
Para suportar a moira (o destino, o terrível e o horrendo, em outras palavras, nossa ignorância completa sobre o sentido da vida, aquilo que sentimos quando nos perguntamos “o que estou fazendo aqui?”) há de se representar, seja pelo sublime (trágico), seja pelo ridículo (cômico), e não só no palco. Eu, particularmente, prefiro o ridículo. Somente pelo humor consigo suportar e suportar-me. A capacidade de rir, de rir de si próprio, de não se levar a sério, sem, é claro, deixar de respeitar a condição absurda e muitas vezes desesperadora do outro, e a minha própria, talvez seja a forma mais adequada de navegar por aqui. Dói-me ver amigos a sofrer. Gostaria, contudo, de dizer a todos que no fundamento da tragédia, na utilização sábia da mitologia, na invenção do estético como forma de jogar com a vida, os gregos nos ensinaram muito. Não se trata de idealizar os helenos à moda romântica, mas de perceber que no mundo anterior a Sócrates talvez estivesse um remédio para o sofrer. O outro remédio, o da razão, nos custou caro: chegamos a uma civilização racional e extremamente burra, somos novos bárbaros, munidos de computadores, carros e belas casas, com analfabetos, carroças e barracos à porta. Não encontramos saída em nenhum sistema político. Não nos encontramos. Sejamos mais trágicos.


