and thither by circumstances. The calm, the coolness, the silent grass-growing mood in which a man ought always to compose, – that, I fear, can seldom be mine. Dollars damn me; and the malicious Devil is forever grinning in upon me, holding the door ajar. My dear Sir, a presentiment is on me, – I shall at last be worn out and perish, like an old nutmeg-grater, grated to pieces by the constant attrition of the wood, that is, the nutmeg. What I feel most moved to write, that is banned, – it will not pay. Yet, altogether, write the other way I cannot. So the product is a final hash, and all my books are botches.

Tradução:

Em mais ou menos uma semana, vou para Nova York, para enterrar-me numa sala de um terceiro piso qualquer e trabalhar em meu ‘Whale’ [Moby-Dick] e a ele escravizar-me, tudo isso ao mesmo tempo em que o livro começará a ser impresso, em série. É essa agora a única maneira pela qual conseguirei terminá-lo – tenho sido demasiadamente jogado para um lado e para outro pelas circunstâncias.  Aquela calma, aquela tranqüilidade, aquele silencioso espírito de grama que cresce sob o qual deveríamos sempre escrever – isso tudo, temo eu, raramente possuirei. Os dólares são minha desgraça; e o Diabo, maligno, está sempre a me sorrir, mantendo a porta entreaberta. Tenho um pressentimento, meu caro senhor – esgotar-me-ei e sucumbirei como um velho ralador de noz-moscada, ralado pelo atrito constante da casca, ou melhor, do alimento. O que me sinto mais inclinado a escrever é precisamente o que se bane – não dará lucro. Porém, escrever de outro modo, com certeza, não sei. Assim, o produto final me sai confuso, e todos os meus livros são uma barafunda só.”

 

Comentário sobre o primeiro período:

1. In a week or so, I go to New York, to bury myself in a third-story room, and work and slave on my “Whale” while it is driving through the press.

1. Em mais ou menos uma semana, vou para Nova York, para enterrar-me numa sala de um terceiro piso qualquer e trabalhar em meu ‘Whale’ [Moby-Dick] e a ele escravizar-me, tudo isso ao mesmo tempo em que o livro começará a ser impresso, em série.

Comentário 1.1: A maior dificuldade aqui foi manter o tom sintético do inglês em “third-story room”, que em apenas três palavras expressa a idéia de que se trata de um prédio urbano, em certa oposição ao tom rural sob o qual Melville escrevia em sua casa de dois andares, em Arrowhead. O terceiro andar não só é o elemento urbano, mas o elemento extra e indesejado que faz com que o autor se sinta deslocado e contrariado por ter de sair de casa para finalizar o livro. Penso que meu acréscimo, feito pela palavra “qualquer”, dá o tom de desprezo à vida urbana, implícito no texto original, mas não necessariamente percebido pelo leitor brasileiro com facilidade (talvez nem o leitor de inglês o perceba);
 
 Comentário 1.2: A repetição da preposição “para” e da conjunção “para” em “para Nova York, para enterrar-me” é proposital e estilística: respeita o duplo “to” (preposição e conjunção) de que Melville fez uso em “to New York, to bury myself”;
 
 Comentário 1.3: O mesmo procedimento de repetição está em “and work and slave”, em que Melville repete a conjunção “and”, com nítida intenção de demonstrar cansaço e impaciência. Em “e trabalhar em meu ‘Whale’ [Moby-Dick] e a ele escravizar-me” eu mantenho o processo, mas com dificuldade, por causa da regência dos dois verbos portugueses em questão ( “trabalhar” e “escravizar”. “Escravizar” exigiu a preposição “a”, que “trabalhar” não exige);
 
 Comentário 1.4:  Precisei esticar um pouco a última oração (“while it is driving through the press”), a fim de mostrar ao leitor brasileiro o processo de escrita de Moby-Dick, segundo o qual o autor se viu forçado a acabá-lo logo e à maneira folhetinesca (ainda preciso pesquisar mais sobre o caso);
 
 Comentário 1.5: “Whale” foi o nome que Moby-Dick recebeu em sua primeira edição. Meu recurso foi o de colocar entre colchetes o título usual, a fim de fazer com que o leitor brasileiro percebesse, sem esforço, de que livro se tratava. É claro que “Whale” (baleia) também dá a idéia de um trabalho gigantesco e monstruoso, mas isso se perdeu na tradução e na opção que fiz.
 Texto escrito em 17/11/2006
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4 respostas para Uma tradução de Melville

  1. galencar disse:

    Hum, depois avalia a primeira (e humilde) tradução que fiz de um poema: http://memoriale.wordpress.com/2008/12/25/enlaco-instrumental/

    se houver tempo e interesse, manda-me uns links com conselhos para essas coisas, quero traduzir outros…abçs

  2. Vinicius disse:

    Estou lendo agora sua tradução. Prometo uma análise e uma resposta aqui mesmo, amanhã. Um abraço!

  3. Vinicius disse:

    Guilherme: fiz o comentário sobre sua tradução lá no seu site, ok? Abraço.

  4. galencar disse:

    Boa tarde, Vinicius. Muito obrigado pela sua análise, estou muito feliz com suas palavras e com seu empenho. Primeiro, foi um erro sim, trata-se do verso em que encontrei mais dificuldade. Gostaria de uma sugestão sua para ele. Suspeitei mesmo que houvesse esse outro sentido que você citou para “might”. Quanto às rimas, eu preferi fazer uma tradução sem elas, mas já que você disse vou repensar em colocá-las (onde elas couberam sem esforço, como nos últimos versos eu até coloquei, antes era na verdade “ela precisa dizer”, mas percebi a rima e resolvi colocar)

    Um forte abraço, e feliz ano novo!

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