
Quando cheguei ao Recife, eu era verde, verde em Nordeste, verde em Brasil, perito em nuvens e umidade. O Recife me mostrou, já de cara, o que era o sol. A luminosidade das ruas do bairro da Boa Viagem – a começar pela que conheci primeiro, na estada de uma semana da família em um hotel (Rua Barão de Souza Leão, próximo ao Aeroporto de Guararapes) – era evidente e própria daquele território. Corria o mês de março de 1981. Chegamos todos os cinco – meus pais, minhas irmãs e eu – conduzidos pelo meu pai, sem casa e sem escola. Uma semana depois, tínhamos as duas.
A casa na Rua dos Navegantes, apartamento no edifício S., não sei como meu pai descobriu – provavelmente por indicação de colegas de serviço no Banco do Brasil; a escola, lembro-me bem, saí com ele a procurar sem saber mesmo o que encontraríamos. Perguntávamos em lojas e bancas de revistas: “Qual a melhor escola do bairro?” Surgiu, então, com alto índice de respostas, o Colégio Santa Maria, onde fomos matriculados, minha irmã e eu – ela no prédio do antigo Primeiro Grau em rua do miolo do bairro; eu na própria Souza Leão, em prédio de 7 ou 8 andares, sede do Segundo Grau, um colosso para a época, como prédio escolar (vinha eu de colégios menores, no interior do Rio Grande do Sul). Minha irmã menor, a caçula, foi matriculada em creche praticamente ao lado do edifício, na própria Rua dos Navegantes, uma facilidade e tanto para minha mãe.
Começou, para mim, o Recife a pulsar no horário temprano do início das aulas: toda manhã, às 7h10, elas se iniciavam, o que implicava acordar-me pelo menos uma hora antes, pois havia, além do banho e do café a tomar, o trajeto até a escola, que era longo, e que eu cumpria a pé (não pensava em ônibus – e não havia a possibilidade “almofadinha” de meu pai conduzir-me até lá, mesmo porque a Caravan prata 1978 rodava com ele era pelo interior do Estado de Pernambuco, em Exu, em Afogados da Ingazeira e Paulista, e muitas outras cidades, no ofício de inspetor que cumpria).
A casa nos dias úteis éramos nós quatro: minha mãe, minhas duas irmãs e eu. No dogs, no cats, no birds. Nenhum desses apanágios da solidão urbana – humana – nos acompanhava. Não tínhamos, no início, nem mesmo amigos, e a saudade do mundo, que se poderia pensar frio, do Sul, era quente em nosso espírito. Porém, não foi por tanto tempo: diante de nós, a um quarteirão e meio de distância, tínhamos a praia, com vasta faixa de areia, coqueiros e, ao longe, o mar, imponente (e sem tubarões), freado e cercado pelos arrecifes. Caminhava-se tranquilamente até eles, e até por eles, conforme a maré permitisse. Isso aos sábados e domingos. De segunda a sexta-feira, a rotina escolar era impedimento para a praia diurna, porém, aos poucos, surgiam-me os amigos e, aqui e ali, organizava-se um futebolzinho à noite, na areia. Os primeiros amigos mais próximos, também “estrangeiros” naquelas terras, foram próximos não pela extraterritorialidade, mas pela música, eis que todos tínhamos aquela formação centrada no rock inglês – principalmente – e norte-americano. Deep Purple, Yes, The Rolling Stones, The Beatles. Éramos quatro e esses eram os nossos cavalos.
No Centro da cidade, que eu desbravava sozinho em viagens de ônibus cinza e vermelho da Borborema, comprei meu primeiro contrabaixo, um Giannini de escala curta. Também frequentava as lojas de discos, algumas livrarias e bancas de revistas (estas em busca de publicações estrangeiras, que encontrava, em geral, em língua alemã, e nas quais havia fotografias e matérias sobre os ídolos ingleses). O formigueiro humano do Centro do Recife que eu observava de um ponto um pouco mais elevado da Rua (da Aurora?) me impressionava. Eu tinha 14 anos. Estava só e andava só, feliz e dono de mim mesmo, em meio àquela profusão de pessoas, já sabendo os destinos aos quais queria chegar no mundo que inventei, em especial composto por lojas de discos. Numa delas, de discos usados, de propriedade de um certo Humberto, garimpei meu primeiro Trapeze, com o então incomparável Glenn Hughes cantando “You are the music”; “Coast to Coast”; e “Loser”, dentre outras canções que muito me alegraram.
Na Boa Viagem, junto à Igreja do bairro, a feira nordestina, com suas roupas e tradições, constituía atração para a família (era-nos um mundo exótico, diferente dos tão naturais, agradáveis, leves e confortáveis ponchos, palas, japonas, capas de chuva, toucas, galochas e gabardines). Meu pai, que se deliciava sobremaneira com as frutas locais, é dizer, com coisas que nunca tínhamos visto, muito menos saboreado (jambo, pitomba, graviola, seriguela, cajá etc.), também frequentava as feiras de rua, de onde vinham para a mesa de casa todas esses alimentos que a terra nos dá. Mas eu não era e nunca fui de frutas, ainda que a empregada da casa (um luxo de antanho) me preparasse iguaria suportável: bananas fatiadas e empanadas, com canela e açúcar, artificialidade que eu, sim, apreciava, mais do que a naturalidade das maravilhas locais. Por isso, hoje, o diabetes (minto, não tenho).
Não voltei ao Recife desde então, exceto em 2023, já aos 56 anos, com minha filha e mulher. Ficamos em hotel na orla, próximo à Igreja da Boa Viagem. Andei pelas ruas todas que pude andar, em especial pela Rua dos Navegantes (o mar que mais naveguei na vida foi este, o da Rua dos Navegantes, por entre as árvores daquela rua solar, singrando minha rota de velas abertas, rumo ao mundo que me esperava – como talvez dissesse um Pessoa deslumbrado). Fui ao prédio onde morei, 1981 redivivo em pleno 2023, pedi licença ao porteiro para entrar e a obtive. Tirei fotografias lá com minha filha como se fosse ela a criança que minha irmã pequena fôra quando lá moramos (uma troca amorosa e justificável). Andei por toda a área do prédio, sentei-me nas muretas, caminhei por entre os pilotis, espiei o salão de jogos e a mesa de ping-pong que não existe mais. Entrei na área social, apertei o botão do elevador no saguão, só para vê-lo descer e inspecionar os botões internos (que não eram mais os mesmos), e saí satisfeito do prédio, mais do que se tivesse visitado o Louvre ou o British Museum, pois lá estavam eflúvios e emanações de mim mesmo e dos meus, de momentos dos mais felizes da minha vida, afinal.
Depois da ida ao tal museu personalíssimo, passeei e passei pela frente das casas de amigos de há mais de 40 anos e parei diante delas como se ali ainda morassem. Fotografei-as como se isso fosse capaz de trazer comigo um pedaço de mim que havia perdido. Vi o prédio de onde jogávamos uma bola do 20º andar, só para vê-la, depois de quicar, voltar até o 10º, ou coisa parecida, e ir perdendo altura aos poucos. Fotografei a esquina de onde, certo dia, vi Alceu Valença passar caminhando pela calçada – ele que, para mim, já era o ídolo que tantas vezes me cantara (no toca-discos de meu tio), no ano anterior, em 1980, a fenomenal “Na primeira manhã [(em) que te p(é)rdi]”, canção que aprecio muitíssimo até hoje, porque ainda sou um conde falando aos passarinhos.
Foram grandes emoções vindas de fatos pequenos e (in)imagináveis para quem viera direto de Pelotas e Pedro Osório (minhas duas casas simultâneas no Rio Grande do Sul, dos meus avós e dos meus pais, em 1979 e 1980) para metrópole outra que não Porto Alegre, ou São Paulo ou Rio de Janeiro, quem sabe mais naturais ao sulista que eu era e nem sabia. Quis o destino que o primeiro voo rumo à grandeza do mundo se desse pelo e ao Recife, cidade pela qual nutro o mais profundo gosto afetivo, pois lá estão as raízes de minha passagem à vida, à vida como ela é, como a ensaiamos para a aprendizagem adulta. É de lá que veio Manuel Bandeira (citado aqui, no título – sabemos todos), a quem, por óbvio, não encontrei quando cheguei ao Rio para morar, já em 2010, mas a quem, ainda assim, não deixei de prestar minha homenagem na estátua que repousa diante do prédio comercial da Academia, assim que cheguei para o trabalho cotidiano no Castelo já se vão 16 anos. É do Recife – descobri muito depois, já aos 50 e poucos – que vem meu antepassado brasileiro mais remoto, um senhor de nome Ildefonso. Mas aqui não falo de espíritos ou dos mortos, falo de mim e dos que em mim e comigo vivem para sempre.
Vinicius Duarte Figueira
Rio de Janeiro, 10 de julho de 2026.
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Seguem-se, abaixo, algumas vivências juvenis do Recife. Aquela terra está lá, e lá estão boas memórias, que enumero aleatoriamente:
1) A suposta má lembrança de um atropelamento que sofri, de média intensidade, de parte de um motociclista distraído. Cena 1: meus braços esfolados pelo asfalto (fui arrastado); sangue; o socorro prestado por senhoras dos prédios em frente; eu, tonto, já deitado no canteiro central, olhando para o céu, um pouco desesperado, com alguém a me dar água e a passar pano úmido em minha testa. Cena 2: a seguir, levanto-me, razoavelmente melhor, e caminho até uma grande Avenida, onde ingresso, ainda um pouco atônito, em ônibus (errado) de volta para casa. Peço, no ponto seguinte, que o motorista pare para eu descer. Ele pára, mas não a fim de que eu desça (pela porta de trás) – descobri depois –, mas sim com o intuito de que novo passageiro ingresse pela porta da frente. Eu, diante da porta aberta, aproveito o momento da parada para saltar do ônibus, mas o motorista, no exato instante do salto, arranca – e eu me estatelo novamente, desta feita na calçada. Cena 3: entro no próximo ônibus e chego em casa, assustando minha mãe com meu estado de jovem esfolado. Cena 4 (epílogo introspectivo): a lembrança não é má. Trago-a na memória viva como certeza de que a possibilidade de superação é superior à desgraça.
2) O primeiro ingresso em uma casa noturna de luz vermelha: as moças dançando, animadas. Uma delas – baixa e magérrima, cabelos curtos, salto alto e sexy (o salto, não ela) – mui resoluta, captura um de meus amigos, o nobre Villas-Boas, e com ele dança algo como um tango argentino no salãozinho, ao mesmo tempo em que, sorrateiramente e sem parar de bailar, o vai carregando ao quarto, cuja porta então abre e, rapidamente, fecha logo que entram. Nosotros só olhamos.
3) A tentativa de ingressar na peneira do basquetebol da escola. Cena 1: grupos fechadinhos, e eu, estrangeiro, solenemente ignorado, tento participar (intrometendo-me e infiltrando-me sem nada dizer) de uma corrida de aquecimento em duplas, pedindo vênia justamente à dupla de jogadores mais altos e mais velhos (certamente do último ano, o “terceirão”) para correr ao lado deles, em trio (“são quase adultos, vão entender, nem vou falar nada” – pensei [errado]). Cena 2: nos primeiros passos da tal corrida de aquecimento, sou derrubado pela rasteira suja de um deles. Cena 3: abandono do treino, sem nenhum auxílio de professor (sem dúvida, um verme).
4) O gol da vitória que fiz em uma partida de futebol de salão de nossa turma na olímpiada escolar, chute forte, com raiva, estufando as redes. Comemoração efusiva dos colegas e, melhor, das colegas, da torcida, inclusive – acho – da beldade Ana Paula (onde andará?).
5) As viagens de meus pais nos finais de semana a João Pessoa que nunca fiz, pois preferia ficar em casa ouvindo meus discos. Tivemos durante um bom tempo a companhia de minha avó (paterna) Ruth, que ficou lá em casa cuidando da gente, com seu tradicional carinho de vó. Para a minha mãe, creio que isso tenha sido muito importante, pois ajudou a aplacar um pouco a saudade do Rio Grande em um clima familiar (e a minha vó paterna se dava muito bem com a minha mãe – sogra e nora ambas de escol que eram).
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Em tempo: para a imagem do “conde que fala aos passarinhos”, usada por Alceu Valença na canção que cito, ver sua origem, que eu diria antinômica, no genial Rubem Braga: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/18959/o-conde-e-o-passarinho


