
A possibilidade (forte) de o nada estar à espreita do outro lado ou a percepção momentânea e aguda de que os objetos vistos e revistos cotidianamente – com significado bem definido, portanto – se mostram, de maneira repentina, tão desprovidos de qualquer sentido, transformando-se naquela ausência absoluta, acaba por nos levar grosso modo a dois caminhos: ou à crença ou ao cinismo (não confundir com hipocrisia). Em literatura, poucas vezes o cinismo foi tão bem expresso como no Melville pós-aventuresco. Corre ali o mais amargo veneno da desilusão, a sátira a um sistema de crenças obtuso baseado em um Deus onipotente e punitivo. Diante desse Deus e também contra a instituição de Wall Street, o escritor nova-iorquino nos oferece o silêncio de Bartleby e as máscaras do Confidence–man, de onde extraio este trecho, em que o cinismo não é elogiado, mas criticado por um personagem defensor incondicional da caridade (o trabalho do escritor é sempre partir do pensamento contrário ao seu): ” (…) vi o fim de quem passa a vida a suspeitar: o cínico, resmungando a um canto em sua loucura, durante anos uma criatura estéril ali plantada, cabeça caída, mordendo o próprio lábio, abutre de si mesmo (…)”. Já um outro personagem, cínico, lhe diz: “Que a sua caridade vá para o lugar dela! Que a sua caridade vá para o céu! (…) – Aqui na terra, a verdadeira caridade está caduca, e a falsa caridade conspira”. Bons tempos esses em que havia embates. Hoje, estou cada vez mais convencido, a hipocrisia triunfou sobre o cinismo, e todos que desfrutam de poder (qualquer poder) sobre o outro são muito bonzinhos – a chamada falsa caridade venceu e já nem requer mais adjetivação crítica: é caridade única, é caridade em si.


