Sobre abelhas e homens

lordv

 

Um famoso pensador ocidental certa vez ousou comparar abelhas e homens por aquilo que ambos fazem ao construir suas casas (ou favos). A diferença, dizia-nos o astuto pensador, era a de que mesmo o pior dos arquitetos humanos (ao contrário da melhor das abelhas) tinha a capacidade de antever o resultado de sua obra, de antecipar, pela reflexão, a finalidade do que construía — o pobre inseto agiria apenas por instinto. Eu não faria tal afirmação sem antes pensar minha condição humana, demasiadamente humana. É irrefutável que o celebrado pensador, ao falar-nos da antecipação dos fatos pela consciência humana, institui um dos pilares de sua doutrina: o tempo, o antes e o depois, tão importantes ao movimento, à ação. É no tempo e pelo tempo que ele (o pensador) mediu a existência de tudo o que há, mas esqueceu-se, coitado, de que esse tempo também é apenas humano. À abelha pouco importa a capacidade antropológica de antecipação de fatos, pois ela, pelo menos aparentemente [risos de dúvida metódica], não dispõe das faculdades humanas voltadas à consciência temporal. Contudo, com certeza, dispõe de alguma faculdade outra que, de alguma forma, permite-lhe construir seu favo no tempo, no seu tempo, independentemente de percebê-lo ou não. Se é verdade que a abelha vive pouco menos de um mês humano, é também verdade que vive toda uma vida de abelha — e isso é o que de mais desesperador há para homens excessivamente humanos, pois a abelha o faz independentemente de o homem estar ou não aqui. Dizem nossos maravilhosos cientistas humanos que, em caso de guerra nuclear, não restarão mamíferos nem abelhas, mas apenas outros insetos: as baratas. Extintos os nobres mamíferos que tudo percebem e entendem e os laboriosos insetos, as imundas baratas (que na verdade não sabem de sua imundície e devem mesmo achar-se bem limpinhas) continuarão a existir. Essa possibilidade, ainda que desvelada pelo limitado engenho humano, já é por si só uma prova metonímica contundente de que o andamento do universo independe da ação antropocêntrica. 

O homem, todavia, graças ao amor por seu umbigo, tende à sistematização de tudo o que se lhe apresenta, julgando todas as coisas pelo seu próprio olhar, insistindo que o mundo está à sua mercê. Alguns humanos, mais chegados no paroxismo desse procedimento, investem-se da qualidade de governantes e projetam sobre seus menos iguais (Orwell) as normas adequadas de conduta social, moral e econômica. No sistema capitalista — que até agora tem-se provado mais resistente do que gostariam sinceríssimos Fidéis, Chês e Maos —, a exploração do homem pelo homem é uma constante. A sofisticação do processo permite agora que os mais explorados sintam-se felizes por sê-lo: basta-lhes comprar um home-theater nas casas Bahia que a emulação do hábito dos mais ricos garante a manutenção do sistema; a aquisição do produto passou a ser mais importante do que a própria existência. No sistema socialista — tido como a forma latente do comunismo, isto é, da redenção do homem aqui na Terra —, se a exploração do homem pelo homem não existe (como só ousam afirmar sinceríssimos Fidéis, Chês e Maos), existem, inegavelmente, homens mais iguais (Orwell, de novo), que dispõem de aviões, carros e outros  confortos que os comedores de pizzas de açúcar, carentes de sabonete, não dispõem (essas vantagens devem ser parte do processo de transição ao comunismo, presumo eu). 

Diante do ritmo lento da evolução possibilitada pelos sistemas político-econômicos que conhecemos, minha “teoria” (as aspas são auto-irônicas) da dispensabilidade do homem para o andamento do universo deveria ser levada mais a sério. Não que eu esteja aqui a defender o aniquilamento do homem pela guerra, pois sou contra crueldades aos outros (e também contra os suicídios). Sou apenas a favor da diminuição planejada da população. Sei que, indiferentemente do número de pessoas, o processo de exploração se mantém, e que, por isso, diria a esquerda, não se justificaria a redução da população.  Mas percebam a sutileza: se o número de pessoas é indiferente, por que não ficarmos com poucas pessoas em vez de muitas? Por que produzir 100 pares de sapatos em vez de produzir somente 1? Produzindo apenas um par de sapatos, o operário teria mais tempo (vejam bem, tempo, senhores marxistas de espírito atrofiado) para não trabalhar. Menos edifícios, menos carros, menos poluição, menos consciências a sofrer, por repetição, o que consciências anteriores (no tempo, portanto) já sofreram. Por que insistir no erro da produção pela produção? Seremos nós, por acaso, apenas abelhas?

Foto de Lord V: http://www.flickr.com/photos/lordv/173430032/
 Texto escrito em 11/4/2007
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3 respostas para Sobre abelhas e homens

  1. Olá tudo bem? Eu estou começando um texto parecido com o seu para colocar no meu blog, ainda não tem título, mas discorrerá acerca da sociedade das abelhas em comparação com a sociedade humana. Muito interessantes suas palavras, um bom texto para reflexão. no meu colocarei mais um tempero de Nietzsche para apimentar.
    Abração!

  2. Vinicius disse:

    Valeu, Anderson. Avise quando o texto estiver pronto! O link é http://criticageografia.zip.net/index.html, certo? Um abraço, Vinicius.

  3. Pingback: Introdução a um poema de “O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeiro « Vinicius Figueira

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