Literatura e filosofia: prolegômenos [Parte 2]

Dando continuidade à apresentação do capítulo inicial de minha tese (ver a postagem do mês de novembro, neste site), apresento o subcapítulo em que trato da distinção entre o escritor de ficção e o filósofo. Para tanto, talvez inusitadamente, Heidegger e Genette são convocados. Tenham paciência: o texto é simples, mas exige alguma atenção. Não é, certamente, o tipo de texto que se lê na tela de um computador sem abdicar de outros prazeres, digamos, mais acessíveis, como, por exemplo, aqueles obtidos por meio da discrição do Orkut, da ausência de egocentrismo do Facebook e dos sempre reservados pop-ups do MSN…
O texto abaixo é o mesmo que se encontra no original, estando apenas as citações, que lá eram somente recuadas, também marcadas em azul aqui. As notas de rodapé estão ao final do texto e os números que apontam para elas vêm entre colchetes.
 
1.1.3 Possíveis classificações dos discursos filosófico e literário excedentes

Sabe-se que a anteposição, nos termos extremos de uma proposição que agora aqui se instaura, entre o filósofo sistemático e o simples escritor de literatura ficcional, ocupando ambos, respectivamente, o ponto mais alto e o ponto mais baixo de uma hipotética hierarquia, deriva de uma simplificação (basta citar um terceiro exemplo – os diálogos platônicos – como algo que não se encaixa totalmente nem em uma nem em outra categoria: se não há sistema em Platão também não se pode dizer que não haja filosofia, e só porque há diálogo não se pode dizer que haja somente poesia). Aceitando-se, porém, a artificialidade do citado caráter simplificador como abertura de um caminho para uma abordagem razoavelmente organizada de textos literários e filosóficos, o ponto principal passa a ser o de chamar a atenção para o fato de que os discursos que preenchem os termos médios da proposição aqui apresentada – isto é, tanto o que se poderia chamar de discurso filosófico não necessariamente sistemático, quanto o que se poderia chamar de discurso narrativo que busca algo além do simples narrar e descrever – também perscrutam e interpretam a seu modo aquilo a que se propõe o discurso sistemático (e considerado hegemônico) do cânone filosófico. Assim, tendendo a equiparar os dois termos médios ao termo mais alto da proposição, configura-se uma primeira hipótese de trabalho: diante do discurso filosófico tradicional e sistemático, sugerem-se as presenças até certo ponto concorrentes do “discurso filosófico não necessariamente sistemático” (ou, mais simplesmente, “discurso filosófico assistemático”) e de um “discurso narrativo que busca algo além do simples narrar e descrever” (ou, mais simplesmente, “discurso literário especulativo”). Descartam-se, portanto, como foco desta investigação, os termos extremos da proposição: o discurso filosófico sistemático e o discurso literário que somente narra e descreve (em geral, com o intuito básico do entretenimento, seja na produção, seja na recepção do texto).

Para sustentar e justificar a escolha dos termos médios da proposição, um filósofo e um teórico da literatura são citados a seguir. O primeiro (Heidegger) fala sobre a injustificada dificuldade de aceitação de outro filósofo (Nietzsche) – como filósofo – na academia de seu país. O segundo (Genette) disserta sobre a dificuldade inerente ao senso comum de perceber na narrativa algo mais do que um simples relato.

Durante muito tempo se declarou no meio acadêmico alemão que Nietzsche não era um pensador rigoroso, mas um ‘poeta-filósofo’. Nietzsche não teria lugar entre os filósofos, que pensam apenas sobre assuntos abstratos e obscuros, muito distantes da vida. Caso se queira, ainda assim, chamá-lo de filósofo, ele terá de ser considerado como um ‘filósofo da vida’. Essa rubrica, favorita e perene, serve ao mesmo tempo para nutrir a suspeita de que qualquer outro tipo de filosofia é algo para os mortos, sendo, no fundo, dispensável. Tal visão coincide totalmente com a opinião dos que prezam em Nietzsche o mesmo ‘filósofo da vida’ que finalmente teria aniquilado o pensamento abstrato. Esses julgamentos comuns sobre Nietzsche estão errados. O erro será conhecido apenas quando a confrontação com ele for ao mesmo tempo associada à confrontação com a questão fundamental da filosofia. [1] (HEIDEGGER, 1991a, p. 5) (grifos do autor).
Caso se aceite, por convenção, permanecer no domínio da expressão literária, definir-se-á sem dificuldade a narrativa como a representação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da linguagem, e mais particularmente da linguagem escrita. Esta definição positiva (e corrente) tem o mérito da evidência e da simplicidade; seu inconveniente principal é talvez, justamente, encerrar-se e encerrar-nos na evidência, mascarar a nossos olhos aquilo que precisamente, no ser mesmo da narrativa, constitui problema e dificuldade, apagando de certo modo as fronteiras do seu exercício, as condições de sua existência. Definir positivamente a narrativa é acreditar, talvez perigosamente, na idéia ou no sentimento de que a narrativa é evidente, de que nada é mais natural do que contar uma história ou arrumar um conjunto de ações em um mito, um conto, uma epopéia, um romance. (GENETTE, 1973, p. 255) (grifos do autor).

No que diz respeito à contraposição dos dois discursos filosóficos aqui apontados, o sistemático e o assistemático, a diferença seria fundamentalmente formal. Tanto que Heidegger não desprestigia a priori nenhum dos dois caminhos, chamando a atenção para a qualidade do texto nietzschiano como filosofia, independentemente da forma sob a qual se apresenta. Poder-se-ia dizer que Nietzsche marca sua presença no que se refere ao conteúdo mais fundamental da própria filosofia, que é, em resumo, além da tentativa de resposta à pergunta “o que é o ser?”,  também a  tentativa de resposta – com ou sem apelo à metafísica – à velha questão do porquê da existência de algo em vez de nada (“Por que existe afinal ente e não nada?”[2]). Assim, talvez se possa deduzir que, de qualquer maneira, tanto o sistema quanto a falta dele manter-se-iam (e manter-nos-iam) ainda sob o domínio itinerante da procura por uma resposta, pelo que somos e por quem somos.

Quanto ao discurso literário narrativo que vai além do mero narrar e descrever, aqui chamado de discurso literário especulativo, observa-se que a distinção não é, como na filosofia, eminentemente formal, mas valorativa, pois tal discurso não guarda dessemelhança material (isto é, textual) para com o discurso literário do simples contador de histórias. Há, porém, uma suposição – errônea – do público em geral de que a organização e sistematização que torna a narrativa necessária seja algo natural e singelo para o escritor, que somente estaria a reproduzir mimeticamente a realidade, e não a instaurar e criar situações que funcionam como subsídios para a formação do imaginário do leitor e de sua subjetividade, inserta no mundo. Ainda que seja difícil traçar uma fronteira entre uma e outra espécie de texto narrativo sem a citação de exemplos concretos, pode-se ao menos dizer, por ora, que é ao leitor que cabe, em seu percurso, conferir uma qualidade mais profunda àquilo que parece um simples contar, evitando reduzir a narrativa a algo por demais evidente, a um começo, a um meio e a um fim [3].

Assim, os dois autores citados, Heidegger e Genette, possibilitam ressaltar que uma determinada forma excedente do discurso filosófico e a (re)valorização do discurso literário sob outra perspectiva permitem ao leitor a concretização de algo que não deve ser tomado como necessariamente diferente ou distante no que diz respeito a seus conteúdos [4]. Se a linguagem utilizada e a forma adotada pelos dois discursos são distintas, definir o conteúdo de um como sendo obrigatoriamente mais ou menos filosófico ou literário que o do outro constitui um problema bastante complexo, que reclama o estabelecimento de um limite mais claro entre o que seja a filosofia e o que seja a literatura, algo que não se está apto a realizar conceitualmente aqui. É possível, contudo, traçar indicações por meio de exemplos e da escolha de dois autores/objetos específicos, ensaiando-se indutivamente a comparação e estabelecendo, ao longo e ao final do processo, uma diferença/semelhança entre discurso filosófico e discurso literário.

Em termos gerais, literatura e filosofia reclamam modos específicos de abordagem. Ambas, porém, não escapam à lógica de que só são literatura e filosofia porque há sempre um autor, um texto e um leitor. Para que se chegue a uma compreensão profunda daquilo que comumente se aceita como literatura, a prefiguração do discurso tido como literário (sugerida e perpetrada por um autor) interessa a esta análise tanto quanto dois outros fatores: a forma específica já objetivada sob a qual se oferece à fruição – isto é, o suporte material do texto (excluindo-se, como é natural à nossa época, a oralidade) – e a posterior concretização por parte do leitor. Sem a totalidade dessas três instâncias, produção, texto e recepção, a literatura não pode ser compreendida integralmente. Com isso, guarda-se certa distância do enfoque excessivamente cientificista presente nas análises formalistas e, mais tarde, estruturalistas, as quais acabavam por não contemplar a possibilidade de um fundamento ontológico da literatura, preferindo enclausurar-se muitas vezes em excessiva imanência [5]. Prepondera aqui, então e ao contrário, a perspectiva segundo a qual o texto literário estabelece-se por meio da consideração do leitor, do texto e do autor. O discurso filosófico, por sua vez, aponta mais facilmente para sua origem, porque está isento do signo da ficção e porque se identifica imediatamente (ou pelo menos assim se espera) com seu autor e com a sistematização eminentemente racional e objetiva de seu pensamento, aguardada pelo leitor. Assim, escrever filosofia assistematicamente é em certa medida solapar o cânone no que ele tem de mais petrificado: a razão – e o encadeamento sistemático a ela inerente. O aforismo repele a sistematização e, conseqüentemente, a tradição filosófica, exigindo um receptor que o leia independentemente e sem conexão necessária com o que se lhe segue, em pouca extensão textual.

Notas

[1] Esta questão é “O que é o ser?”, que Nietzsche, segundo Heidegger 1991a, p. 4, responde com a noção de “vontade de poder”. A mesma questão está em Aristóteles, Metafísica, 1028b: “E, em verdade, a questão que outrora se levantou, que ainda hoje é levantada e sempre o será, que sempre é matéria de dúvida – a saber o que é o ser – identifica-se com a questão: que é a substância? Pois é esta que alguns afirmam ser uma, outros mais de uma, e que uns dizem limitada em número e outros, ilimitada. E, por isso, também nós devemos considerar sobretudo, em primeiro lugar, e quase exclusivamente, o que é aquilo que é neste sentido.”
 [2] Esta pergunta se encontra em Que é metafísica?, de Heidegger (1996, p. 63).
 [3] No caso específico deste trabalho, tal percurso se dá sobre uma pequena parte da obra de Herman Melville.
 [4] “O conteúdo da filosofia existiu antes em forma de religião, na forma de mito, do que em forma de filosofia” (HEGEL, 1986, p.12).
 [5] A abordagem científica de cunho formalista e suas derivações, como se sabe, valorizam em demasia o plano da expressão, em detrimento do plano do conteúdo e dos aspectos semânticos, os quais, ao contrário, se relacionam intimamente com um estudo de caráter mais pretensamente eidético que se pretende realizar aqui. Quando somente o significante é valorizado, ainda que se argumente em favor do entrelaçamento forma/conteúdo, reduz-se quase que exclusivamente ao poema (à linguagem versificada, lírica) o caráter cognitivo do que se desvela pelo literário, ignorando, então, a narrativa, e também o drama, como formas sob as quais o pensamento poético também se estabelece. Esse procedimento exageradamente formalista, que contraria a possibilidade de que o romance seja uma forma sob a qual tanto a vida empírica quanto os valores últimos e absolutos da existência, isto é, sua (im)possível essencialidade, estejam conjugados, não será aqui utilizado, pois o texto literário a ser aqui analisado é narrativo.
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