Ainda se estuda “A estrutura do texto artístico”, de Iuri Lotman?

 

Abaixo, uma anotação que fiz, ao final do século passado, sobre um capítulo de livro do já esquecido – creio eu – Iuri Lotman. Em tempo: espero terminar a análise do poema de Drummond, começada no mês passado e ainda incompleta. Um dia, terei mais tempo; um dia, suplantarei a máquina. Enquanto isso, restrinjo-me a um o tempora, o mores resignado.

 

 Em tom epistemológico, Lotman começa o capítulo intitulado Os elementos e os níveis da paradigmática do texto artístico, parte do livro A estrutura do texto artístico [Lisboa: Editorial Estampa, 1978], pela constatação de que na teoria da literatura se admite correntemente (isto é, à época da escritura do texto) a afirmação de que o discurso vulgar – ou cotidiano – dos homens e o discurso em prosa são a mesma coisa, fato que tem como conseqüência inferir-se que a prosa, em relação à poesia, é dominante, já que está mais próxima da linguagem cotidiana. Segundo Tomachevsky – argumenta Lotman –, a forma natural do discurso humano é a prosa. Sendo assim, o discurso em verso está em um plano secundário, estruturalmente mais complexo do que o da prosa.

Lotman, na verdade, refuta esse raciocínio que defende ser a prosa artística a expressão de uma forma de partida, coincidente com o discurso falado não-artístico (ou do cotidiano). Isso porque, para ele, foi o discurso em verso, e não a prosa, o primeiro discurso da arte verbal.  E acrescenta: a poesia  é uma dissimulação da linguagem e, portanto, algo distinto do discurso vulgar. A maneira pela qual assimilamos a poesia acontece a partir do material “dissimilado”, a partir do qual se cria um quadro do real.

Assim, podemos antever, em Lotman, duas preocupações fundamentais: a compreensão diacrônica (histórica) do texto artístico ou literário e o estabelecimento das diferenças formais que configuram os dois gêneros que hoje conhecemos como prosa e poesia. Entre essas duas preocupações é que Iuri Lotman elabora sua teoria.

O efeito artístico do processo que leva um autor a criar um determinado tipo de texto em uma determinada época, afirma Lotman, é sempre uma relação: relação do texto com a expectativa do leitor, com as normas estéticas de uma época, os estereótipos próprios do tema ou das leis dos gêneros. A enumeração pura e simples dos processos nada oferecerá para a sua compreensão, já que na medida em que um mesmo elemento material do texto entra nas diversas estruturas de um todo adquire inevitavelmente um sentido diferente. Isso se verifica, por exemplo, nos chamados processos-menos (que são sistemas de recusas conseqüentes e conscientes sentidas pelo leitor). Em outras palavras, há em toda forma uma recusa consciente daquilo que já foi, digamos, deglutido por um movimento ou escola anterior (o exemplo dado é um poema de Pushkin, cuja ausência de epítetos, metáforas, rimas, ritmo acentuado renega o seu oposto: a presença dessa mesmas características, que encontrávamos no movimento literário anterior).

Aprofundando a questão referente à poesia como forma, Lotman afirma que a ausência de rima em um verso que não supõe a possibilidade da existência da rima, ou seja, que dela não necessita, como, por exemplo, a poesia antiga, o verso das bilinas russas (que são representações populares medievais) é diferente da ausência de rima em um verso que já a recusa (por exemplo, o verso livre contemporâneo). Ou seja: na citada poesia antiga a ausência de rima não é um elemento artisticamente significativo, ao passo que no verso livre contemporâneo essa mesma ausência é presença de não-rima, presença de rima-menos. Daí conclui-se que todo processo acontece em função de um processo anterior.

Preocupado com o aspecto formal do texto artístico e, mais precisamente, voltando a considerar a possibilidade de o discurso artístico estar próximo ou distante do discurso do cotidiano, Lotman diz que a idéia de que a semelhança com uma realidade não-artística constitua o valor ou mesmo a condição da arte é um fenômeno recente. Tal maneira de pensar tem subjacente a ela, como sabemos, a necessidade de estabelecer as fronteiras entre a prosa e a poesia e de compreender como essa distinção se deu ao longo do tempo. Nas etapas iniciais, é justamente a diferença entre a arte e as esferas do cotidiano que fazia perceber o texto esteticamente: isso implicava, obviamente, privar a linguagem da sua similitude com o discurso vulgar. Só o movimento ulterior da arte a fará voltar para a prosa, introduzindo-se os prosaísmos, a licença poética na poesia e na prosa etc. Institui-se uma simplicidade pensada, qualificada: a evolução pode ser percebida como simplificação, quando é na verdade, uma negação do que vigorava anteriormente e uma busca do que já havia mais anteriormente ainda.  Se pensarmos exclusivamente na poesia, tal processo poderia ser assim esquematizado: De três momentos A (não-rima), B (rima), C (não-rima), o momento C seria um retorno a A, mas um retorno cuja característica principal não é a originalidade, mas a imitação consciente e inovadora. O suposto refinamento que a rima representa passa a ser questionado, e então é a não-rima que carrega a marca do refinamento.

A oposição prosa/poesia é a expressão da oposição não-arte/arte, ou seja, em dados momentos se está ou mais próximo (prosa?, poesia?), ou mais distante (poesia?, prosa?), da não-arte.

A prosaicização da cultura artística afirma, por um lado, a autoridade da não-arte (da realidade, da vida cotidiana, do documento), e, por outro, em forte dialética, institui como norma a reprodução da vida pelos meios da arte  [p. 177]. Mesmo um documento transposto em prosa artística recebe do contexto a marca de um caráter elaborado e torna-se uma reprodução de si mesmo. Por isso, o discurso artístico não é idêntico à prosa não-artística (ao discurso  do cotidiano), mas relaciona-se com ela, por meio de um filtro, de um código, de uma forma, enfim — como uma reprodução se relaciona com o seu objeto.

O discurso oral distingue-se de um modo radical do discurso escrito. A reprodução do discurso oral na literatura artística constrói-se segundo as leis do discurso escrito, ou seja, altera-se devido à injunção  da forma. Em outras palavras, o discurso oral pode penetrar muito profundamente no tecido da narração do século XX, mas não pode suplantar as estruturas escritas, pelo fato de o texto artístico não ser o discurso oral, mas a sua reprodução escrita. Mesmo quando não se trata das formas escritas da arte verbal, o discurso oral – da improvisação do cantor folclórico ao discurso cênico – constrói-se na base de uma variante normalizada e plena (que é o texto escrito).

A oposição prosa/poesia, conclui Lotman, é uma oposição centrada na sucessão e na negação entre os dois sistemas. Sendo dependentes um do outro, ou melhor, um necessitando do outro para se afirmar, não faz muito sentido pregar uma diferença absoluta: considerar a poesia e a prosa como construções independentes, isoladas uma da outra e que podem ser descritas sem correlação recíproca levará inesperadamente à impossibilidade de delimitar esses fenômenos [p. 182]. Somente recorrendo-se às formas mais típicas é que podemos, segundo Tomachevsky, perceber a diferença entre poesia e prosa. Não concordando integralmente com essa distinção legitimada por uma divisão estanque, Lotman busca compreender o problema em uma escala mais ampla, dialética. Para provarmos que um verso livre é efetivamente verso, precisamos recorrer a elementos extratextuais (a parte extratextual da estrutura artística constitui um componente perfeitamente real – por vezes muito significativo – do todo artístico [p. 186]), bem como atentarmos à construção gráfica. Além de variarem ao longo do tempo, “as ligações extratextuais têm um caráter muito subjetivo, que vai até ao individual-pessoal, que não cede por assim dizer à análise pelos meios atuais da ciência literária. Mas elas possuem também o seu conteúdo regular, histórica e socialmente condicionado e na sua totalidade estrutural podem perfeitamente ser objeto de estudo” [p. 186].

Anúncios
Esse post foi publicado em Poesia, Prosa, Teoria da Literatura e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s