Origens do Romance (Menéndez Pelayo)

Menéndez Pelayo (1856-1912). Orígenes de la novela (2ª edição). Consejo Superior de Investigaciones Científicas. Madrid: 1962. (Tradução [p. 7-11]: Vinicius Figueira (ver “Nota do tradutor”, ao final do texto.)
O ROMANCE NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA, GREGA E LATINA  

Gênero tão antigo quanto a imaginação humana é o relato de casos fabulosos, seja para divertir com sua mera exposição, seja para deles extrair alguma lição salutar.   A parábola, o apólogo, a fábula e outras formas do símbolo didático são narrações mais ou menos singelas – e germes do conto [ver Nota “A”, do próprio M. Pelayo] –, as quais têm sempre, em suas mais remotas origens, algum caráter mítico e transcendental, ainda que este sentido se vá perdendo com o transcurso do tempo, restando a mera envoltura poética.  

Narração muito mais grandiosa, e companheira também das civilizações primitivas, é a epopeia – teogônica primeiro e depois heroica; divina no princípio e logo depois humana –, representação, então, de uma humanidade mais excelsa e vigorosa que a das épocas históricas. Nestes gêneros espontâneos, esgota-se a atividade estética das raças virgens e dos povos jovens, e, exclusão feita à poesia lírica, nenhuma outra forma da arte literária coexiste com elas.  

O romance, o próprio teatro, todas as formas narrativas e de representação que hoje cultivamos, são a antiga epopeia destronada, a poesia objetiva do mundo moderno, cada vez mais restrita aos limites da realidade atual, cada vez mais despojada do fundo tradicional, seja hierárquico, simbólico ou meramente heroico.

O romance, considerado como representação da vida familiar, pode insinuar-se na própria epopeia. O que é, na maior parte de seu conteúdo, a Odisseia, senão um grande romance de aventuras? Porém, os naufrágios e trabalhos do protagonista, os detalhes domésticos minudentes, estão envoltos em uma atmosfera luminosa e divina que os enobrece e realça, banhando-as de pura e serena idealidade. A categoria estética a que tal obra corresponde é, sem dúvida, superior à da ficção romanesca, que mais ou menos se caracteriza sempre pelo predomínio da fantasia individual, pelo livre jogo da imaginação criadora.  

A epopeia tem raízes muito mais profundas, que descem ao mais recôndito da alma dos povos; é coisa venerável e sagrada, que oculta mistérios étnicos e genealógicos, migrações e sangrentos conflitos de raças e gentes, ascensão do espírito humano à vida religiosa e civilizada, símbolos meio apagados de uma revelação primitiva e de verdades eternas. Nascida em um período de viva e fresca intuição e de terror religioso ante os arcanos de uma Natureza tremenda e misteriosa, que apenas começava a levantar uma ponta de seu véu, a poesia épica, contemporânea dos primeiros esforços e das primeiras conquistas do trabalho humano, não domina a realidade, mas é dominada e sobrepujada por ela.  

A personalidade do poeta, então, não existe: jaz no abismo, submersa no espírito coletivo, do qual é eco sonoro; seu nome é um mito a mais, que se confunde com os nomes de seus heróis. Não há obra sem autor, é certo; porém o nome do autor, no sentido que a literatura lhe deu, é o que menos se enquadra no poeta épico, que até quando atinge a perfeição da forma – como, por privilégio estético de sua raça, aconteceu a Homero ou aos poetas homéricos – alcança-a por instinto semidivino, que não exclui a aprendizagem técnica transmitida por gerações de aedos e rapsodos, mas que exclui toda sombra de artifício literário e parece uma comunicação imediata e contínua da essencial beleza das coisas refletida na mente do poeta.  

Tais momentos não podem ser menos do que fugazes na vida da humanidade. Quando nasce a literatura propriamente dita, é dizer, a arte reflexiva da composição e do estilo, obra inteiramente pessoal, e que coincide em todas as partes com o advento da prosa, principal instrumento do discurso humano e da cultura científica, a epopeia morre ou, pelo menos, se transforma. Algumas vezes se combina com a poesia lírica, como vemos nas odes triunfais de Píndaro, tão cheias de mitos e de recordações heroicas; outras vezes toma seu metro e sua forma da didática, e é mestre da vida em Hesíodo, ou intérprete do pensamento filosófico aplicado à interpretação do enigma da Natureza, como a poesia física de Empédocles e de Parmênides; outras vezes, ainda, converte-se de narrativa em algo ativo, e os heróis e as divindades da epopeia, ainda que conservando seu grandioso e sobrenatural prestígio, pisam nos tablados da cena trágica e proferem as palavras aladas que em sua boca põem Ésquilo e Sófocles.  

E não param aqui as transformações do gênio homérico, que é, ao modo de um rio, inesgotável para o pensamento e a arte da Hélade, pois também a história cresce por meio do seio da epopeia e, ao despojar-se de forma métrica, não abjura de sua origem, nem da paixão pelo maravilhoso, nem da cândida e patriarcal ingenuidade do relato, algo que faz de Heródoto um poeta épico, bem distante do tipo de historiador político que temos em Tucídides.

O romance, última degeneração da epopeia, não existiu, não poderia existir, na idade clássica das letras gregas. Porém, elementos dele lá sem dúvida havia, e podem encontrar-se dispersos em outros gêneros.  

Além dos apólogos esópicos e das fábulas líbias, que são gênero de ascendência muito remota  e mais oriental do que grega, foi peculiar daquela cultura, em seu maior grau de sábio refinamento, o mito filosófico, que algumas vezes é metamorfose ou interpretação de um mito religioso e, outras, parábola ou alegoria livremente imaginada para expor alguma doutrina metafísica ou moral. Deste gênero de mitos, é mestre prodigioso Platão no Timeu, no Protágoras, no Crítias, no Fedro, no Banquete, e em tantos outros diálogos. Às vezes, estes mitos têm notável desenvolvimento poético, como o de Her, o Armênio, no livro X da República (que serve ao filósofo para expor suas ideias acerca da vida após a morte), e a lenda geográfica da ilha Atlântida, que provavelmente oculta uma verdade histórica desfigurada pela tradição e acomodada por Platão a um sentido político.
 
Desprovidas de tal sentido e de qualquer outro que não fosse o da curiosidade e do mero deleite, conheceu a antiguidade helênica grande número de narrações fabulosas históricas e geográficas, muitas delas de origem oriental, assíria, persa ou egípcia, como as que de boa-fé recolheu Heródoto da boca dos intérpretes de Mênfis, e todas as maravilhas que continham os livros de Ctésias, frequentemente citados por Diodoro Sículo.  

Basta ler o satírico e ameno tratado de Luciano sobre o modo de escrever a história para compreender a que ponto chegou o furor de mentir dos historiadores da decadência, inclusive dos que escreviam sobre coisas de seu tempo, como os biógrafos de Alexandre.  

Prescindindo dos mitógrafos de profissão como Apolodoro (que, ao fim, recolhiam lendas antigas, ainda que muitas vezes as exortassem e amplificassem), não se pode omitir que as relações de viagens apócrifas a terras pouco conhecidas ou inteiramente fabulosas chegaram a constituir um gênero, ao qual correspondem a Pancaia, de Evêmero; a Ilha do Sol, de Iâmbulo;  o livro de Hecateu  de Abdera (sobre os costumes dos hiperbóreos); e outras várias expedições imaginárias, das quais são chistosa paródia as Narrativas Verdadeiras, de Luciano.  


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Nota “A”, do autor: Os contos populares mais antigos conhecidos são, até o momento, os egípcios, que G. Maspero reuniu em um belo volume (Les Contes populaires de l’Egipte ancienne, traduits et commentés par G. Maspero, Paris, 1889, volume 4 de Les littératures populaires de toutes les nations). O primeiro dos contos nele constante, descoberto em 1852 por Rougé, é um romance da época faraônica, inteiramente análogo aos de As Mil e Uma Noites, com uma de cujas histórias, a dos príncipes Amgiad e Assad, guarda grande semelhança esse contp dos dois irmãos, assim como com muitos outros temas romanescos populares (falsa acusação por parte de uma madrasta ou cunhada, encantamento do coração em uma árvore, transformações do protagonista Bitiu análogas às de Proteu etc.). Ainda mais extraordinário e fantástico é o conto de Satni, filho de um rei de Mênfis, no qual intervêm múmias que falam, feiticeiras, magos e outros seres misteriosos, com grande parte da ação ocorrendo além dos limites deste mundo. Outras histórias são de gêneros muito diversos. A história da tomada da cidade de Jope pelos soldados de Tutii, escondidos em grandes jarros de barro, lembra imediatamente  a estratégia  de  Ali  Babá  e os Quarenta Ladrões em As Mil e Uma Noites. Não falta um exemplo de romance de viagens e naufrágios, análogo ao de Simbad, o Marinheiro, e ainda mais aos contos gregos parodiados por Luciano em Narrativas Verdadeiras. Há verdadeiros retratos de costumes populares, como a história do aldeão que vai à cidade em busca de justiça. Em geral, são contos prodigiosos, nos quais a magia predomina, como o do Rei Kufni; o da princesa de Baktan, possuída por um espírito maligno; a história do príncipe destinado a ser morto por uma serpente, um crocodilo ou um cão; ou contos de aventuras épicas que se tornaram história, como as Memórias de Sinuhit. A essas e a várias outras histórias mais ou menos completas, coletadas diretamente de papiros egípcios, Maspero acrescentou a de Rampsínidas, que conhecemos apenas na forma grega que lhe foi dada por Heródoto. Os papiros que contêm alguns desses contos datam do século XIII ou XIV a.C., e alguns são até centenas de anos mais antigos, segundo Maspero. A Índia não possui nada que se aproxime dessa antiguidade, e os contos egípcios são, até hoje, os exemplos mais antigos do gênero na literatura mundial.       

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Nota do tradutor: Sou tradutor profissional do inglês, mas ouso aqui traduzir ao português trecho da obra do eminente intelectual espanhol a partir de seu idioma. Desconheço tradução portuguesa ou brasileira de sua obra, mas certamente deve haver tal tradução em Lisboa. Creio que o conteúdo histórico do que se lê aqui (pouco mais de quatro páginas de um total de 467) é suficiente para justificar uma tradução completa, a qual, sem dúvida, iluminaria os estudos literários brasileiros. Em especial, a trajetória da epopeia ao romance, seria privilegiada em tal trabalho.

Em tempo: como, no Brasil, os estudos literários não chegam a penetrar muito profundamente, é de se comentar que o termo “novela”, em espanhol, tem como equivalente em português “romance”. Mais: não há relação do termo “novela”, em espanhol, com aquilo a que os brasileiros assistem cotidianamente, na televisão, às 8 ou 9 horas da noite. Além disso, particularmente, considero o termo “romance” uma escolha pouco feliz para designar as narrativas longas que estamos acostumados a ler, pois há, no imaginário popular, uma ideia de que tal gênero trate precipuamente de histórias de amor (o que não é, em absoluto, verdade e, pior, afasta leitores jovens pouco chegados a tais enredos açucarados).

Há também o duplo sentido da palavra “novela” em português, que serve, grosso modo, para (1) narrativas mais curtas do que o romance e mais longas do que o conto e (2) também para o gênero dramático televisivo, afastando, a meu ver, do texto escrito, leitores jovens e incautos que não tenham interesse em histórias doces e dramalhões.

Por fim, temos ainda o termo “conto” para as narrativas mais curtas, o qual tem muita vezes, no imaginário do jovem, a conotação de algo mentiroso e traiçoeiro, ao contrário do que o gênero muitas vezes é, edificante e instrutivo.

De sorte que nossa Língua Portuguesa fez suas escolhas por três termos multifacetados (romance, novela e conto), para designar aquilo que deriva de tempos remotos sob outros nomes e outros contextos (os quais Pelayo tão bem explica na obra em comento).

Dedico esta tradução à minha jovem e amada filha, que já se iniciou na leitura de longas narrativas juvenis. O mundo te espera, minha filha!

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