Uma introdução a Kierkegaard

Kierkegaard

Acreditem, prezados leitores, que, por influência de meu pai, e também por imposições acadêmicas bem posteriores, em um já longínquo Mestrado, estudei um pouquinho de Kierkegaard. Há boas traduções de sua obra em língua inglesa, publicadas pela Princeton. Em português, as coisas são mais complicadas, mas há gente que, sem dúvida, trabalha o autor com seriedade, até mesmo no Brasil.

Como, no mês passado, lidei, aqui neste site, com um heterônimo de Pessoa, lembrei-me do filósofo dinamarquês, afeito também aos heterônimos. Assim, abaixo, apresento um fragmento de um ensaio de cerca de 20 páginas que escrevi e não publiquei, pois não me rendi à lei do “publish or perish”, a qual, se me permitem a franqueza, acho um embuste. Por que escrever com pressa? Por que publicar 10 textos ruins, similares em seu objeto e com títulos “espertamente” diferentes, em vez de apenas um bom texto? Pressa, meus amigos, é coisa de jornalistas, nobres senhores que precisam estar, eles sim, atentos às maravilhas do cotidiano…

Mas voltemos ao meu pequeno ensaio: trata-se, penso eu, de uma introdução razoável ao autor dinamarquês, pois começa a abordar sua obra pelo “Diário de um sedutor”, texto cujo título já é, em si mesmo, atraente para uma juventude que tão bem vive nestes tempos de elevado êxtase estético; texto que é publicado por editoras de terceira categoria e a preço módico, ainda que, naturalmente, nada saibam de seu conteúdo subjacente.

Confesso que não tenho mais paciência para adotar o tom do sermão (como fazia quando era professor, repreendendo – com cordialidade, se é que me entendem – aqueles alunos desinteressados e não-leitores, presentes de corpo, mas não de alma, nos cursos de Letras) quando o assunto é tentar persuadir alguém à leitura de algum texto que julgo importante, ou que possa vir a ser importante como base para leituras mais profundas. Na verdade, hoje, não recomendo a leitura de Kierkegaard, mas do caderno de domingo da Zero Hora. É a mesma coisa.

 

Kierkegaard: sedutor ma non troppo

(fragmento de um ensaio não-publicado)

          A primeira preocupação deste ensaio diz respeito à delimitação de sua proposta: trata-se de estabelecer, desde o início, uma possível conexão entre a vida particular de um escritor e o seu texto. Não se ignora que tal fato é tarefa árdua, pois, com essa determinação biográfica em mente, é provável que a vocação mais “científica” da teoria literária seja afastada e que os leitores mais ortodoxos, justamente pela aversão à biografia, já aqui se retirem. Deseja-se-lhes, por educação, boa viagem. Para os que ficam, contudo, a aludida conexão será possível e pertinente porque o escritor aqui abordado não é exatamente um romancista, mas alguém que costuma freqüentar com maior propriedade, ainda que talvez sem grande envergadura, o cânone filosófico: Søren Kierkegaard. Para o filósofo dinamarquês, a incursão no literário cumpria uma função específica, isto é, não era desinteressada, não era uma finalidade sem fim, mas, ao contrário, uma necessidade que validava a configuração de um sistema (tal palavra será utilizada apesar  da aversão que Kierkegaard sentia por ela). Assim, quando escreve, sob o disfarce de um heterônimo, uma obra como o Diário de um sedutor, objeto mais específico deste ensaio, Kierkegaard o faz com uma segunda intenção — que transformaria toda sua obra estética em flagrante ironia dirigida à sociedade em que vivia e aos homens de sua época. Há, por isso, uma deliberação de cunho mais externo em sua obra do que, digamos, haveria na obra de um romancista (excluídos talvez aqueles que mais tarde se dedicariam, sob maior doutrinamento e com fé quem sabe até mais irracional, ao realismo socialista). Partindo-se do tema proposto, ainda que abdicando um pouco de sua relação com o mito de Don Juan e suas derivações, torna-se plausível começar por relacionar as condições de produção do texto do autor dinamarquês, intitulado precisamente Diário de um sedutor.

          Pode-se dizer o seguinte sobre a obra em questão: trata-se de um trabalho escrito sob  o disfarce de um heterônimo (como é sabido, o filósofo dinamarquês fez uso deste artifício em quase toda a sua obra). Esse heterônimo é  apenas um entre muitos:  O Diário de um sedutor é o último texto da primeira das duas partes de uma obra maior de nome “Enten/eller” (sem tradução para o português [em inglês: “Either/or”]). A obra é editada também por um heterônimo, Victor Eremita, autor do prefácio. Na primeira parte, quem escreve é outro heterônimo, simplesmente chamado de “A”, criador, por sua vez, de mais outro heterônimo, Johannes, autor do Diário de um sedutor. Na segunda parte, quem escreve é o Juiz Wilhelm, ou “B”. Além destes ainda há mais um heterônimo: “O pastor de Jylland”, que fecha o livro. A obra como um todo presta-se para que o pensador dinamarquês defenda a tese de que a existência se caracteriza pela escolha que o indivíduo faz entre uma atitude estética — apresentada em toda primeira parte e, especialmente, em Diário de um sedutor — e uma atitude ética — apresentada na repreensão da segunda parte  [Nota: “Em ‘Enten/eller o momento estético era um presente em luta com a ética. O momento ético era a eleição por meio da qual a gente se afasta do estético”. Kierkegaard, Søren apud REICHMANN, Ernani. Soeren Kierkegaard: textos selecionados. Curitiba: Editora Universidade Federal do Paraná. 1978. p. 39.]

         A criação dessa variada gama de heterônimos já indica o trabalho cuidadoso do filósofo em afastar de si próprio toda e qualquer criação de cunho estético. A idéia subjacente à utilização dos heterônimos é fazer com que, mais tarde, uma resposta ética pudesse ser elaborada, ou pelo próprio Kierkegaard, ou pela máscara de outro heterônimo. Procedimento complicado, a utilização da heteronímia pelo dinamarquês parece apontar para o fato de que toda análise que se faça de sua obra leve em consideração essa espécie de sistema por ele criado. Outra questão importante a ressaltar, como já se apontou, diz respeito à incipiente bibliografia brasileira do autor e sobre o autor. Na famosa coleção “Os pensadores”, por exemplo, o Diário de um sedutor é apresentado como obra independente, como se não guardasse nenhuma relação com os outros textos de Kierkegaard. Além disso, a questão da heteronímia não é sequer mencionada, o que faz da recepção do texto um equívoco regido pela descontextualização.

          Esse sistema kierkegaardiano é de fundamental importância, pois apresenta ao leitor a constituição de um mundo fechado em que as obras dialogam entre si, em que os “autores” inventados pelo próprio Kierkegaard assumem papéis irônicos (no sentido de que divergem sempre de um suposto núcleo em que estivesse centralizada a também suposta faceta única da filosofia do autor: a irracionalidade da fé). Todos esses heterônimos não seriam, assim, senão desdobramentos de uma criatividade romântica a serviço da defesa de uma tese cujo resultado não deveria ser apenas formal, mas prático, moral e, mais do que isso — no extremo — irracional e religioso.

          Retome-se agora o sistema. O que são o estético e o ético para Kierkegaard? Essa pergunta implica levar-se também em consideração o chamado terceiro estágio do sistema kierkegaardiano: o religioso.

          Segundo G. Malantschuk, a teoria dos três estágios [estádios] da existência — estético, ético e religioso —, elaborada por Kierkegaard, constrói-se através de um pressuposto: a concepção do homem como síntese de duas qualidades distintas, ou seja,  tempo e eternidade, finito e infinito, necessidade e liberdade, corpo e alma (e espírito). A predominância de um dos membros da síntese, por exemplo, do temporal, ou do mundo sensível, sobre a eternidade define o estágio estético. Quando há uma tendência ao eterno ou à aceitação do eterno, uma tentativa de união dos dois membros da síntese, há a passagem para o estágio ético. A passagem deste para o religioso, espécie de objetivo final, dá-se através de um salto qualitativo. [Nota: Cf. MALANTSCHUK, Gregor  apud  REICHMANN, op. cit.,  p. 365-366.] Tal passagem está expressa em Temor e tremor, obra na qual o mito bíblico da renúncia de Abraão ao filho Isaac (vide Gênesis, 22) — ato de fé angustiado e paradoxal do patriarca em prol da fé divina — é elevado a uma espécie de paradigma.

          A realização plena do ético (e o conseqüente salto qualitativo) seria então o objetivo principal de um autor que almejava conquistar indivíduos para o que denominava estágio religioso (isto é, a contraposição ao mundo meramente sensorial — nos termos kierkegaardianos, o mundo “estético” —,  cuja característica principal é a transitoriedade do prazer). Kierkegaard, portanto, valia-se de sua obra estética para, de certa forma, converter seus leitores. [Nota: “O autor religioso deve, portanto, em primeiro lugar, entrar em contato com os homens. Por outras palavras, deve começar por uma produção estética que lhe servirá de preço a pagar [de garantia]. (…) Deve, portanto, estar totalmente pronto para produzir o religioso, sem qualquer impaciência, mas tão depressa quanto possível, no exato momento em que conquistou os leitores, de modo que [estes] embatam com o religioso na mesma velocidade com que se abandonam do estético”. KIERKEGAARD, Søren. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Edições 70, s/d. p. 40.] Essa lógica, de fundo eminentemente religioso e irracional, está é claro só indiretamente presente em Diário de um sedutor, obra estética do sistema kierkegaardiano, e que, por isso, cumpria apenas o papel estratégico de atrair leitores para as malhas da fé no absurdo.

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2 respostas para Uma introdução a Kierkegaard

  1. Ragueneau disse:

    Olá profº, como vai?
    Encontrei esse site por acaso, enquanto procurava alguma informação útil sobre Kierkegaard e, confesso que me surpreendi muito com o que vi. Principalmente, a não-aceitação de muitos paradigmas ditados pelos arautos da “pós-modernidade”.
    Gostei muito e vou acompanhar esse blog de perto.
    Um Abraço

  2. Vinicius disse:

    Prezado “Ragueneau”,

    Obrigado pelas palavras de incentivo ao site. Não se trata exatamente de um blog, uma vez que a atualização não é diária, mas mensal, não é?
    E eu que pensava que Kierkegaard não receberia comentário algum… Como fonte de informações úteis sobre S.K. em língua portuguesa, temos — além do Reichmann — Valls e Gouvêa (estudiosos sérios do dinamarquês no Brasil, que provavelmente você já conheça).
    Estive rapidamente em seu site, ao qual voltarei em breve. De imediato, digo: parabéns por escrever em linguagem clara.

    Um abraço,
    Vinicius

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